A obra reúne contos inspirados em casos reais que
exploram culpa, medo e violência nas zonas sombrias da natureza humana.
Anatomia de um crime: histórias que
abalaram o mundo reúne contos baseados em casos reais que expõem o lado mais
profundo e contraditório da natureza humana. Cada narrativa mergulha em
acontecimentos que marcaram pessoas e épocas, revelando não apenas o crime, mas
as zonas de sombra onde nascem medo, culpa, desejo e violência. O leitor é
conduzido para além das manchetes, para o território incômodo onde a verdade
raramente é simples.
As histórias exploram múltiplas perspectivas e convidam o
leitor a enfrentar dilemas inevitáveis. Quem é a verdadeira vítima? Quem fala a
verdade? Até onde alguém pode ser levado por desespero, ambição ou vingança?
Humanos ou monstros? O julgamento é seu. Em cada conto, documentos, memórias e
versões conflitantes compõem um mosaico que desafia certezas e coloca em xeque
as fronteiras entre certo e errado.
Instigante e envolvente, esta antologia mostra que o
crime não termina quando a polícia encerra um caso. Ele continua vivo em quem
se lembra, em quem perdeu, em quem sobreviveu. Ao virar cada página, o leitor é
convidado a encarar a pergunta mais perturbadora de todas: o que realmente nos
separa daqueles que cruzam a linha?
FILEIRA F, POLTRONA 1 ( Conto de CELSO LOPES)
“FILEIRA F, POLTRONA 1”
Atirador do Cinema no
Shopping Morumbi: Em 03 de novembro de 1999, o estudante de medicina Mateus da Costa
Meira, 24 anos, abriu fogo contra
pessoas em uma sala de cinema do Shopping Morumbi, matando três e ferindo
outros, enquanto assistiam ao filme “Clube da Luta”. Neste Massacre, o autor utilizou uma submetralhadora 9 milímetros e
disparou entre 60 a 80 tiros na sala escura, por volta das 21h15. (fonte:
Google)
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O Doutor Luiz Marcos, cardiologista-cirurgião, já
deixava o consultório, encerrando um dia de intenso atendimento, quando a
secretária correu ao seu encontro, ainda no corredor do “Edifício Especialidades”: —
Doutor, Doutor Luiz... na correria ia me esquecendo, a Jéssica ligou e pediu
que levasse uma apostila que trata de biologia, com foco em genética e
fisiologia... O médico fez um ligeiro
retorno com o corpo, acentuando o seu
modo calmo, prestativo e de aparência tranquila.
— Vou
pegar na estante... não canso de dizer pra Jéssica que o perigo é deixar de lado a prova de
redação, a maioria não passa dessa fase... Refletiu, olhando e rindo
amigável pra Secretária: — Mas na verdade tudo é importante – concluiu. Em instantes, já com o livro na mão, folheou também outros títulos da estante,
detendo-se num escrito da área química: estequiometria, química orgânica,
inorgânica e eletroquímica. “— São importantes!...” — ponderou a si mesmo.A caminho do carro, ainda no corredor para o estacionamento, voltou-lhe
à mente seu passado dos anos inglórios e
tentativas-vãs para o vestibular de
medicina. Riu de si mesmo, pois exatamente a prova de redação eliminara-o por
duas vezes, seguidas, ainda que fizesse esforços em dobro no cursinho,
auxiliado pelo reforço do professor Francisco, o Chicão, — o fera mais reconhecido dos cursinhos na
área de redação, interpretação de textos
e língua portuguesa. - Boa noite,
Doutor!!! A voz do homem soou desconhecida, cortando-lhe o fluxo da
memória. Voz amigável, porém nova e aparentemente
irreconhecível. Redobrou o olhar, tentando, em vão, fazer um reconhecimento...—Boa Noite... se for
consulta, já encerrei o dia, mas pode subir que a secretária ainda atende,
orienta e agenda uma data!... — O assunto é outro, Doutor!... Pego de surpresa,
estancou-se junto ao carro com a chave na mão. Optou por não abrir ainda. Com o
olhar focado, rastreou o interlocutor e todo o ambiente à volta. Alguns carros
movimentavam-se nesse horário de saída. Reconheceu um ou outro deles, os colegas
dos andares diversos – Cardiologistas, Oftalmos, Urologia, Otorrinos e alguns cirurgiões.
