sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

ANATOMIA DE UM CRIME (coletânea) Título: FILEIRA F, POLTRONA 1 - Celso Lopes

 



A obra reúne contos inspirados em casos reais que exploram culpa, medo e violência nas zonas sombrias da natureza humana.

 

Anatomia de um crime: histórias que abalaram o mundo reúne contos baseados em casos reais que expõem o lado mais profundo e contraditório da natureza humana. Cada narrativa mergulha em acontecimentos que marcaram pessoas e épocas, revelando não apenas o crime, mas as zonas de sombra onde nascem medo, culpa, desejo e violência. O leitor é conduzido para além das manchetes, para o território incômodo onde a verdade raramente é simples.

 

As histórias exploram múltiplas perspectivas e convidam o leitor a enfrentar dilemas inevitáveis. Quem é a verdadeira vítima? Quem fala a verdade? Até onde alguém pode ser levado por desespero, ambição ou vingança? Humanos ou monstros? O julgamento é seu. Em cada conto, documentos, memórias e versões conflitantes compõem um mosaico que desafia certezas e coloca em xeque as fronteiras entre certo e errado.

 

Instigante e envolvente, esta antologia mostra que o crime não termina quando a polícia encerra um caso. Ele continua vivo em quem se lembra, em quem perdeu, em quem sobreviveu. Ao virar cada página, o leitor é convidado a encarar a pergunta mais perturbadora de todas: o que realmente nos separa daqueles que cruzam a linha?







FILEIRA F, POLTRONA 1   ( Conto de CELSO LOPES)


“FILEIRA F, POLTRONA 1”

 

Atirador do Cinema no Shopping Morumbi: Em 03 de novembro de 1999, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, 24 anos,  abriu fogo contra pessoas em uma sala de cinema do Shopping Morumbi, matando três e ferindo outros, enquanto assistiam ao filme “Clube da Luta”. Neste Massacre,  o autor  utilizou uma submetralhadora 9 milímetros e disparou entre 60 a 80 tiros na sala escura, por volta das 21h15. (fonte: Google)

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O Doutor Luiz Marcos, cardiologista-cirurgião, já deixava o consultório, encerrando um dia de intenso atendimento, quando a secretária correu ao seu encontro, ainda no corredor do “Edifício Especialidades”: — Doutor, Doutor Luiz... na correria ia me esquecendo, a Jéssica ligou e pediu que levasse uma apostila que trata de biologia, com foco em genética e fisiologia... O médico fez um ligeiro retorno com o corpo,  acentuando o seu modo calmo, prestativo  e de aparência tranquila.

— Vou pegar na estante... não canso de dizer pra Jéssica  que o perigo é deixar de lado a prova de redação, a maioria não passa dessa fase... Refletiu, olhando e rindo  amigável pra Secretária: — Mas na verdade tudo é importante – concluiu. Em instantes, já com o livro  na mão, folheou também outros títulos da estante, detendo-se num escrito da área química: estequiometria, química orgânica, inorgânica e eletroquímica. “— São importantes!...” —  ponderou a si mesmo.A caminho do carro, ainda no corredor para o estacionamento, voltou-lhe à mente seu  passado dos anos inglórios e tentativas-vãs  para o vestibular de medicina. Riu de si mesmo, pois exatamente a prova de redação eliminara-o por duas vezes, seguidas, ainda que fizesse esforços em dobro no cursinho, auxiliado pelo reforço do professor Francisco, o Chicão,  — o fera mais reconhecido dos cursinhos na área  de redação, interpretação de textos e língua portuguesa.  - Boa noite, Doutor!!!   A voz do homem  soou desconhecida, cortando-lhe o fluxo da memória.  Voz amigável, porém nova e aparentemente irreconhecível. Redobrou o olhar, tentando, em vão,  fazer um reconhecimento...—Boa Noite... se for consulta, já encerrei o dia, mas pode subir que a secretária ainda atende, orienta e agenda uma data!... — O assunto é outro, Doutor!... Pego de surpresa, estancou-se junto ao carro com a chave na mão. Optou por não abrir ainda. Com o olhar focado, rastreou o interlocutor e todo o ambiente à volta. Alguns carros movimentavam-se nesse horário de saída. Reconheceu um ou outro deles, os colegas dos andares diversos – Cardiologistas, Oftalmos,  Urologia, Otorrinos e alguns cirurgiões.

