segunda-feira, 3 de setembro de 2018



PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA DOS CLUBES / 2018.

Seguem anexos Parecer da Comissão Julgadora da Academia Paulista de Letras, resultado e dados gerais de participação do PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA DOS CLUBES / 2018. Logo comunicaremos a data e local de entrega do prêmio, que será em São Paulo.   
Atenciosamente,

Antonio Clementin
Sindi-Clube Cultural
(11) 97979.2501  

(resultado)
POESIA .
(.....)  Em segundo lugar, surge um autor que desfia um protocolo de intenções, e podemos dizer, das melhores intenções, em relação a si mesmo e à sociedade em geral. Meticulosamente esperançoso, prudentemente otimista, revela porém o desencanto com os ornamentos e prefere o concreto, o ideal, o reto e o justo. O autor representa o Esporte Clube Banespa. É Celso Antônio Lopes da Silva, com o poema “Um dia substantivo”.


Um dia substantivo
que me atravesse sem medo
os caminhos de um campo minado
e me silencie da iminente explosão.
Um dia que me cegue, no ato, a poeira do chão.
Um dia substantivo, sem alarde,
acenando gestos à eternidade:
antes que seja tarde!...

Um dia substantivo
que me arraste à beira do abismo,
ou me atire às profundezas abissais.
Um dia que ignore nas minhas palavras vãs,
a sanha, a súplica e o desespero latente...
Um dia substantivo, sem alarde,
como todas as horas mortas da tarde:
antes que seja tarde!...

Um dia substantivo
que me leve em silêncio puro
para o rufar esfuziante das ondas do mar.
Um dia que me afogue o corpo e a alma
entre o oceano e a linha do horizonte.
Um dia substantivo, sem alarde,
suplicando-me que a vida aguarde:
antes que seja tarde!...

Um dia substantivo
que me traga um grito torto, reto e líquido,
dissipado num uivo sem sinal de exclamação...
Um dia que me deixe mudo pelos becos e esquinas
entre o espanto e a cópia xerox.
Um dia substantivo, sem alarde,
queimando em mim o fogo que arde:
antes que seja tarde!...

Um dia substantivo
que me interrompa a claridade inútil
e me dispense do azul e da escuridão...
Um dia que me arraste à luz total, ao brilho
lúcido e transparente das galáxias.
Um dia substantivo, sem alarde,
sentindo o que dentro e fora em mim invade:
antes que seja tarde!...

Um dia substantivo
que me leve vertiginosamente ao fim,
sobre as escadas espiraladas no entorno de mim...
Um dia que me acene com o mergulho sem volta,
ou à queda de um precipício à minha volta.
Um dia substantivo, sem alarde,
um dia concreto e abstrato, antes que tarde,
antes que seja tarde!...


Texto:  Celso Lopes      elipse84@terra.com.br   11 98487 1193




Terça-feira, 28 de Agosto de 2018 - 14h21
Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes já tem vencedores

Concurso realizado pelo Sindi Clube, Fenaclubes e Academia Paulista de Letras premia talentos na poesia, crônica e conto
Já foram escolhidos os vencedores do Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes de 2018. Ao todo são nove ganhadores, três em cada uma das categoriaspoesia, crônica e conto, além das menções honrosas selecionadas pelos jurados. O concurso, realizado anualmente pelo Sindi Clube, Fenaclubes e Academia Paulista de Letras, visa promover a literatura nos clubes de todo o Brasil.
“O objetivo, além de revelar talentos na arte de escrever, é fomentar a literatura e o enriquecimento cultural nos clubes de todo o Brasil. A qualidade dos textos é resultado, também, do incentivo a leitura dentro dos clubes com os Clubes de Leitura”, afirma o presidente do Sindi Clube, Paulo Movizzo.
Neste ano a premiação teve 170 participantes, de 46 clubes de 26 cidades, que inscreveram 60 poesias, 61 contos e 49 crônicas. São Paulo foi o estado com maior participação no concurso, com 85 textos, mesmo número de participações dos outros estados somados.
O Club Athletico Paulistano foi o recordista em participações neste ano, com 29 inscritos (4 poesias, 6 crônicas e 19 contos). E o numero maior de inscrições resultou também em um recorde de ganhadores: o clube ganhou primeiro, segundo e terceiro lugar na categoria conto, além do primeiro lugar na categoria poesia.  Conheça os títulos das obras vencedoras e seus respectivos autores em cada categoria:  Poesia:  1º - “Pegadas”, de Luciano Martins Costa, do Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP);2º - “Um dia substantivo”, de Celso Antônio Lopes da Silva, do Esporte Clube Banespa (São Paulo – SP); 3º - “Culinária caipira”, de Magnos A. B. Castanheira, do Clube Esperia (São Paulo – SP).  Menções honrosas - “Ave mulheres”, de Fernanda Ribeiro de Almeida, do Minas Tênis Clube (Belo Horizonte – MG); “Fernão de Magalhães”, de Terezinha Bertazzi Costa, do Círculo Militar de Campinas (Campinas – SP); e “Manguezal”, de Álvaro Santi, do Grêmio Náutico União (Porto Alegre – RS).

Crônica
1º - “Por quem os sinos dobram”, de Carlos Augusto de Assis, do Clube Esportivo
Helvetia (São Paulo – SP) 2º - “Uma beleza estereotipada”, de Mauro Francisco, do Clube Indaiá (Dourados – MS); 3º - “A revisão”, de Silvia Cachone, do Caiçara Clube de Jaú (Jaú – SP).  Menções honrosas - “Metamorfose”, de Ivana Maria França de Negri, do Clube de Campo de Piracicaba (São Paulo – SP); “Consolação”, de Thais de Castro Rezende Rebello da Silva, do Círculo Militar de Campinas (Campinas – SP); e “A ansiedade no bolso”, de Marcio Luiz de Campos Marques, do Círculo Militar de São Paulo (São Paulo – SP).
Conto
1º - “Carta ao poeta”, de Giselda Penteado Di Guglielmo, do Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP);2º - “Doce de laranja amarga e um vidro de perfume”, de Maria Lucia Perrone, do Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP) 3º - “Se fosse possível explicar”, de Maria Christina Tibiriçá Bahbouth, do Club Athletico Paulistano (São Paulo – SP). Menções honrosas - “O Lobisomem do angico”, de Antônio Augusto de Almeida Maioli, do Avenida Tênis Clube (Santa Maria – RS); “Agora está tudo bem amarrado”, de Heloisa de Queiroz Telles Arrobas Martins, do Club Athlético Paulistano (São Paulo – SP); e “Derradeiras palavras”, de Roland Fischmann, da Associação Brasileira A Hebraica de São Paulo (SP).

