quinta-feira, 12 de março de 2026

CANIVETE SUÍÇO ( Coletânea: CRÔNICA PARA BOI NENHUM DORMIR - Ed. ASPAS DUPLAS 2026)

 



A coletânea “Crônicas para boi nenhum dormir” é um convite à leitura que desperta, surpreende e encanta. O título brinca com a conhecida expressão popular “conversa para boi dormir”, usada para designar histórias sem fundamento, enrolações e discursos vazios. Aqui, no entanto, o sentido se inverte: as crônicas reunidas nestas páginas são tudo, menos desinteressantes. Elas provocam, divertem, emocionam e nos lembram que a literatura é feita para manter os olhos e a mente bem abertos.

A crônica, gênero que ganhou vida própria no Brasil, nasceu ligada ao jornalismo, com textos breves que comentavam o cotidiano e os acontecimentos do momento. Com o tempo, consolidou-se como uma das formas literárias mais queridas de nossos leitores, por sua capacidade única de transformar o banal em poesia, o comum em reflexão e o detalhe em eternidade.

Nesta coletânea, o leitor encontrará a diversidade do gênero em sua plenitude: crônicas cotidianas, que revelam o encanto escondido no dia a dia; crônicas humorísticas, que nos arrancam o riso; crônicas sociais, que nos convidam à reflexão; crônicas poéticas, que se aproximam do lirismo; e crônicas narrativas, que contam pequenas grandes histórias. Cada página traz um olhar singular, uma perspectiva que, ainda que breve, tem a força de permanecer.





CANIVETE SUÍÇO”

(Crônica de Celso Lopes) 

 

 Registra-se que o exército suíço fez  encomenda de um aparelho que atendesse às seguintes necessidades:  resistência, praticidade, facilidade de transporte, leve e com muita versatilidade. Pronto. Surgiu o “Canivete Suíço” (SwissArmyKnife), logo incorporado como um utensílio multiuso, capaz de entregar o prometido. Dessa forma,  o conceito do Canivete Suíço, utilitário,  expandiu-se largamente,  pois não somente a lâmina é útil, como também inúmeras outras inovações, incluindo até mesmo,   a função de Pen-Drive...

O escritor americano Cormac McCarthy, que se destaca dentre  os grandes nomes da literatura contemporânea,  teria enxergado em sua máquina de escrever Olivetti, uma  metáfora  precisa,  registrada por ele em uma única palavra:“- Estupenda!..”.  Afirma-se que  diante da  perplexidade  de um aluno sobre a sua Olivetti, que teria perguntado:  - O que é isto?” . McCarthy, tranquilo,  não titubeou: “ isto é um raro talismã, chego a imaginá-lo como  uma  escultura  do monte Rushmore, sendo feita, calmamente, pausadamente, com um “Canivete-Suíço”.. A imaginação do escritor  vai além dessa referência para enaltecer sua “Estupenda” máquina de escrever,  no que é seguido por uma legião de  admiradores-escritores. Tom Hanks, por exemplo,  no seu primeiro livro de ficção (Tipos Incomuns – Algumas histórias),  mantém o  enredo girando em torno da sua paixão pela  máquina de escrever.  Os contos têm algo em comum: em todos eles, ela desempenha um papel importante.  Além disso,  o autor  é dono de uma centena delas,  mas hoje, avançando no tempo, garante que já redige suas histórias em um Notebook... Esse “canivete suíço” nas mãos de autores dessa estirpe, como   Agatha Christie com sua Hemington No.2...  Orson Welles com sua Underwood, com nome e endereço pintados na caixa... Danielle Steel com sua Olympia, carinhosamente chamada “Ollie”, Ian Fleming com a Triumph... Jack Kerouac com sua Hermes 3000, sem dúvida,  reforçam e desvendam centenas de amantes da antiga máquina de escrever  que ganhou escala industrial  pelas mãos da  Remington  e,  posteriormente,  se popularizou  sendo usada por empresas, órgãos públicos e, é claro, por um amplo universo de  estudantes, escritores, etc.  Até que fosse voto vencido pelo computador,  o último fabricante, indiano, fechou suas portas em 2011.  Mas, acautelemo-nos: a máquina de escrever, mesmo nesses novos tempos, continua  como ícone, como  um dos símbolos da escrita e literatura, e neste caso, amparada pelos seus  inúmeros seguidores/escritores.  É possível inserir que no crepúsculo das letras em teclas, quando o tilintar dos tipos mecânicos se dissolve num silêncio obrigatório  diante do teclado do  Computador, ainda há um cortejo de escritores que se reúne ao som de um  “adeus”  as suas antológicas ferramentas de trabalho, por vezes,  ainda guardadas, orgulhosamente,  numa pequena área da estante. 

Nesse rol de usuários  estão inclusos aí os apaixonados como  Charles Bukowski, que elaborou  um poema para a sua   “IBM SELECTRIC”...   A escritora Clarice Lispector,   destacou seus trabalhos numa UNDERWOOD  sobre o colo...  Erico Veríssimo era acompanhado da  sua CONTINENTAL...  Do escritor Ernest Hemingway, afirmam  que  trocava de máquina a cada novo livro...  Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques, nasceu, rigorosamente,  em sua TORPEDO 18; e a ROYAL Portátil acompanhou em boa parte,  os romances do   escritor Jorge Amado.  O assunto é vasto... e pode ir bem longe. Nesse período, a  que chamamos decrepúsculo das letras em teclas’, vale a pena tentar “ouvir” um tilintar de vozes, como  fossem um  “adeus às máquinas ” – instrumentos que tanto entregaram emoções  para o nosso deleite. E por que não? ... Assim,  Hemingway, com seu olhar duro e gestos firmes, repousa as mãos calejadas sobre sua Remington  e nos avisa que  "Era como brigar com um touro selvagem".   Virginia Woolf toca com delicadeza as teclas de sua Corona, como se fossem as ondas de um rio, e insinua nostálgica com o melhor de si:  "As palavras fluíam melhor quando ouvia o som de cada letra surgindo no papel"... Jack Kerouac, o  irrequieto, rememora suas noites diante de sua Underwood, com rolos intermináveis de papel. "O fluxo, a batida, a música da máquina me guiava", declara-nos, prazerosamente...Clarice Lispector, a divina de “A hora da Estrela”, com seu olhar misterioso, desliza os dedos sobre sua Hermes Baby. "Havia um pacto entre nós: eu pensava, ela registrava. Sem julgamentos, sem pressa, apenas cumplicidade", reflete, com seu   sorriso indecifrável nos lábios. Gabriel García Márquez, com a Olivetti Lettera 32, suspira fundo e nos revela: "Ela conhecia o ritmo dos meus contos, o compasso de Macondo. Cada tecla era um acorde do meu  realismo mágico." Ouvidos atentos e olhos abertos, no fundo, bem no fundo, pode se “ver” e “escutar”  o  som distante dos últimos clac, clac, clac. Como uma despedida. Como um adeus.... E as máquinas, exaustas, cansadas da  labuta diária, dormem agora em espaços de  museus, nas estantes de seus amorosos  donos, nas oficinas de consertos e, claro, nos  corações saudosos  de quem tanto admiramos. Dormem, mas não estão mortas. Seus fantasmas ainda vivem no peso das palavras e  nas histórias que ecoam  com paixão. E talvez, em algum canto do mundo, alguém ainda as escute, esperando que um par de dedos inquietos as desperte... Mas seus ecos, tão precisos e preciosos, como um “Canivete Suíço”,  seguem-nos vivos e presentes,  página a  página, que um dia ajudaram a criar.

 



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