— O menino é o Theo... Jéssica, a sua filha, né?...Quem diria, já nas portas do vestibular pra medicina?!...Não se controla a respiração diante de um  tumulto ou de um turbilhão de palavras feito navalhas. Saber que sabem tudo sobre a gente, nos deixa frágeis e impotentes. O médico sentiu na pele que havia algo por esclarecer, ainda que preferisse estar longe desse enfrentamento.

-—Como sabe do Théo?... Como sabe da ...

-—Sei também que você é craque no Golfe, Doutor!...

-—Como assim?...Como?...

— E além disso...sei que tem uma  mira precisa no Clube do Tiro, Doutor!...

— Filhos da Puta, quem é você,  quem são!?...

—Calma. Fique calmo, Doutor... estamos em comum acordo com a ala antiga, encarregada de fornecer os gabaritos. Agora chegou nossa vez.  Mas a  nova ala respeita o silêncio e o sigilo da mesma maneira, Doutor.  

Jogando o peso do corpo sobre a lateral do carro, o Doutor  Luiz Marcos esforçava-se para manter o equilíbrio diante de um passado que lhe chegava assim de supetão e violento, há muito, caído no esquecimento. - Meu Deus,  tanto tempo... por que isso, agora? – praguejou, esperando respostas. - Estamos entre nós, Doutor. Nosso grupo  age assim em centenas de locais e com milhares de clientes.  Está tudo sob nosso domínio nessa outra etapa agora. Veja só, demos um tempo de sobra, né, Doutor. Aprovação com louvor no Vestibular. Acesso à faculdade de ponta. Residência médica reconhecida...No mínimo, 7 a 10  anos de estudos e preparativos. O que ficou pra trás, ficou, Doutor. Estamos em outro momento. Compramos o direito de seguir com aqueles  nossos “alunos brilhantes” e de conceito “nota dez” no ramo da medicina. São muitos, você sabe, Doutor!... Hoje, claro, todos estão bem sucedidos e estáveis. É natural essa espécie de reciclagem. Em termos financeiros, isso é um nada. Em termos de revelação pública, isso seria   um desastre total na carreira!...- E o que querem? — indagou o médico, respirando fundo, ofegante.— Digamos que é uma espécie de mesada, Doutor!... Estamos cobrando um ano vencido e o ano atual. 100 mais 100... a conta fecha em 200 mil, Doutor Luiz Marcos!... Retomamos o sigilo como missão!...Ah!... sem esquecer que temos ficha completa de todos, incluindo familiares, filhos, amigos e entidades médicas. O cardiologista sentia que  ali experimentava um tanto do seu próprio veneno. Uma  forte emoção desencadeava suor intenso e  uma série de sintomas no corpo e no coração. Hormônios em propulsão, estresse. Tremores. Alterações na pressão arterial. Tensão muscular. Dores no pescoço e nos ombros. A respiração em alta.  Aceleração dos batimentos cardíacos provocando uma  reação imediata como se preparasse o corpo para lutar ou fugir. - Fique tranquilo, Doutor!... não acompanhei o que se passou há 20 e poucos anos, mas posso imaginar que a compra dos gabaritos na primeira e segunda etapas,  deve ter lhe causado a mesma sensação, não é verdade!...Tanto tempo depois, não vamos jogar por terra uma iniciativa bem sucedida para todos, concorda, Doutor? Além do mais, o cerco em nosso trabalho vem se  fechando cada vez mais. Temos que fortalecer logísticas, parcerias e selecionar a dedo nossos novos clientes. Mas,  se obedecida as regras do jogo, todos seguem no  seu ritmo, Doutor Luiz Marcos!...Por instantes, os olhos do cardiologista mantiveram-se fixos no envelope disponível, entregue pela mão do homem a sua frente. Reteve-se o quanto pode. Era lutar ou fugir. Assim, suas mãos trêmulas agarraram o documento, sob o temor da voz reiterativa do homem:  — Como eu disse se obedecida as regras do Jogo Doutor Luiz Marcos, todos seguem no seu ritmo a vida inteira!... Enquanto dirigia no trânsito já um tanto  rarefeito no inicio da noite, o cardiologista escolhia o álibi necessário para se justificar do pequeno atraso. A princípio, o próprio  trânsito, por exemplo. Nesse ínterim,  seus olhos focaram o envelope sobre o banco vazio. A esposa não poderia saber de algo tão antigo... e desonesto. Nunca lhe contara. Aliás, nem mesmo seus pais, ainda vivos, sabiam de coisa alguma. Jéssica, então, nem pensar, nem em sonhos...  