Sobre o Sindi Clube  -  O Sindi Clube é o único representante sindical dos clubes esportivos, sociais, culturais e recreativos do Estado de São Paulo, e há 28 anos desenvolve programas, projetos e iniciativas em defesa dos interesses das agremiações sócio esportivas do estado e do Brasil.
Com uma base de 2.200 clubes, aos quais oferece uma estrutura especializada em administração nas áreas jurídica, trabalhista, fiscal, contábil e tributária, recursos incentivados, cultural, esportes e lazer. A entidade é também um interlocutor frequente do governo, consultado e ouvido pelas autoridades de todos os níveis do país, além de federações, confederações e organizações de todos os segmentos da vida nacional. A instituição mantém ainda a Universidade Corporativa Sindi-Clube (USC), que oferece um extenso programa de formação, treinamento e aperfeiçoamento de profissionais de clubes, por meio de uma completa grade de cursos, seminários, palestras e workshops.

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 Mais informações para a imprensa: Carlos Battesti / Nathalia Nascimento Convergência Comunicação Estratégica
Tel. (55 11) 3129-4232 / 3256-0453
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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

PALAVRAS CRUZADAS NÃO MENTEM


“PALAVRAS CRUZADAS NÃO MENTEM”







Foram encontrados assim:  sentados na sala,  cada qual em seu canto da mesa com a cabeça curvada sobre os braços;  o olhar de ambos, o olhar de cada  um deles parecia,  certeiramente,  dirigido ao outro. Lá estavam eles,  imóveis e inertes até o momento em foram descobertos. O filho, radicado em outro estado, o único do casal,  cansara de ligar para o telefone da mãe e do pai. A informação chegou ao zelador do prédio, que, pressentindo o silêncio e um  odor estranho no local, levou o caso  à  polícia.  Instantes depois,  chegava o aparato técnico para o arrombamento da porta e  posterior  autópsia dos corpos. Ali no antigo Edifício Maria Eliza, de 10 pavimentos, um  prédio característico dos anos 50, com andares individuais e restritas vagas de garagem, o casal, já idoso, e ambos aposentados,  era conhecido  como dona Branca, uma antiga professora de história,   e o professor Pio, biólogo e chefe de laboratório da faculdade, onde se conheceram ainda jovens. Ambos eram moradores  do quinto andar, no  apartamento  comprado há muitos anos naquele prédio antigo  do bairro Bela Vista, em São Paulo.    Quem os conheceu, ainda que de vista, no dia a dia  do edifício, ou nas imediações, por onde sempre andavam,  informava que havia dessas coisas entre eles. Saíam e chegavam juntos. Sempre juntos,  mas era visível um  embate desafiador que, não raro, seguia-se após um  silêncio profundo; esse momento carregado, tenso,  repentinamente,  fazia brotar ao exterior, à vista de todos,  o rancor íntimo de ambos, e então,  as palavras, como pedras talhadas áspera, nuas e  pontiagudas,  surgiam como dardos certeiros,  como punhais,  ora atingindo  um, ora outro, transformando ambos em  ávidos  combatentes  de um  uma guerra  eterna e  incessante.  
Sobre a mesa, a perícia técnica apresentou os devidos registros fotográficos, onde se via um considerável número de palavras cruzadas, abertas em páginas diversas,   um Volume sisudo de cor marrom,   sem indicação de capa, um livro de poesia,  além de dois dicionários, também abertos,   e com visível aparência  de que pertenciam, distintamente,  a cada um deles;  pelas digitais, o Caldas Aulete seria o  da Mulher, e o Aurélio, o do Homem.  Os corpos, nesse período de  “repouso”, segundo o laudo, datavam de pelos menos 24 horas antes,  o que indicaria o final de um eventual embate ocorrido, realmente, no dia anterior.  Para os peritos,  as sandálias da Mulher deixaram rastros indicativos de horário,  com abrangência para mais ou para menos, às 12 horas, meio dia,  um horário suposto como o da refeição de ambos.  Mapeado este ponto, observou-se que a Mulher teria se deslocado para  fora da mesa da copa,  e por fim,  alguns metros  dentro da residência,  até à cozinha, onde tomara café na Térmica,  depois seguira  com  pausa relativa ao banheiro, e também no quarto junto às  gavetas da cômoda,  onde foram percebidos   indícios de movimentação nas roupas que, após retiradas, foram dobradas, redobradas e guardadas novamente.   As pistas seguiam a  Mulher também para um outro ambiente.  Seus passos detiveram-se durante um bom tempo,  frente à estante da sala. Ali, como se pusesse olhos para escolher algum livro, retirara o Volume marrom,   cuja página interna destacava:  “Instrumentos de Guerra da Antiguidade”.  Também foi registrado no laudo da Mulher, por um dos peritos:  “ é bem provável que  tivesse conhecimento deste livro desde os tempo das aulas do seu  curso de história”.  O volume permitiria demonstrar aos alunos  um verdadeiro campo de batalha, destacando  instrumentos e estratégias que    assustavam  e  arrasavam os antigos exércitos na idade antiga e média. Seu uso, pressupunha dizimar  Inimigos inteiros, com a força daquelas  potentes armas de Guerra.  A foto do perito,  de uma pagina aberta e específica do Volume,  indicava, por exemplo,  o “Apito da morte”. Descrito ali como “Um objeto sonoro criado pelos Astecas,  que soava de forma   aterrorizante, sendo  utilizado em batalhas para simular  estridentes gritos  de pessoas em sofrimento,  induzindo os adversários a um estado de transe desesperador, colocando-os à mercê do exercito dominante” 
Apanhado o livro,  a Mulher se dirigira  à mesa do embate. Então, ali, avaliaram os técnicos,  a partir dali,   o silêncio voltara a perdurar.   Assim, era quase possível “ver”, ou mesmo “sentir”  a caneta nas  mãos da Mulher,  dando mostras da   sua agilidade na escolha das palavras  endereçadas ao preenchimento das Cruzadas.  Seguindo a lógica desses passos, a  Mulher, concentrada  no desafio  vertical e horizontal, sem dar trégua ao adversário,  seguia firme e  impiedosa, comendo  pelas beiradas,  buscando armas  ferinas para fazer o uso preciso com os  seus  pensamentos;  o registro indicava que, num determinado instante, os olhos da Mulher foram  ao encontro dos olhos  do Homem,  que a fitava do outro canto da mesa.  O abalo causado por esse olhar fulminante, por certo, fragilizara o  oponente  durante um longo tempo – garantiram os Peritos.  Nesse ponto, um deles alertara que, seguindo as pistas sobre a mesa,  algo de pessoal sobrepunha-se naquele momento. “ percebi – destacou o Perito - que dois nomes levantaram  evidências, além de uma data.  O primeiro poderia ser, digamos, um buquê de flores... o segundo, esse em sintonia com o primeiro, o nome de uma mulher: “Rose”. Nessa direção, o perito assinalara que poderia ter havido ali, um estranho caso.  Talvez indícios de um  triângulo amoroso. Ou uma falta imperdoável, pois a  data assinalava o dia do aniversário de dona Branca. Neste ponto,  não aprofundaram tanto, frisaram que,  apenas indicavam  como  referências compiladas  para atendimento aos  serviços da  autópsia.
