quinta-feira, 12 de março de 2026

A ESTRELA DE JEREMIAS - ROMANCE DE LÚCIA ANDRADE ( Resenha: CELSO LOPES)

 

       

“A ESTRELA DE JEREMIAS”

Romance-thriller de Lúcia Andrade ampara

os ‘vulneráveis’ e  expõe os ‘intocáveis’.

 

 

Já na segunda página do livro , o leitor se depara com  uma advertência “tarja preta”: Trata-se de temas delicados que podem causar gatilhos como abuso sexual, agressão, uso de substâncias ilícitas, violência doméstica e pedofilia.  Caso tenha alguma dificuldade ao lidar com esses temas, peça acompanhamento profissional ou interrompa a leitura.”.  Assim tem início o romance de Lúcia Andrade, A Estrela de Jeremias,  que, aliando-se à nota,  esclarece:  A história me veio à mente já com o nome de Jeremias, da irmã dele (Rebeca) e do vilão (Coronel. Edmundo Masagão). Obra terminada, a autora deu o seu veredicto:  “defino (o romance) como um ensaio de tortura física e psicológica”. E para tanto, para se chegar a esse ponto vital, a autora pôs-se à luta em pesquisas de campo, descobrindo histórias escandalosamente piores, além de aberrações em alto grau, talvez, mesmo, superiores àquela que rascunhara. A história estava contada: “Não era imaginação minha. Todos os relatos eram verídicos . E eram apenas alguns dentre muitos (...) Ainda existem lugares onde a moeda de troca mais forte se chama miséria” 

Ao logo desse  romance-thriller, podemos acompanhar algumas nuances e os intrincados caminhos criados para  a construção narrativa.  Vejamos uma conversa de Masagão com seu amigo Médico:  “ Você foi perfeito – disse o dono da casa com entusiasmo. – Aprendi com você.- Não vai se arrepender. Te devo mais esta. O que achou do meu garoto novo? – Estou impressionado. Apesar da pobreza, ele parece filho de rico. - Parece um príncipe. – Príncipe com jeito  de anjo, do jeito que você gosta. Como veio parar aqui? - É uma longa história. Um dia te conto. O importante é que daqui ele não sai mais!... – Vai servir um tira-gosto, não vai? – Talvez. Ainda estou preparando o terreno para na hora certa dar o bote. - Ah. Edmundo, você é terrível. – Agora tenho nas mãos o material que queria. Carne de primeira!... – Você quer filé mignon ao ponto!...- Exatamente!..Jeremias é especial. E agora é só meu!...(Cap. A CASA SOMBRIA).

Na sequencia, assim se dá os preparativos do Coronel Masagão, definindo que a hora havia chegado. Momento também de chamar e orientar o ajudante Tadeu:  “- A partir de hoje o quarto de Jeremias deve ser trancado à noite.(...) Quando já estava quase adormecendo, (Jeremias) sentiu um toque em sua coxa. Abriu os olhos, sobressaltado (...) Não tenha medo (...) - Ei, ei...calma! Eu só quero te fazer carinho. Só isso. Vem cá! Jeremias continuou encolhido, acuado. Masagão com um gesto rápido o puxou pelas pernas em sua direção. O menino lutou, se dabateu, mas o homem conseguiu alcançar seu pescoço , dando lhe um a gravata,  e com o peso do seu corpo imobilizou Jeremias sob ele.  Masagão o algemou à cabeceira da cama e depois o amordaçou. O garoto ainda se debatia mas não tinha como se livrar. O homem então despiu a parte de baixo da roupa da criança, arriou a calça do seu pijama e com crueldade, estuprou o menino (...)  ( Cap. A PERDA DA INOCÊNCIA)

Romance premiado  no concurso literário coordenado pela UBE/RJ (2009), da autora Lúcia Andrade, escritora autodidata, que  a despeito de guerreira  frente a   sua saúde física, cria uma fortaleza de corpo e alma e se põe “de frente pro crime” em sua narrativa  antipedofilia, numa venerável criação com base em fatos reais. Sendo direto ao ponto, um trecho da divulgação da Editora Emó, na quarta-capa, reforça, positivamente,  esse propósito da autora:

(...) O contexto deste livro é mais que uma simples narrativa de sofrimento, é um reflexo das muitas crianças que, assim como Jeremias, enfrentam realidades devastadoras e lutam para se libertar das correntes que as aprisionam. Em tempos em que o combate ao abuso infantil é uma questão de urgência social, essa história, apesar de ficcional, se mostra essencial para abrir os olhos da sociedade e incentivar a empatia e a ação (...)

Um trecho de destaque do livro, sobressai-se à habilidade da autora ao atribuir ao seu personagem Jeremias,  uma memória fotográfica, fato  que torna oportuna e favorável a evolução do texto, dotando-o de verdade, de ritmo, de nuances fortes e suspense à altura do projeto literário. Mérito esse que deve ser creditado, com louvor, à autora em seu mecanismo de olhar o mundo, de busca, de pesquisa, de criação e  seleção dos pontos altos, e até mesmo de crueza elevada a algumas potências,  elementos esses necessários à força motriz desse romance-denúncia.