Dias antes da matrícula, descobrira através de um cara bem manjado  do cursinho, o Ney Ventania, apelidado também de magrelão,  que era possível pagar por um gabarito. Tiro e queda -  dissera -  garantiam tudo sem risco. Era lutar ou fugir. Resistira durante 2 anos seguidos, porém, no terceiro jurou que não enfrentaria de “cara limpa” um novo vestibular da medicina.Temia uma nova reprovação. Assim,  retomou o contato, juntou  o dinheiro e, tudo camuflado,  garantiu a aprovação, sob um silêncio de ouro. Como sempre houve denúncias, umas poucas, e vazias, não comprovaram nada. Tudo abafado.  O seu olhar agora, voltou-se, furtivamente, para o envelope. Estacionou em um ponto estratégico e abriu o documento.  Seus olhos iam e vinham sob as linhas escritas. Vez ou outra distraia-se, pensativo,  olhando as luzes piscantes dos carros na  avenida. Memorizou logo: o encontro em 2 dias numa sala do cinema, locada para uma sessão exclusiva  de um  filme especial. As letras grifadas sob o nome Jéssica  ganharam explosão na sua voz: -Não, Não!... Jéssica, não!... Filhos da puta. Filhos da puta!... Um último gesto marcaria seus passos antes de entrar em casa:  tentando esconder sua raiva profunda e temerosa, o cardiologista picotou minuciosamente o papel escrito  e o envelope, atirando-os, espalhafatosamente pedaço por pedaço  nas ligeiras do prédio. Em casa, nem um pio sobre o ocorrido. Somente alegou um dia estafante... e depois do expediente, um trânsito infernal. Enquanto Helena, a esposa, tratava de  alguns assuntos domésticos com a diarista, Théo seguia  ativo com seu vídeo-game; carinhosa, Jéssica se aproximou e  esticou a mão, e o sorriso, relembrando o pedido das apostilas, sob um olhar receoso e disfarçado do pai, que com esforço,  reiterava sobre  a prova de redação do vestibular: - A maioria perde pontos nessa prova. Dedique mais  tempo nisso!...Eu mesmo, na época, tive que fazer das tripas-coração para sair bem no tema – ainda me lembro até hoje:  “A banalização da corrupção no dia-a-dia dos brasileiros”. Jéssica riu e marcou sua posição sobre essa escolha, diante do olhar falso do pai: - Pois é, ainda hoje tem muito a ver com a gente – furar uma fila, dar carteirada pra ganhar uma vaga, pagar propinas...e por aí vai...Pouco depois, o cardiologista alegava em alto e bom tom, o  descanso necessário. Uma agenda complexa o esperava na manhã seguinte. Um procedimento de ponte de safena no paciente da manhã, além de uma desobstrução de artérias no paciente da tarde. Na vigília do sono, o cirurgião  passara em revista o envelope com as regras a serem cumpridas. Sacaria o dinheiro de aplicação sem levantar suspeitas com a gerência. Diria simplesmente: Entrada para uma casa de campo no interior paulista. Condomínio ainda em construção. Passo seguinte: acondicionar numa maleta adequada e sem suspeitas. Posteriormente, entrar na sala indicada, fileira F, poltrona 1, deixar a maleta no local, e  após 10 minutos do filme, sair à francesa, sem sequer olhar para traz. Seria o único contato do ano. Quanto à Jéssica, intimada a  ser uma “Colaboradora Especial de Captação de Clientes”, pela importância do assunto, ficaria para um novo contato.  Já de manhã, Doutor Luiz Marcos  recomendou de imediato à secretaria que  precisava desmarcar consultas agendadas para o dia  seguinte. Tinha compromisso inadiável. Assim, nessa manhã seu caminho foi outro. Inicialmente, ponderou sobre sua presença nesse encontro da desconhecida organização. Segundos depois, debruçou atenção sobre o filme a que aludiam – pois já ouvira falar:  “O Lobo de Wall Street”, filme que retratava fraudes financeiras e práticas ilegais de enriquecimento; no filme, diziam,  a  corrupção estava na ordem do dia. Sem saber como, em instantes imprecisos, espocou-lhe alto. sob rigoroso tremor dos lábios o nome da filha: Jéssica... Jéssica... Não, não... Jéssica, não!... ato continuo esmurrou fortemente o volante sob seu grito cortante: Filhos da puta!... Filhos da puta!... Na agência, pouco falou com o gerente, apenas insistiu no dinheiro em  espécie, alegando que o  dinheiro-vivo era necessário para a aquisição da casa no condomínio. Já no estacionamento, ajeitou a maleta com a cédulas no bagageiro; por instantes,  conferiu  a arma que sempre mantinha disponível para eventualidades ou treinos no Clube. Ajeitou o casaco, acomodou e camuflou a eventual defesa e a maleta, e  seguiu em frente já no pomposo Shopping Center, encaminhando-se para o piso-cinema, terceiro andar, a ser vencido passo a passo  pelas escadas-rolantes... Pareceu-lhe que a senha de acesso à sala indicada, fora a maleta, pois o bilheteiro enfatizou ágil:  Pode entrar, estão esperando!...