— O
menino é o Theo... Jéssica, a sua filha, né?...Quem diria, já nas portas do
vestibular pra medicina?!...Não se controla a respiração diante de um tumulto ou de um turbilhão de palavras feito
navalhas. Saber que sabem tudo sobre a gente, nos deixa frágeis e impotentes. O
médico sentiu na pele que havia algo por esclarecer, ainda que preferisse estar
longe desse enfrentamento.
-—Como
sabe do Théo?... Como sabe da ...
-—Sei
também que você é craque no Golfe, Doutor!...
-—Como
assim?...Como?...
— E além
disso...sei que tem uma mira precisa no
Clube do Tiro, Doutor!...
—
Filhos da Puta, quem é você, quem são!?...
—Calma.
Fique calmo, Doutor... estamos em comum acordo com a ala antiga, encarregada de
fornecer os gabaritos. Agora chegou nossa vez.
Mas a nova ala respeita o silêncio
e o sigilo da mesma maneira, Doutor.
Jogando
o peso do corpo sobre a lateral do carro, o Doutor Luiz Marcos esforçava-se para manter o
equilíbrio diante de um passado que lhe chegava assim de supetão e violento, há
muito, caído no esquecimento. - Meu Deus,
tanto tempo... por que isso, agora? – praguejou, esperando respostas. -
Estamos entre nós, Doutor. Nosso grupo age assim em centenas de locais e com milhares
de clientes. Está tudo sob nosso domínio
nessa outra etapa agora. Veja só, demos um tempo de sobra, né, Doutor.
Aprovação com louvor no Vestibular. Acesso à faculdade de ponta. Residência
médica reconhecida...No mínimo, 7 a 10
anos de estudos e preparativos. O que ficou pra trás, ficou, Doutor.
Estamos em outro momento. Compramos o direito de seguir com aqueles nossos “alunos brilhantes” e de conceito “nota
dez” no ramo da medicina. São muitos, você sabe, Doutor!... Hoje, claro, todos estão
bem sucedidos e estáveis. É natural essa espécie de reciclagem. Em termos
financeiros, isso é um nada. Em termos de revelação pública, isso seria um desastre total na carreira!...- E o que
querem? — indagou o médico, respirando fundo, ofegante.— Digamos que é uma
espécie de mesada, Doutor!... Estamos cobrando um ano vencido e o ano atual.
100 mais 100... a conta fecha em 200 mil, Doutor Luiz Marcos!... Retomamos o
sigilo como missão!...Ah!... sem esquecer que temos ficha completa de todos,
incluindo familiares, filhos, amigos e entidades médicas. O cardiologista
sentia que ali experimentava um tanto do
seu próprio veneno. Uma forte emoção
desencadeava suor intenso e uma série de
sintomas no corpo e no coração. Hormônios em propulsão, estresse. Tremores. Alterações
na pressão arterial. Tensão muscular. Dores no pescoço e nos ombros. A
respiração em alta. Aceleração dos batimentos
cardíacos provocando uma reação imediata
como se preparasse o corpo para lutar ou fugir. - Fique tranquilo, Doutor!...
não acompanhei o que se passou há 20 e poucos anos, mas posso imaginar que a
compra dos gabaritos na primeira e segunda etapas, deve ter lhe causado a mesma sensação, não é
verdade!...Tanto tempo depois, não vamos jogar por terra uma iniciativa bem
sucedida para todos, concorda, Doutor? Além do mais, o cerco em nosso trabalho
vem se fechando cada vez mais. Temos que
fortalecer logísticas, parcerias e selecionar a dedo nossos novos clientes.
