A coletânea
“Crônicas para boi nenhum dormir” é um convite à leitura que desperta,
surpreende e encanta. O título brinca com a conhecida expressão popular
“conversa para boi dormir”, usada para designar histórias sem fundamento,
enrolações e discursos vazios. Aqui, no entanto, o sentido se inverte: as
crônicas reunidas nestas páginas são tudo, menos desinteressantes. Elas
provocam, divertem, emocionam e nos lembram que a literatura é feita para
manter os olhos e a mente bem abertos.
A crônica, gênero
que ganhou vida própria no Brasil, nasceu ligada ao jornalismo, com textos
breves que comentavam o cotidiano e os acontecimentos do momento. Com o tempo,
consolidou-se como uma das formas literárias mais queridas de nossos leitores,
por sua capacidade única de transformar o banal em poesia, o comum em reflexão
e o detalhe em eternidade.
Nesta coletânea, o
leitor encontrará a diversidade do gênero em sua plenitude: crônicas
cotidianas, que revelam o encanto escondido no dia a dia; crônicas
humorísticas, que nos arrancam o riso; crônicas sociais, que nos convidam à
reflexão; crônicas poéticas, que se aproximam do lirismo; e crônicas
narrativas, que contam pequenas grandes histórias. Cada página traz um olhar
singular, uma perspectiva que, ainda que breve, tem a força de permanecer.
(Crônica de Celso Lopes)
Registra-se que o exército suíço fez encomenda de um aparelho que atendesse às seguintes necessidades: resistência, praticidade, facilidade de transporte, leve e com muita versatilidade. Pronto. Surgiu o “Canivete Suíço” (SwissArmyKnife), logo incorporado como um utensílio multiuso, capaz de entregar o prometido. Dessa forma, o conceito do Canivete Suíço, utilitário, expandiu-se largamente, pois não somente a lâmina é útil, como também inúmeras outras inovações, incluindo até mesmo, a função de Pen-Drive...
O escritor americano Cormac
McCarthy, que se destaca dentre os grandes nomes da literatura contemporânea, teria enxergado
em sua máquina de escrever Olivetti, uma
metáfora precisa, registrada por ele em uma única palavra:“- Estupenda!..”. Afirma-se que diante da perplexidade de um aluno sobre a sua Olivetti, que teria
perguntado: - O que é isto?” .
McCarthy, tranquilo, não titubeou: “ isto é um raro talismã, chego a imaginá-lo
como uma
escultura do monte Rushmore,
sendo feita, calmamente, pausadamente, com um “Canivete-Suíço”.. A imaginação do escritor vai além dessa referência para enaltecer sua “Estupenda” máquina de escrever, no que é seguido por uma legião de admiradores-escritores. Tom Hanks, por
exemplo, no seu primeiro livro de ficção (Tipos Incomuns –
Algumas histórias), mantém o enredo girando em torno da sua paixão
pela máquina de escrever. Os contos têm algo em comum: em todos eles,
ela desempenha um papel importante. Além
disso, o autor é dono de uma centena delas, mas hoje, avançando no tempo, garante que já
redige suas histórias em um Notebook... Esse “canivete suíço” nas mãos
de autores dessa estirpe, como Agatha
Christie com sua Hemington No.2... Orson
Welles com sua Underwood, com nome e endereço pintados na caixa... Danielle
Steel com sua Olympia, carinhosamente chamada “Ollie”, Ian Fleming com a
Triumph... Jack Kerouac com sua Hermes 3000, sem dúvida, reforçam e desvendam centenas de amantes da
antiga máquina de escrever que ganhou
escala industrial pelas
mãos da Remington e,
posteriormente, se popularizou sendo usada por empresas, órgãos públicos e, é
claro, por um amplo universo de estudantes, escritores, etc. Até que fosse voto vencido pelo computador, o último fabricante, indiano, fechou suas
portas em 2011. Mas, acautelemo-nos: a
máquina de escrever, mesmo nesses novos tempos, continua como ícone, como um dos símbolos da escrita e literatura, e
neste caso, amparada pelos seus inúmeros
seguidores/escritores. É possível
inserir que no crepúsculo das letras em teclas, quando o tilintar dos tipos
mecânicos se dissolve num silêncio obrigatório
diante do teclado do Computador, ainda
há um cortejo de escritores que se reúne ao som de um “adeus” as suas antológicas ferramentas de trabalho,
por vezes, ainda guardadas,
orgulhosamente, numa pequena área da
estante.
Nesse rol de usuários estão inclusos aí os apaixonados como Charles Bukowski, que elaborou um poema para a sua “IBM SELECTRIC”... A escritora Clarice Lispector, destacou seus trabalhos numa UNDERWOOD sobre o colo... Erico Veríssimo era acompanhado da sua CONTINENTAL... Do escritor Ernest Hemingway, afirmam que trocava de máquina a cada novo livro... Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques, nasceu, rigorosamente, em sua TORPEDO 18; e a ROYAL Portátil acompanhou em boa parte, os romances do escritor Jorge Amado. O assunto é vasto... e pode ir bem longe. Nesse período, a que chamamos de ‘crepúsculo das letras em teclas’, vale a pena tentar “ouvir” um tilintar de vozes, como fossem um “adeus às máquinas ” – instrumentos que tanto entregaram emoções para o nosso deleite. E por que não? ... Assim, Hemingway, com seu olhar duro e gestos firmes, repousa as mãos calejadas sobre sua Remington e nos avisa que "Era como brigar com um touro selvagem". Virginia Woolf toca com delicadeza as teclas de sua Corona, como se fossem as ondas de um rio, e insinua nostálgica com o melhor de si: "As palavras fluíam melhor quando ouvia o som de cada letra surgindo no papel"... Jack Kerouac, o irrequieto, rememora suas noites diante de sua Underwood, com rolos intermináveis de papel. "O fluxo, a batida, a música da máquina me guiava", declara-nos, prazerosamente...Clarice Lispector, a divina de “A hora da Estrela”, com seu olhar misterioso, desliza os dedos sobre sua Hermes Baby. "Havia um pacto entre nós: eu pensava, ela registrava. Sem julgamentos, sem pressa, apenas cumplicidade", reflete, com seu sorriso indecifrável nos lábios. Gabriel García Márquez, com a Olivetti Lettera 32, suspira fundo e nos revela: "Ela conhecia o ritmo dos meus contos, o compasso de Macondo. Cada tecla era um acorde do meu realismo mágico." Ouvidos atentos e olhos abertos, no fundo, bem no fundo, pode se “ver” e “escutar” o som distante dos últimos clac, clac, clac. Como uma despedida. Como um adeus.... E as máquinas, exaustas, cansadas da labuta diária, dormem agora em espaços de museus, nas estantes de seus amorosos donos, nas oficinas de consertos e, claro, nos corações saudosos de quem tanto admiramos. Dormem, mas não estão mortas. Seus fantasmas ainda vivem no peso das palavras e nas histórias que ecoam com paixão. E talvez, em algum canto do mundo, alguém ainda as escute, esperando que um par de dedos inquietos as desperte... Mas seus ecos, tão precisos e preciosos, como um “Canivete Suíço”, seguem-nos vivos e presentes, página a página, que um dia ajudaram a criar.
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