O Doutor Luiz Marcos cadenciou os passos em meio ao claro escuro da sala, ainda sem a projeção do filme. Pipocavam aqui e ali alguns homens  de terno escuro, todos sentados e silenciosos. Um apenas se pronunciou alto, aos gritos de reconhecimento:  Luiz gogó, aqui, aqui... quanto tempo, gogó!?... Eu não disse que  seria médico, hein? Todos se voltaram para a expectativa criada. O cirurgião-cardiologista, mesmo sem querer voltara ao tempo. A memória não o havia abandonado. Sim, era ele. Ney Ventania... o Magrelão. Quem sabe, ali,  o líder da antiga ou dessa nova organização. Ambos, como que combinados, mantiveram-se estáticos. Sim, quanto tempo, sentenciou para si mesmo o Doutor Luiz Marcos, já se acomodando na fileira F, poltrona 1. O silenciou retornou suave como a luz que se esmaecia. Por instantes, em milionésimos de pequenos segundos, o cirurgião-cardiologista sentiu o frio e a tensão eclodirem pelo corpo. Haveria de defender a filha, fosse como fosse. Ele sim, não ela, mereceria esse encontro imponderável. Agora, era mesmo lutar ou fugir. Assim, enquanto a luz dormitava lentamente para o escuro, seus braços abriram o casaco de onde manuseou a submetralhadora Thompson, a preferida de Al Capone,  pronta para os disparos. Seu faro de direção, treinado no Clube do Tiro, eliminou, uma a uma,  as chances de todos. Em especial a do Magrelão, que ali sinalizara ser um elo que devia ser rompido.  Da sua boca, intermitente, um som testemunhava a salva de tiros que ressurgia a cada instante,  aleatoriamente:  -—  Jéssica, não! Jéssica, não!... Filhos da puta!... Filhos da puta!...  Doutor Luiz Marcos, o cardiologista-cirurgião, o cliente da fileira F, poltrona 1, depois de 54 tiros  e 15 mortes contadas na sala do cinema, deixou-se entregar à polícia; os agentes  foram chamados num espaço considerável de tempo, uma vez que na área externa,  todos juravam ser um filme poderoso, quem sabe o “Free Fire: O Tiroteio”, tendo em vista o excesso interminável de tiros que  ouviram.