Mas, se obedecida as regras do jogo,
todos seguem no seu ritmo, Doutor Luiz
Marcos!...Por instantes, os olhos do cardiologista mantiveram-se fixos no
envelope disponível, entregue pela mão do homem a sua frente. Reteve-se o
quanto pode. Era lutar ou fugir. Assim, suas mãos trêmulas agarraram o
documento, sob o temor da voz reiterativa do homem: — Como eu disse se obedecida as regras do Jogo
Doutor Luiz Marcos, todos seguem no seu ritmo a vida inteira!... Enquanto
dirigia no trânsito já um tanto
rarefeito no inicio da noite, o cardiologista escolhia o álibi
necessário para se justificar do pequeno atraso. A princípio, o próprio trânsito, por exemplo. Nesse ínterim, seus olhos focaram o envelope sobre o banco
vazio. A esposa não poderia saber de algo tão antigo... e desonesto. Nunca lhe
contara. Aliás, nem mesmo seus pais, ainda vivos, sabiam de coisa alguma. Jéssica,
então, nem pensar, nem em sonhos... Dias
antes da matrícula, descobrira através de um cara bem manjado do cursinho, o Ney Ventania, apelidado também
de magrelão, que era possível pagar por
um gabarito. Tiro e queda - dissera - garantiam tudo sem risco. Era lutar ou fugir.
Resistira durante 2 anos seguidos, porém, no terceiro jurou que não enfrentaria
de “cara limpa” um novo vestibular da medicina.Temia uma nova reprovação.
Assim, retomou o contato, juntou o dinheiro e, tudo camuflado, garantiu a aprovação, sob um silêncio de ouro.
Como sempre houve denúncias, umas poucas, e vazias, não comprovaram nada. Tudo
abafado. O seu olhar agora, voltou-se,
furtivamente, para o envelope. Estacionou em um ponto estratégico e abriu o
documento. Seus olhos iam e vinham sob
as linhas escritas. Vez ou outra distraia-se, pensativo, olhando as luzes piscantes dos carros na avenida. Memorizou logo: o encontro em 2 dias
numa sala do cinema, locada para uma sessão exclusiva de um
filme especial. As letras grifadas sob o nome Jéssica ganharam explosão na sua voz: -Não, Não!...
Jéssica, não!... Filhos da puta. Filhos da puta!... Um último gesto marcaria
seus passos antes de entrar em casa: tentando
esconder sua raiva profunda e temerosa, o cardiologista picotou minuciosamente
o papel escrito e o envelope,
atirando-os, espalhafatosamente pedaço por pedaço nas ligeiras do prédio. Em casa, nem um pio
sobre o ocorrido. Somente alegou um dia estafante... e depois do expediente, um
trânsito infernal. Enquanto Helena, a esposa, tratava de alguns assuntos domésticos com a diarista,
Théo seguia ativo com seu vídeo-game;
carinhosa, Jéssica se aproximou e
esticou a mão, e o sorriso, relembrando o pedido das apostilas, sob um olhar
receoso e disfarçado do pai, que com esforço,
reiterava sobre a prova de
redação do vestibular: - A maioria perde pontos nessa prova. Dedique mais tempo nisso!...Eu mesmo, na época, tive que
fazer das tripas-coração para sair bem no tema – ainda me lembro até hoje: “A banalização da corrupção no dia-a-dia dos
brasileiros”. Jéssica riu e marcou sua posição sobre essa escolha,
diante do olhar falso do pai: - Pois é,
ainda hoje tem muito a ver com a gente – furar uma fila, dar carteirada pra ganhar
uma vaga, pagar propinas...e por aí vai...Pouco depois, o cardiologista alegava
em alto e bom tom, o descanso
necessário. Uma agenda complexa o esperava na manhã seguinte. Um procedimento
de ponte de safena no paciente da manhã, além de uma desobstrução de artérias
no paciente da tarde. Na vigília do sono, o cirurgião passara em revista o envelope com as regras a
serem cumpridas. Sacaria o dinheiro de aplicação sem levantar suspeitas com a
gerência. Diria simplesmente: Entrada para uma casa de campo no interior
paulista. Condomínio ainda em construção. Passo seguinte: acondicionar numa
maleta adequada e sem suspeitas. Posteriormente, entrar na sala indicada, fileira
F, poltrona 1, deixar a maleta no local, e
após 10 minutos do filme, sair à francesa, sem sequer olhar para traz.