O Homem, ficara evidente pelos sinais indicativos da sua chegada ao prédio, havia saído por horas a fio. Fora visto no dia anterior passando pela portaria do prédio com embrulhos amarrados para facilitar o transporte.  O Zelador sabia de cor e salteado o produto daqueles embrulhos. Quanto interpelado, afirmara sem tropeço: “ São palavras cruzadas. O professor Pio, uma vez por semana vai nos sebos da Luz  e imediações, comprar essas revistas por preço inferior ao de capa. São baratinhas, ele garantia.  As difíceis ficam pra Dona Branca, as médias e  as fáceis eram dele.”
Os sinais de passos levavam o Homem, após sua chegada em casa, direto para a mesa do embate, à exceção de uma pequena parada que fizera na cozinha, onde tomara meio copo d’água, conforme detalhamento pericial.  Já na praça de Guerra,  o espalhamento das revistas indicava que a estratégia do Homem fora rápida. A ordem sequencial das suas revistas apresentava-se, como fosse  suas próprias armas de combate, prontas para o disparo.  Por certo, inferiram os peritos, o Professor Pio   sabia das suas limitações no palco de guerra de um  jogo histórico. Afinal, afirmaram,  dona Branca lecionara anos e anos sua matéria de História Antiga, dominando tópico por tópico – haja vista, sua biblioteca disponível na sala.  Ao Homem, sobrava-lhe alguns recursos, indicado por  publicações em seu nome, sobre filmes, teatro, música, além de alguns volumes referente à biologia e armas químicas. Tudo isso, em espaço identificado como dele, junto a um canto da estante.  Solicitado a falar sobre o contato de ambos, o filho destacara a prodigiosa memória da Mãe, e portanto, quase imbatível nas Cruzadas, além de, certa vez, num jantar de “Bodas”, ter reconhecido que ninguém sabia mais sobre filmes, teatro e armas químicas que o marido, completando que fora a única vez que vira a mãe dando  o braço a torcer: 
O silencioso embate seguia o seu curso.  As palavras, ali, dispostas, orientadamente, em cada página aberta das revistas,  não deixavam por menos.  Palavras Cruzadas não mentem – garantiam os Peritos -  já próximos a fechar o laudo.  Em rápida leitura, via-se que a Mulher não deixava nada  no vazio, com o seu  hábito das perguntas  retóricas naquele antro  das  palavras cruzadas.  Novamente, “pressentia-se” sobre a mesa,  a voz  interpretativa e explosiva sobre o território da disputa:  “ - Animal mitológico associado à virgindade, que possui a forma de um cavalo com um único chifre frontal?”.   
Bingo.  “Unicórnio”. Assim estava assinalado pela Mulher.  Por vezes, disseram,  simplesmente ela  perguntava por perguntar, pois, num átimo, já se debruçava sobre os quadradinhos do papel,  desenhando as letras indicadas nos espaços  solicitados.   Ao Homem,  disseram,  que por certo ouvia tudo, porém fingia não ouvir,  sobrava-lhe o  sofrimento e a dor  diante de   uma  pergunta quase sussurrada para si mesmo: “- O  nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo?”
Por isso, a voz do Homem saíra baixa.  Os sinais mostravam, vivamente, que ele  estancara-se com a caneta no ar, pois a pergunta dava a ela, à Mulher,   muitos e muitos pontos de vantagem.  A  história antiga não era mesmo o seu forte.  Talvez visse na Mulher, nas   entrelinhas sonoras daquele embate infernal que dominava a sala,  um sorrisinho maroto e confiante, apontando-lhe  uma das armas de Guerra. Aquelas tamanhas e poderosas.   E bem provável que  a Mulher  dissera a si mesma,  que usaria primeiro uma Catapulta, arma de ataque capaz de quebrar silêncios e barreiras dos homens, especialmente os encastelados  e protegidos em  cidades muradas.  Haveria de destruí-lo, caso ele persistisse naquela paralisia. Lançaria sobre seu adversário as mais potentes armas,  que haveriam de liquidá-lo com pedras e  pedregulhos lançados aos muros do seu palácio.  Recuasse, portanto,  ou então,  receberia o golpe  mortal:  haveria de lhe atirar a maldição das esposas incompreendidas!...
Segundo os peritos, era visível que o Homem se agitara,  sofrendo tamanhas pancadas e ataques.  Mas não fora difícil notar  através das Cruzadas espalhadas sobre a mesa, que a mente do Homem dirigira-o para uma  vida inteira à frente do  laboratório químico da escola, onde eles  se viram pela primeira vez, e para sempre. Havia indicativos de que a Mulher levara-o  para leituras adicionais,  o que dera a ele maior sustância no embate das Cruzadas horizontais e verticais, com temas   sobre   filmes, música, teatro, incluindo o Universo, as Galáxias,  armas químicas, além de, claro, a sua especialidade: a Biologia e suas relações e interações dos  seres vivos com seu ambiente. .
Pela disposição esparramada na mesa, garantem os peritos, que, por vezes, a Mulher, continuadamente,  seguia, sim, com  perguntas retóricas, pois, num átimo, as suas impressões digitais e papiloscópicas disponíveis, além de impressões palmares, plantares e poroscopia – todos a serviço da perícia para a autopsia– indicavam que ela  já se debruçava sobre os quadradinhos do papel , desenhando as letras corretas.   O Homem ouvia. Ele ouvia ou fingia ouvir a pergunta sussurrada por ela,   novamente:  “- O nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo?”.  Era inevitável, garantiram os técnicos,  agora ele receberia o golpe  mortal que ela lhe preparara;  haveria de  atirar- lhe  a maldição das esposas quando abandonadas, tal qual, as pragas e animais putrefatos endereçados pelas armas  ao abrigo dos inimigos para   infestar-lhes, muitas doenças e epidemias....
O Homem, garantem,  sentiu o baque. Doeu-lhe, a força desse punho gigante.  Por isso, olhava, agora, de dentro do silêncio,  com temor, para dona Branca,  enquanto  lançava  mão do seu  Aurélio  para se livrar do peso,  pois  precisava ganhar tempo. E para isso, teria de  ser ágil nessa descoberta:   O nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo!.   Sofria com isso.  As tentativas pareceram infrutíferas.   Não localizava as referências como previra.  O silêncio seguia naquele território de batalhas,  quebrado, apenas,  pela  retórica ascendente  da Mulher.  