Dentro dessa linha de observação, há  suportes humanos  precisos, além de  conflitos expressivos para situar a narrativa de Lúcia Andrade num contexto de Romance-thriller,   capaz de enfrentar e  romper os muros dos privilegiados e intocáveis, cujo panteão surge na figura do personagem-símbolo,  Coronel Edmundo Masagão.  Nesse confronto, o opressor  Masagão terá pela frente, diante de seus abusos e mando,  o seu desafeto maior, constante, contínuo, de enfrentamento sem recuo e de  resiliência ímpar, ou seja, Jeremias, cujo nome, de origem hebraica, em tradução básica, sugere-se “ O elevado por Deus”. Assim, será ele, Jeremias, tal qual um profeta  dotado de garra, liderança física, prática e espiritual, cuja perseverança nos  conduz  para a implosão dessa  ‘zona de conforto opressora’ do velho e conhecido “Coronelismo” brasileiro.

No trecho de sua delicada e honesta apresentação, Lúcia Andrade nos revela e se pergunta: “ Desde que soube da morte dele, ainda na minha infância, nasceu o desejo de contar um pouco da história de dor do menino César, o Cesinha, que foi para o céu. (...) Naquela manhã acordei chorando com a emoção do protagonista da história, mas me perguntava, como eu, mulher, mãe de um menino, e uma pessoa que abomina qualquer tipo de violência sexual, seja contra homem, mulher ou criança, poderia  escrever sobre esse tema?”

Quero crer que a  resposta surge em cada página. A autora fez-se à necessária superação. Isso por que A Estrela de Jeremias, que reputo como um  “romance-thriller”,  nasceu mesmo como uma metáfora simbolizando denúncias e  pontes para as mudanças necessárias e éticas, disposto a  alcançar a  liberdade e o bem-estar humano e humanitário.  Sendo assim, a narrativa em questão ultrapassa o gênero de entretenimento, tornando-se um instrumento que expõe um sistema tão permissivo à opressão, em especial, sobre os mais vulneráveis, sejam esses crianças ou adultos, homens ou mulheres.  

Nessa linha,  a narrativa tensiona as estruturas de poder, como uma crítica social,  expondo aqueles que se mantêm protegidos por sistemas que perpetuam essas desigualdades. Cabe aqui, portanto, nesse romance de leitura obrigatória e essencial, um olhar como fosse um audiovisual, ou seja, um filme,  um thriller,  cuja dramaturgia e cenas estão quase prontas,  e atuam como  mecanismos de desestabilização de dominadores que, sem trégua e sob o silêncio de quem deveria coibir,  atuam em campo livre e com sorriso nos lábios, impunementes.

- O que não falta para esse foco de trhiller?

Há ritmos latentes, conflitos intensos e revelações diversas, ou seja, estamos nós, leitores, ou possíveis espectadores, num campo minado, onde a “zona de perigo”  nos persegue como  uma constante até o seu desfecho.

O thriller, então, seria um elemento que rompe  a blindagem, com a obrigação expor ao público o objeto de reflexão, ou seja,  A Estrela de Jeremias avança para o  romance de tensão, que não apenas entretém, mas provoca. E muito. O bastante!...

E assim, entrega o prometido:  pois   além de focar nas vítimas, coloca sob luz intensa os agentes da opressão (sejam eles traficantes, coronéis, padres e muitos  outros),  questionando suas  certezas e expondo e aniquilando as  fragilidades.

Nessa linha de direção, cabe acentuar na lembrança, o filme “Cidade de Deus”, originalmente, um competente romance de fôlego do autor Paulo Lins, e posteriormente,  transposto para a tela pelas mãos hábeis de roteiristas e respectiva atuação dos diretores. Se nesse, Cidade de Deus, entra em cena o ambiente dominado pelo tráfico de drogas em décadas passadas, aqui, em A Estrela de Jeremias, mantém-se a continuidade de usuários, consumidores e máfias protegidas com  todas as suas decorrências – seja em  crimes de morte, pedofilia, roubo, extorsão, abuso infantil, prostituição e  violências diversas.

Se naquele, pode-se falar, em especial, nas vivências locais do autor; neste, A Estrela de Jeremias, deve-se enaltecer o produto  fiel da pesquisa de Lúcia Andrade, envolvendo-nos com sua linguagem dura, fria, com narrativa ágil e envolvente, além de personagens bem-construídos para a sustentação do seu primeiro romance.

Paulatinamente, a autora vem se despontando com sua escrita compromissada com o leitor, seja no campo poético (Religare/Poesias), seja com olhar para a infância e o futuro ( O lixo tem pernas?), ou ainda, Cabelos de Pequeno Príncipe, Umessias VS Eugenia,  e outros.    Livro de fôlego, que beira à 400 páginas,  A Estrela de Jeremias, de Lúcia Andrade,  autora promissora e impetuosa, embasando seu romance em linguagem realista, capaz de reconstruir o universo de vulneráveis e desfavorecidos,  tanto quanto, de figuras emblemáticas de um Brasil opressor, ao refletir esse cotidiano caótico que sobrevive à ficção, entendo que o romance segue à espera de um olhar de “fazedores” do nosso audiovisual, pois carrega em seu bojo, ingredientes extremamente indispensáveis para uma transmutação de linguagem. Vale o escrito. Aguarda-se o desafio.

 

 

 

Celso Lopes / Escritor

elipse84@terra.com.br

10/março/26

 

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