“A
ESTRELA DE JEREMIAS”
Romance-thriller
de Lúcia Andrade ampara
os ‘vulneráveis’
e expõe os ‘intocáveis’.
Já na segunda página do livro , o leitor
se depara com uma advertência “tarja
preta”: “Trata-se de temas delicados que podem causar gatilhos como abuso
sexual, agressão, uso de substâncias ilícitas, violência doméstica e
pedofilia. Caso tenha alguma dificuldade
ao lidar com esses temas, peça acompanhamento profissional ou interrompa a
leitura.”. Assim tem início o
romance de Lúcia Andrade, A Estrela de Jeremias, que, aliando-se à nota, esclarece:
A história me veio à mente já com
o nome de Jeremias, da irmã dele (Rebeca) e do vilão (Coronel. Edmundo
Masagão). Obra terminada, a autora deu o seu veredicto: “defino
(o romance) como um ensaio de tortura física e psicológica”. E para tanto,
para se chegar a esse ponto vital, a autora pôs-se à luta em pesquisas de
campo, descobrindo histórias escandalosamente piores, além de aberrações em
alto grau, talvez, mesmo, superiores àquela que rascunhara. A história estava
contada: “Não era imaginação minha. Todos
os relatos eram verídicos . E eram apenas alguns dentre muitos (...) Ainda
existem lugares onde a moeda de troca mais forte se chama miséria”
Ao
logo desse romance-thriller, podemos
acompanhar algumas nuances e os intrincados caminhos criados para a construção narrativa. Vejamos uma conversa de Masagão com seu amigo
Médico: “ Você foi perfeito – disse o
dono da casa com entusiasmo. – Aprendi com você.- Não vai se arrepender. Te
devo mais esta. O que achou do meu garoto novo? – Estou impressionado. Apesar
da pobreza, ele parece filho de rico. - Parece um príncipe. – Príncipe com
jeito de anjo, do jeito que você gosta.
Como veio parar aqui? - É uma longa história. Um dia te conto. O importante é
que daqui ele não sai mais!... – Vai servir um tira-gosto, não vai? – Talvez.
Ainda estou preparando o terreno para na hora certa dar o bote. - Ah. Edmundo,
você é terrível. – Agora tenho nas mãos o material que queria. Carne de
primeira!... – Você quer filé mignon ao ponto!...- Exatamente!..Jeremias é
especial. E agora é só meu!...(Cap. A CASA SOMBRIA).
Na
sequencia, assim se dá os preparativos do Coronel Masagão, definindo que a hora
havia chegado. Momento também de chamar e orientar o ajudante Tadeu: “- A partir de hoje o quarto de Jeremias deve
ser trancado à noite.(...) Quando já estava quase adormecendo,
(Jeremias) sentiu um toque em sua coxa. Abriu os olhos, sobressaltado (...) Não tenha medo (...) - Ei, ei...calma!
Eu só quero te fazer carinho. Só isso. Vem cá! Jeremias continuou encolhido,
acuado. Masagão com um gesto rápido o puxou pelas pernas em sua direção. O
menino lutou, se dabateu, mas o homem conseguiu alcançar seu pescoço , dando
lhe um a gravata, e com o peso do seu
corpo imobilizou Jeremias sob ele.
Masagão o algemou à cabeceira da cama e depois o amordaçou. O garoto
ainda se debatia mas não tinha como se livrar. O homem então despiu a parte de
baixo da roupa da criança, arriou a calça do seu pijama e com crueldade,
estuprou o menino (...) (
Cap. A PERDA DA INOCÊNCIA)
Romance premiado no concurso literário coordenado pela UBE/RJ
(2009), da autora Lúcia Andrade, escritora autodidata, que a despeito de guerreira frente a
sua saúde física, cria uma fortaleza de corpo e alma e se põe “de frente pro crime” em sua narrativa antipedofilia, numa venerável criação com base
em fatos reais. Sendo direto ao ponto, um trecho da divulgação da Editora Emó,
na quarta-capa, reforça, positivamente,
esse propósito da autora:
(...)
O contexto deste livro é mais que uma simples narrativa de sofrimento, é um
reflexo das muitas crianças que, assim como Jeremias, enfrentam realidades
devastadoras e lutam para se libertar das correntes que as aprisionam. Em
tempos em que o combate ao abuso infantil é uma questão de urgência social,
essa história, apesar de ficcional, se mostra essencial para abrir os olhos da
sociedade e incentivar a empatia e a ação (...)
Um trecho de destaque do livro,
sobressai-se à habilidade da autora ao atribuir ao seu personagem Jeremias, uma memória fotográfica, fato que torna oportuna e favorável a evolução do
texto, dotando-o de verdade, de ritmo, de nuances fortes e suspense à altura do
projeto literário. Mérito esse que deve ser creditado, com louvor, à autora em
seu mecanismo de olhar o mundo, de busca, de pesquisa, de criação e seleção dos pontos altos, e até mesmo de
crueza elevada a algumas potências,
elementos esses necessários à força motriz desse romance-denúncia.