- o  Santo Graal também é chamado de.....?

Agora, informaram os Peritos, adicionando ao laudo:  ‘ ali na sala, avolumada de  silêncio, podia ser percebido, pois  a leitura é crível,  os contornos grandiosos dos olhos de ambos, do Homem e da Mulher,   como fossem eles, Dona Branca e o Professor Pio,  os guerreiros autênticos  das   antigas Cruzadas, onde estavam a postos como os  soldados de Cristo,  identificados com a cruz sagrada.  Então, enquanto a Mulher já se  debruçava nas Cruzadas horizontais, sem  sequer uma dúvida, mínima que fosse,   ganhando  tempo  nos desafios mais difíceis de uma  Coquetel Super,  um certo  vazio  se instalara  no ambiente como fosse  uma planta que encontrasse solo fértil e a umidade necessária  para o  surgimento  dos  brotos,  ávidos de frutificação. Agora,  agora   as horizontais do Homem pediam mesmo ajuda aos Deuses da sabedoria:   - Trepadeira comum em muros, com quatro letras?  - A flor da idade, no sentido figurado, com nove letras?...
Enquanto o Homem  entendia a  necessidade de  respostas,  ela, a Mulher, garantem os peritos,  ela, ali, criava, a seu jeito, um universo sob domínio. Lia as verticais,  mas, espertamente,  respondia até mesmo as horizontais. Com isso, ganhava a olhos vistos,  uma velocidade de maratonista na execução das tarefas. As palavras cruzadas exigem mais que  um passatempo, ironizava em seu silêncio, como se mostrasse a ele, ao Homem,  as   linhas formando os quadrados em branco na vertical e na horizontal; e insistia  sob o silêncio:  as  linhas  não vacilam,  as Cruzadas não mentem,   não dão golpe,  nem disfarçam.  Mostre-me ser capaz de preencher pela descoberta, pela sutileza dos nomes, pela grandeza da escolha...e mais:   a Mulher preparou-lhe  um  olhar fulminante  repetindo uma poesia latente que a sua  mente captara no livro aberto sobre a mesa:   “Lutar com palavras  é a luta mais vã.  Entanto,  lutamos  mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco.   Algumas, tão fortes como o javali..(...)”   A Mulher,  então,  hghquebrara o  silêncio e  embasbacava o Homem  pelo poder das palavras ditas: “ palavra, palavra – digo exasperada -   se me desafias,  aceito o combate”.  E assim seguiu ela,   nesse  diálogo imaginário  de palavras para todas as coisas,   assim como,  acusações, falta de conhecimento, agressões, ironias, desatenção, agressividade... E então, retomou os seus   conhecimentos de história, e sob suas mãos, as palavras passaram a ganhar formas definidas de ataque:  -   primeiro  as pontiagudas, como fossem  setas de um  lápis ... depois as  cortantes,  como facas e  tesouras,  e  depois  as explosivas, como  pólvora para canhões,  fuzis,  revólveres,    espingardas e  metralhadores.  E assim, disseram os técnicos,  lançara, inapelavelmente,  sobre Homem, sobre o adversário, de forma incisiva, os seus Escudos especiais -   “tal qual um canivete suíço em tamanho dimensionado”, afirmaram os Peritos.  Ao ataque,  ela dizia  a si mesma. E logo mostrava-lhe as garras impregnadas de lâminas e lanças serrilhadas,  o que a levaria à vitória em qualquer combate de contato físico.   Ao Homem,  lutando pela vida,  sobrava-lhe a atenção de se manter  a uma  distância adequada, para não ser ferido de morte.   
Por instantes, disseram, os grupos de letras impregnadas na Coquetel Super pareceram arrancar-lhe pedaços do próprio corpo. Mas eis que, para sua festa,  surgiram os filmes!...Filmes, teatro, música,  artistas  e afins.  Sorriu muito, sorriu largo, o Homem,  pois, estava, momentaneamente,  a salvo;  ganharia distância, agora, nas paginas das Cruzadas: E assim seguiu ele devorando com gulodice as anotações:  - Em que cidade nasceu Yusuf Islam (que era conhecido com o nome de Cat Stevans?    - Qual série de TV tinha como protagonista o Ator Peter Falk?  - Personagem da Commedia Dell’Arte, conhecido como uma das figuras mais tradicionais do Carnaval? ...
Como  previra, o Homem avançara  três  páginas no conjunto das oito revistas Cruzadas sobre a mesa.  Mas, ainda era pouco.  Entretanto, com o rabo de olhos, como indicavam as nuances de análises com fotocélulas dos Peritos,    percebera que a incomodara.  A Mulher, ali, embatucara-se ao definir os  símbolos químicos do Enxofre, Lítio, Bário, Cobalto, Cádmio, Carbono, Cobre, Niquel,   Potássio, Fluor,  Iodo....   Ele ouviu, sim,   a ênfase retórica,  insistente e  carregada  de  nervosismo:

- Enxofre...enxofre...enxofre?....  Lítio... Litio...Lítio?...