Seria o único contato do ano. Quanto à Jéssica, intimada a ser uma “Colaboradora Especial de Captação de
Clientes”, pela importância do assunto, ficaria para um novo contato. Já de manhã, Doutor Luiz Marcos recomendou de imediato à secretaria que precisava desmarcar consultas agendadas para
o dia seguinte. Tinha compromisso
inadiável. Assim, nessa manhã seu caminho foi outro. Inicialmente, ponderou
sobre sua presença nesse encontro da desconhecida organização. Segundos depois,
debruçou atenção sobre o filme a que aludiam – pois já ouvira falar: “O Lobo de Wall Street”, filme que retratava
fraudes financeiras e práticas ilegais de enriquecimento; no filme,
diziam, a corrupção estava na ordem do dia. Sem saber
como, em instantes imprecisos, espocou-lhe alto. sob rigoroso tremor dos lábios
o nome da filha: Jéssica... Jéssica... Não, não... Jéssica, não!... ato
continuo esmurrou fortemente o volante sob seu grito cortante: Filhos da
puta!... Filhos da puta!... Na agência, pouco falou com o gerente, apenas
insistiu no dinheiro em espécie,
alegando que o dinheiro-vivo era
necessário para a aquisição da casa no condomínio. Já no estacionamento,
ajeitou a maleta com a cédulas no bagageiro; por instantes, conferiu a arma que sempre mantinha disponível para
eventualidades ou treinos no Clube. Ajeitou o casaco, acomodou e camuflou a
eventual defesa e a maleta, e seguiu em
frente já no pomposo Shopping Center, encaminhando-se para o piso-cinema,
terceiro andar, a ser vencido passo a passo
pelas escadas-rolantes... Pareceu-lhe que a senha de acesso à sala
indicada, fora a maleta, pois o bilheteiro enfatizou ágil: Pode entrar, estão esperando!...
O Doutor Luiz Marcos cadenciou os passos em meio ao
claro escuro da sala, ainda sem a projeção do filme. Pipocavam aqui e ali
alguns homens de terno escuro, todos
sentados e silenciosos. Um apenas se pronunciou alto, aos gritos de
reconhecimento: Luiz gogó, aqui, aqui... quanto tempo, gogó!?... Eu não disse que seria médico,
hein? Todos se voltaram para a expectativa criada. O
cirurgião-cardiologista, mesmo sem querer voltara ao tempo. A memória não o
havia abandonado. Sim, era ele. Ney Ventania... o Magrelão. Quem sabe, ali,
o líder da antiga ou dessa nova organização. Ambos, como que combinados,
mantiveram-se estáticos. Sim, quanto tempo, sentenciou para si mesmo o Doutor
Luiz Marcos, já se acomodando na fileira F, poltrona 1. O silenciou retornou
suave como a luz que se esmaecia. Por instantes, em milionésimos de pequenos
segundos, o cirurgião-cardiologista sentiu o frio e a tensão eclodirem pelo
corpo. Haveria de defender a filha, fosse como fosse. Ele sim, não ela,
mereceria esse encontro imponderável. Agora, era mesmo lutar ou fugir. Assim,
enquanto a luz dormitava lentamente para o escuro, seus braços abriram o casaco
de onde manuseou a submetralhadora Thompson, a preferida de Al Capone, pronta para os disparos. Seu faro de direção,
treinado no Clube do Tiro, eliminou, uma a uma, as chances de todos. Em especial a do Magrelão,
que ali sinalizara ser um elo que devia ser rompido. Da sua boca, intermitente, um som testemunhava
a salva de tiros que ressurgia a cada instante, aleatoriamente: -—
Jéssica, não! Jéssica, não!... Filhos da puta!... Filhos da puta!... Doutor Luiz Marcos, o cardiologista-cirurgião,
o cliente da fileira F, poltrona 1, depois de 54 tiros e 15 mortes contadas na sala do cinema,
deixou-se entregar à polícia; os agentes foram chamados num espaço considerável de
tempo, uma vez que na área externa, todos juravam ser um filme poderoso, quem sabe
o “Free Fire: O Tiroteio”, tendo em
vista o excesso interminável de tiros que ouviram.