Dentro dessa linha de
observação, há suportes humanos precisos, além de conflitos expressivos para situar a narrativa
de Lúcia Andrade num contexto de Romance-thriller, capaz de enfrentar e romper os muros dos privilegiados e
intocáveis, cujo panteão surge na figura do personagem-símbolo, Coronel Edmundo Masagão. Nesse confronto, o opressor Masagão terá pela frente, diante de seus
abusos e mando, o seu desafeto maior, constante,
contínuo, de enfrentamento sem recuo e de resiliência ímpar, ou seja, Jeremias, cujo
nome, de origem hebraica, em tradução básica, sugere-se “ O elevado por Deus”.
Assim, será ele, Jeremias, tal qual um profeta dotado de garra, liderança física, prática e
espiritual, cuja perseverança nos conduz
para a implosão dessa ‘zona de conforto opressora’ do velho e
conhecido “Coronelismo” brasileiro.
No trecho de sua delicada e
honesta apresentação, Lúcia Andrade nos revela e se pergunta: “ Desde que soube da morte dele, ainda na
minha infância, nasceu o desejo de contar um pouco da história de dor do menino
César, o Cesinha, que foi para o céu. (...) Naquela manhã acordei chorando com
a emoção do protagonista da história, mas me perguntava, como eu, mulher, mãe
de um menino, e uma pessoa que abomina qualquer tipo de violência sexual, seja
contra homem, mulher ou criança, poderia
escrever sobre esse tema?”
Quero crer que a resposta surge em cada página. A autora fez-se
à necessária superação. Isso por que A Estrela de Jeremias, que reputo como um “romance-thriller”, nasceu mesmo como uma metáfora simbolizando
denúncias e pontes para as mudanças
necessárias e éticas, disposto a
alcançar a liberdade e o
bem-estar humano e humanitário. Sendo
assim, a narrativa em questão ultrapassa o gênero de entretenimento,
tornando-se um instrumento que expõe um sistema tão permissivo à opressão, em
especial, sobre os mais vulneráveis, sejam esses crianças ou adultos, homens ou
mulheres.
Nessa linha, a narrativa tensiona as estruturas de poder,
como uma crítica social, expondo aqueles
que se mantêm protegidos por sistemas que perpetuam essas desigualdades. Cabe
aqui, portanto, nesse romance de leitura obrigatória e essencial, um olhar como
fosse um audiovisual, ou seja, um filme,
um thriller, cuja dramaturgia e
cenas estão quase prontas, e atuam como mecanismos de desestabilização de dominadores
que, sem trégua e sob o silêncio de quem deveria coibir, atuam em campo livre e com sorriso nos
lábios, impunementes.
- O que não falta para esse
foco de trhiller?
Há ritmos latentes,
conflitos intensos e revelações diversas, ou seja, estamos nós, leitores, ou
possíveis espectadores, num campo minado, onde a “zona de perigo” nos persegue como uma constante até o seu desfecho.
O thriller, então, seria um
elemento que rompe a blindagem, com a
obrigação expor ao público o objeto de reflexão, ou seja, A Estrela de Jeremias avança para o romance de tensão, que não apenas entretém,
mas provoca. E muito. O bastante!...
E assim, entrega o
prometido: pois além de focar nas vítimas, coloca sob luz
intensa os agentes da opressão (sejam eles traficantes, coronéis, padres e
muitos outros), questionando suas certezas e expondo e aniquilando as fragilidades.
Nessa linha de direção, cabe
acentuar na lembrança, o filme “Cidade de Deus”, originalmente, um competente
romance de fôlego do autor Paulo Lins, e posteriormente, transposto para a tela pelas mãos hábeis de
roteiristas e respectiva atuação dos diretores. Se nesse, Cidade de Deus, entra
em cena o ambiente dominado pelo tráfico de drogas em décadas passadas, aqui,
em A Estrela de Jeremias, mantém-se a continuidade de usuários, consumidores e
máfias protegidas com todas as suas
decorrências – seja em crimes de morte,
pedofilia, roubo, extorsão, abuso infantil, prostituição e violências diversas.
Se naquele, pode-se falar,
em especial, nas vivências locais do autor; neste, A Estrela de Jeremias,
deve-se enaltecer o produto fiel da
pesquisa de Lúcia Andrade, envolvendo-nos com sua linguagem dura, fria, com
narrativa ágil e envolvente, além de personagens bem-construídos para a sustentação
do seu primeiro romance.
Paulatinamente, a autora vem
se despontando com sua escrita compromissada com o leitor, seja no campo
poético (Religare/Poesias), seja com olhar para a infância e o futuro ( O lixo
tem pernas?), ou ainda, Cabelos de Pequeno Príncipe, Umessias VS Eugenia, e outros.
Livro de fôlego, que beira à 400 páginas, A Estrela de Jeremias, de Lúcia Andrade, autora promissora e impetuosa, embasando seu
romance em linguagem realista, capaz de reconstruir o universo de vulneráveis e
desfavorecidos, tanto quanto, de figuras
emblemáticas de um Brasil opressor, ao refletir esse cotidiano caótico que
sobrevive à ficção, entendo que o romance segue à espera de um olhar de
“fazedores” do nosso audiovisual, pois carrega em seu bojo, ingredientes
extremamente indispensáveis para uma transmutação de linguagem. Vale o escrito.
Aguarda-se o desafio.
Celso Lopes / Escritor
10/março/26
Nenhum comentário:
Postar um comentário