E então, assim à frente,  o Homem, buscou recursos de que dispunha na  sua área.  Mesmo afastado há muito das bancadas do laboratório químico, a mente não lhe faltaria nessa hora.  A  toxicidade de substâncias químicas dançavam à sua frente, tais  como, o  gás mostarda, o cloro,  o ácido cianídrico,  o gás sarin....  mas ele   definira-se, naquele instante, informaram os laudos,  pelo Napalm. Para os técnicos, “ o   conjunto de líquidos inflamáveis à base de gasolina gelificada, utilizados como armamento militar.”.    O  gel pegajoso e incendiário  haveria de atacá-la  aos moldes idênticos do seu uso nas guerras do  Vietnã, Laos e Camboja... A Mulher tremeu, quase derrotada, ao se deparar com a força química e o poder eficiente dessa bomba incendiária que queima e queima e deixa marcas irreparáveis... Nesse ínterim, a caminho da vitória, garantem os técnicos,  com base em referências de busca no Aurélio, além do conhecimento disponível das  publicações,   o Homem lembrara-se do engenheiro Jeff O. Stanford  -  o Chefe do Laboratório Químico nos USA,  responsável pela preparação e envio do Napalm às frentes americanas no Vietnã, que experimentara  o grito antibélico do mundo na própria pele, na própria alma; e culpando a  si mesmo,  pela obediência cega  às  normas e às ordens da sua Corporação,  no cumprimento rigoroso  da  sua missão de apoio  às políticas  de  guerra,  admitindo  toda a sua  culpa naquele  genocídio,  suicidara-se.

Diante dessa quase desistência do Homem, dessa derrocada que sentira na pele,   novamente a Mulher ganharia a dianteira. Agora, ultrapassaria  páginas e páginas vencendo questões do mundo antigo:   - Península que abriga a Grécia e a Croácia?  - Nome de Deuses da Mitologia Grega?  - Tribunal em Jerusalém formado por sacerdotes, anciãos e escribas?...
E, então,  decidida  a trucidá-lo, sem perdão,  agiu de  forma implacável, lançando   mão  de  armas decisivas.  Com destreza e maestria dona Branca traria para a sua frente de trabalho, os Culverins, segundo os peritos,  “objetos originários dos primeiros canhões, armas de fogo medievais atirados  contra a  cavalaria inimiga, a ser dizimada, sem perdão”.   E mais,  com um simples gesto, a Mulher lembrara-se dos  Estrepes, segundo os técnicos,” as fotos revelavam um material retorcido de pregos e metais, como espinhos que se espalham ao longo dos campos de batalha”.. E então, podia se ver a Mulher, indicado pelas marcas das sandálias, espalhando e  jogando-os  sobre o chão da sala, pelos  corredores adjacentes ao banheiro, à cozinha e varanda,  fazendo uso da porção que lhe cabia desses estrepes,  usados  para retardar o Homem em sua  corrida nas Cruzadas.   Desviando desse campo minado que Mulher lhe preparara, o Homem seguia titubeando nas garras do abecedário, ainda que, levemente,  sob seu controle: -  Instrumento usado para aplicar a pena de morte durante a revolução francesa?... - Substância encontrada em vegetais, de grande importância  para o funcionamento do intestino?.   

No entanto, as páginas seguintes formariam a barreira implacável. A cada item, o Homem sentia-se sucumbir diante dela. Sofria a cada pergunta retórica que fingia não ouvir: 
 - O maior império do mundo (em duração)? - Rei pagão denominado pelos judeus como o Messias? -  Primeiro nome de um grande imperador grego, que venceu os Persas? -  Nome com o qual os reis do Egito são conhecidos? ...- Lugar famoso, cujo nome significa entre rios?

E então, suas muralhas e fortificações postas ao chão naquela Guerra,  levaram-no à rendição. O ar lhe faltava – disseram os exames disponíveis à Autopsia. Portanto, acomodara-se na mesa com a cabeça inclinada sobre o braço, e o olhar, certeiramente, nas pupilas da Mulher.  E então,  a Mulher, com sua respiração ofegante naquele campo de batalha sangrenta,  em que vencera  o homem encastelado,   em que colocara sob seus pés tudo o que pode  naquela luta, silenciosamente inumana, reconhecera,  ao manter os olhos fixos no seu antagonista, conforme dados da polícia técnica sobre  os registros oculares captados com novas  tecnologias de observação,  reconhecera, nele, um grande guerreiro, um desafiador consistente e  à altura. O que a  levara à rendição definitiva.  O ar lhe faltava – disseram os exames disponíveis. Portanto, também ela, também dona Branca,  acomodara-se na mesa com a cabeça inclinada sobre o braço, e o  olhar, certeiramente, dirigido às retinas do professor Pio.  

Dona Branca, ainda que inovasse nesse desafio,  ampliando as  suas técnicas no jogo das Cruzadas, e se aprimorasse, cada vez mais,  na forma rústica para decifrar códigos, chegando mesmo, durante sua fase mais produtiva,  a  ser considerada como autodidata no  “Cruciverbalismo”,   informariam os técnicos no laudo final,  que,  “  Tal qual os pioneiros das Cruzadas,  a Mulher  revelava um virtuosismo destacado, ao usar, por exemplo,  todas as letras e dígrafos do alfabeto, além de mensagens ocultas, em cada trabalho. E mais – podia-se ver, num deles, um  diagrama cruzadístico,  incluindo todos os  planetas do Sistema Solar, em uma disposição semelhante às órbitas dos mesmos em relação ao Sol.”.  Nesse sentido, as Cruzadas de Dona Branca, ainda que  poucas,  apresentavam um modelo digno de estudo.  E foi o que prometi aos Peritos,  quando fizeram  chegar  os seus  escritos à editoria da “Cruzadas em Revista”, onde, ainda hoje, atuo  em contínua busca de talentos  e preciosidades  nesse campo de entretenimento.



Nota: o parágrafo final mantém referências adaptadas, livremente, sobre “Euro Oscar”, reconhecido autor brasileiro de palavras cruzadas e charadas. Os “versos poéticos”, editados, são do  poema “O Lutador”, de Carlos Drummond de Andrade.


Texto:  Celso Lopes 



OBS:  Menção Honrosa no XII Concurso de Contos do Tijuco/2017 - 
 ALAMI/Fundação Cultural de Ituiutaba/MG. 



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

UNHA & CARNE



Unha & Carne


(...) Um vazio se faz em meu peito/E de fato eu sinto/ Em meu peito um vazio (...)

 PEITO VAZIO/CARTOLA-ELTON MEDEIROS.



O  vazio que sentes, poeta,

é o mesmo que carrego comigo...

São amigos, velhos conhecidos

desde há muito.

O meu – o vazio que espera!

O seu – o que dilacera!

Mas são – ambos – da mesma laia.

Unha e carne, essa falta...

como uma ânsia que, inútil,  buscasse

a  si mesma – desesperadamente.

Uma ausência imperdoável, o que não há;

o que  nega o encontro da vida que vejo

e a que pressinto;

e sobre essa lâmina fina e tênue

grita  o meu desejo, apavora o instinto:

nesse oco, nesse vão, o que ponho?

Como se, ali,  me  revelasse um segredo


que não coube em nenhum sonho. 





terça-feira, 10 de novembro de 2015

NAPALM

Primeiro lugar no V Concurso de Contos Cidade de Lins/SP. 2015



“NAPALM”

Já no carro, em seu percurso de volta, uma profunda agonia tomou conta do Major. Vivenciara nesse onze de agosto um  dia em que a soma das perdas aniquila e derrota o mais resistente do mortais. E antes mesmo que chegasse ao Instituto Médico Legal – o IML,  onde faria o reconhecimento do corpo, o botão do rádio sentiu a pressão dos seus dedos, pois, ali, agora, ele necessitava  do silêncio como se fosse o próprio  ar que respirava.  E sob aquele vazio volumoso e  extremamente incômodo, o Major Benhur,  culpando a  si mesmo pela obediência cega  às  normas e às ordens da sua Corporação,  lembrara-se de  Jeff – o Chefe do Laboratório Químico nos USA,  responsável pela preparação e envio do napalm às frentes americanas no Vietnã. Também ele – recordava Benhur – também ele, Jeff, cumprira com rigor a  sua missão de apoio incondicional  às políticas  de  guerra, entretanto, experimentara  o grito antibélico na própria pele, na própria alma, diante das  enfermidades, mortes e do terror causados por sua presteza e competência!... Era assim que o Major se sentia à entrada do estacionamento: desacreditado, sem forças e desfalecido, e a um passo de tomar a mesma decisão de Jeff.    
Naquela manhã, quando o  Major  apertou fortemente o celular sob sua mão, já deixava  transparecer uma preocupação  incomum  para o início do  seu dia; era visível que se perturbara com o  telefonema,  e agora, ali, retrocedia o tempo,  avaliando  a conversa com o interlocutor.  Quem passasse à curta distância ouviria o Major se expressar  em tom de bronca ou de censura:  “ - Ah! Dona Nara!... Ah! Dona Nara!...”  O Major entendera de imediato que a mãe, dona Nara, ou talvez alguma amiga dela, inocentemente, teria  colaborado para que o general Juce tivesse acesso ao seu número particular... e da sua parte, o Major sabia que o general sempre fora um  obstinado, e  a conseqüência  disso é que se  transformara, hoje, no arqui-inimigo da Segurança Pública, o principal homem à frente do crime organizado que invadira todo o sistema prisional no estado.  Já na sala, ensaiando os preparativos para a reunião de cúpula, enquanto rodopiava o lápis entre os dedos, gesto que lhe servia para  estimular o pensamento, o Major Benhur  lembrou-se da sua habilidade para o desenho. Por essa razão,  faria surgir  sobre a folha em branco, o semblante perfeito do  filho Marcelo, revelando, ali,  para si mesmo, a preocupação  e o desconforto que vivenciava no seu íntimo, que em nada lembrava a noite em que se sentira atingido pelas  farpas doces da felicidade, quando, no  grande salão de eventos, sob  aplausos, o filho Marcelo  recebia uma destacada homenagem da Academia de Polícia, de onde saía  com o  reconhecimento de  todo o corpo docente. Nessa noite, o sorriso do Comandante Benhur   triunfou aos olhos de todos.   O que despertou Marcelo para o sentido da farda, foi a sua relação amistosa com  a  comunidade. A base móvel  dava-lhe o respeito  e  o compromisso de se fazer algo pelos moradores.  Era inegável, portanto,  que na Unidade Móvel da praça Joana D’Arc,  todos o enxergassem como  um amigo e excelente policial.   Para o  Comandante, no entanto,  sempre causara incômodo essa atitude do filho, pois imaginava para ele, um futuro mais próximo ao poder,  talvez uma Secretaria, a Diretoria de Operações, uma  Regional...  E mais – para o Comandante, a  base móvel estava aquém do filho e se revelava cada vez mais  perigosa.  “- Um alvo  a céu aberto!”  - afirmava.    O filho, porém,  sustentava a firme convicção de se fazer por si, de subir pelos seus próprios méritos,  ainda que todos os amigos o instigassem  - “mas você é o herdeiro do homem mais forte da Polícia”... Mesmo revelando uma  preocupação extrema pelo filho, no fundo, no fundo, o Major Benhur admirava aquela forte personalidade.  Entretanto, na manhã de hoje, o telefonema do general Juce fora claro:  incluía o policial Marcelo como moeda-de-troca nas exigências que fazia  para a saída de presos no Dia das Mães. Mesmo transtornado diante dessa morte anunciada, e sem saber como,  o Major, ainda  encontrou forças para reviver o  amigo  de infância,  ou melhor, a história da convivência de  ambos até à adolescência, quando tomaram rumos distintos.  Os pais de Juce e Benhur eram amigos, e  praticamente da mesma idade.  Quando se casaram, logo encomendaram os  filhos  que, coincidentemente,  nasceriam no  mesmo dia onze  de agosto.  Para alegria das famílias, os meninos  Benhur e Júlio César,  por  muito tempo, comemoraram juntos os festejos de  aniversário.  Vale dizer que ambos – Benhur e Juce,  tiveram  suas histórias de vida regidas por uma epopéia familiar. Dona  Nara, mãe de Benhur e Dona Laura, mãe de  Júlio César, quando grávidas,  debruçaram-se sobre  relatos  de  heróis medievais,  à cata de nomes que mais se fizessem apropriados ao primeiro filho.  Isso, tão logo o ultrassom acabara de confirmar o sexo das crianças!...  Dali à escolha dos nomes, o tempo fora rápido.  Empolgada com a vida de um rico mercador Judeu, traído e escravizado pelo antigo amigo romano, mas que se esforçara pela conquista da  liberdade,  Narinha não vacilou:   - Benhur!...  – disse à amiga, contornando a barriga, delicadamente, com as mãos,  e reiterando, inúmeras vezes, com amplo  sorriso nos lábios, o nome épico,  para que o próprio bebê  pudesse ouvi-la   - Benhur!... Benhur!...
- Júlio César, mas sem o Caio  -  de Caio não gosto!... Fica Júlio César!... dissera Laurinha,  colocando um ponto final à sua procura.  Júlio César!... E dissera de forma empolgadíssima, especialmente, porque o  achado era excelente:  um  general importante do Império Romano, um homem audacioso ... enfim,  um homem aguerrido!     “- E que melhor coisa o “Juce”  iria querer, hein?  -  acentuava, alegremente,  Laurinha,  com a certeza de que o  apelido criado pela junção das primeiras sílabas emprestava  prestígio e simpatia ao seu  grande general romano:   JU-CE!... -  e completava:- Juce é tão bonito, você não acha,  Narinha?... Dona Laura, mais que dona Nara,  pouco a pouco, apresentava-se com  uma habilidade acentuada para “Mãe”.  Parecia ter sido feita sob medida para a maternidade.  E por isso, pode-se dizer que adotara o filho de Narinha em seu lar, e reiterava, orgulhosamente:  amava Benhur, gostava do jeito compenetrado daquele  menino, e via para ele – mais que no próprio filho – um brilhante futuro!...    Daí pra frente o mundo dera voltas e mais voltas.  E do desgaste na  relação entre as duas crianças surgiram as brigas e desavenças entre os  dois adolescentes.  E  do desentendimento crescente entre ambos, aparecera o conflito latente  dos homens feitos:  Benhur, o major Benhur, hoje estava no   Comando Geral da Segurança; e  Júlio César, o Juce, o general Juce, o amigo de infância, hoje, era o  homem forte do tráfico,  chefe da maior organização criminosa implantada nos presídios.  Mas tiveram  por onde serem rivais  – ponderou o Major Benhur,  ainda com o lápis em punho,  lembrando-se de um antigo  episódio, quando, cada qual a sua maneira,  ainda galgava o seu espaço; o major Benhur surgira na corporação dando os primeiros passos no Presídio Disciplinar – a menina dos olhos da Segurança Pública -  de gestos fortes e irascível em decisões, Benhur  logo ganharia, internamente, o apelido que lhe faria jus por muito tempo:  – Dá-Sem-Dó!...  Por sua vez, ainda conhecido como   “Fonte Luminosa”,  Juce  apresentara-se à frente dos detentos com uma liderança ímpar  e criativa, capaz de articular  uma fuga memorável; ainda que  tivesse acabado  de forma  trágica, o  episódio somou pontos no mundo do crime,  dando origem  ao destemido JUCE, o general JUCE, como o apelidaram, pois com a inteligência e a audácia dos aguerridos teria  dado   liberdade a mais de uma centena de internos, não fora  o desabamento  imponderável do túnel que soterrara  a maior parte dos fugitivos.  Juce escapara do  incidente, no entanto, líder nato,  e temendo a prisão e transferência, enfrentaria  pela primeira vez, o antigo amigo, o Major Benhur,   por força de uma  ação de seqüestro sob seu comando.   Antes que se pudesse contar até três na velocidade do som,  o Major Benhur e sua tropa fizeram tombar a porta da sala onde Juce mantinha a refém,   entretanto,  recuaram temerosos diante do que viram. O general Juce desenhara um cenário  que exigia atenção e cuidados;  mantinha a Assistente Social junto  à mesa, deixando visível a faca ao  alcance da mão.   O Major Benhur pode ler nos olhos de Juce as artimanhas de um golpe anunciado, por isso, manteve-se em silêncio, sinalizando  à  tropa o posicionamento em círculo. Estava claro que Juce   levaria  essa   infâmia ao fim do mundo, pois mantinha  a refém a uma distância precisa, inibindo qualquer iniciativa precipitada.  Enquanto o   silêncio se prolongava,  o Major Benhur  tentava decifrar aquele cenário estratégico:  o episódio levado  às últimas conseqüências seria capaz de transformar o general Juce,  de  bandido a herói, pois  os tiros sobrariam em maior  parte para a própria  Assistente Social.  Sobre a mesa,  a faca  reluzia diante  de todos,  parecendo dizer que estava à espera, que aguardava  ordens  para cumprir o seu destino, ou seja, furar bem fundo a  jugular da  Assistente. Refém do silêncio, aos poucos,  o Major Benhur deixaria   ver em sua face os contornos de um sorriso enigmático, transformando-se paulatinamente no impulsivo Dá-Sem-Dó.  Era evidente que precisava agir  tal qual aprendera no comando da Polícia.  Sintonizada,  a tropa de choque interpretava aquele  código  em ordens  de Atenção, Preparar, Fogo!.... Nesse instante, porém,   o que se ouviu a partir dali,  foi um  grito ímpar. Um grito de mulher que, instintivamente,  decifrava o enigma e doava-se de corpo e alma aos seus rebentos.  De braços abertos, como um  sinal da cruz a intimidar os Fariseus,  a  Assistente  compreendeu que nenhum dos dois  cederia à intenção e ao gesto.  Cristãos todos,  o general Juce e  Dá-Sem-Dó recuaram, ambos,  intimidados. A  tropa baixou as armas. Juce afastou-se da faca.  E com a delicadeza de uma mãe, coube à  refém indicar um caminho  seguro para todos.   Dá-Sem-Dó  e o general Juce  acenaram – antagônicos -  com uma certa reverência diante dessa Nossa Senhora da Salvação.
Superado o incidente, seguiram, ambos,  cada qual o seu caminho. E então, ali, agora, sobre a mesa,  sob as mãos hábeis do  exímio desenhista, Major Benhur,   surgiria   no papel  o rosto  duro e grotesco do  general  romano Júlio César – aliado às palavras do telefonema daquela manhã;   “- ...Você me conhece, Benhur,  ou facilita a saída dos meus meninos  ou ponho fim na carreira do seu  moleque ... o que acha?   E  sem   dar qualquer trégua,  Juce acentuaria a data comemorativa; - Ah! Benhur... Dona Laura manda lembranças,  nunca esquece do nosso aniversário, você sabe! ...e  de mais a mais,  você sempre foi o xodó da  Velha, não é!?...   
O Major Benhur,  com as mãos ágeis e uma destreza incomum,  pouco a pouco,   impregnava a imagem do general  romano, Juce,  com  traços  agressivos,  Entretanto,  por mais que o rejeitasse,   não poderia deixar de  vê-lo  também nas cores puras da   infância: o corajoso Juce,  de semblante  inteligente, ágil e esperto... o estrategista Juce enganando  a todos na brincadeira de “Salva-Cadeia”...Já não havia mais a quem pegar, todos os meninos estavam presos na corrente indiana,  faltando apenas o general romano Júlio César... e nada do Juce aparecer pra libertar os amigos. Houve até quem o chamasse de general traidor!... Ali  na rua, próxima à praça,  apenas alguns bóias-frias solitários chegando do trabalho com seus apetrechos e enxadas às costas... Pois, exatamente quando passavam pela “cadeia” surgiria o aguerrido Juce, disfarçado num desses trabalhadores e, tranquilamente, daria o salvo-conduto a todos os meninos  naquela prisão inventada pelo imaginário infantil!... 
“- Bandido também tem Mãe, não é,  Comandante!...”
Já na reunião de cúpula, o Major Benhur  tentara esfriar os ânimos dos seus pares de linha mais dura sobre a transferência de detentos para presídios de segurança máxima no interior do estado.  Mas a sua ênfase  recaía quase sempre sobre a proposta de liberação  de presos no Dia das Mães. Era evidente que, mesmo  amaldiçoando Juce,  o Major tentasse ganhar tempo para reelaborar o  projeto destinado aos detentos de alta periculosidade.  Entretido nessa tese,  a  referência às genitoras, sem que o Major  percebesse, fora motivo de ironia entre os homens da mesa oval. A liberação de presos  no feriado da Mães  ganhara desdobramentos. Os gráficos da ala mais conservadora apontavam para um número excessivo de presidiários  com acesso ao benefício; o que traria pânico e insegurança  à população, além de descrédito à própria esfera da Polícia. Depois de muitos entreveros,  decidiu-se  por nenhuma liberação.  Voto vencido,  o  Major Benhur  deglutia o resultado; e o seu desconforto saltava aos olhos mais atentos de alguns membros da Corporação, como o Capitão Jardim, que lhe indagara:  - Está tudo bem, Major!?...       Ao deixar a sala, o Major  entendera que lhe restava, agora,  somente correr contra o tempo; restava-lhe   acionar o celular do filho  com  a  autoridade de Comandante e Pai.  Por essa razão dirigia-se, pessoalmente, ao  Controle Geral  para informar sobre   o desativamento  da  base Joana D’Arc.  Arriscava-se,  é verdade. Corria riscos,    porém,   era visível que  temia  pela presença do filho naquele local, pois o  recado do general Juce fora claro.  Em seu álibi, o major Benhur justificaria a iniciativa como um estudo para futuros desativamentos  dessas unidades!...   Mas,  o tempo fora curto. Curtíssimo até.   Antes mesmo que o Comandante Benhur dissesse “espera, Juce”  na velocidade digital  do próprio  celular,   a voz do  aguerrido general romano crescia poderosa, atingindo contornos que desfaziam qualquer acordo,  deixando, inclusive, suspeitas sobre o  vazamento da  operação Dia das Mães.   A voz  seca de Juce soara como   um   rojão, sinalizando   um único caminho de entendimento. Emudecido, Benhur sentia  no próprio corpo,  a pressão de um  incômodo  e dolorido soco  que o levava a  nocaute  no chão de um ringue:   “   -  Não brinco, Benhur!... Não brinco!.”.- finalizou Juce.   Atropelando  os seus próprios movimentos,  o major Benhur  avançaria  corredor adentro  no suntuoso prédio da Secretaria, enquanto  tentava, já, pela quinta vez,  acionar  o celular do filho, a essa hora  sem qualquer resposta.   Benhur  seguiria atordoado, e  quase em transe,  direto às  salas  do  Comando, onde pode  confirmar o que  o general romano, Juce,  já havia lhe  soprado no telefonema:  “ - A base da Joana D’Arc foi atacada, Comandante .. e temos vítimas!.. Lamento, Major, lamento!...
As palavras do oficial de plantão soaram como um petardo arrasador,  por isso,   quem olhasse para o  Comandante  Benhur  de volta à  sala,  e o visse puxar a gaveta e desta retirar a arma e o silenciador,   conferindo  o seu carregamento, por certo não conseguiria descrever  aquela estranha fisionomia.  O que se via ali,  era  um rosto com  marcas que mais pareciam frinchas numa parede nua;  entretanto, eram visíveis no Major, os  traços fortes,  acentuando o que se pode chamar de raiva, ódio e um  clamor, impiedoso,  de vingança;   quem por ventura passasse ali bem próximo, ouviria um nome   reiterado de forma insistente  nos lábios do Major Benhur:  - Dona Laurinha!..   O carro do Major  Benhur fazia as manobras pelas ruas estreitas do bairro, onde observara  que,  praticamente, ainda  se mantinha a mesma geografia dos tempos idos. Benhur ladeava o veículo e, por vezes, parava-o para conferir o nome da rua,  ou ainda,  para ver de perto o pé-de-amora na casa de  dona Rosa,  fruta que fora objeto de desejo da sua infância... No entanto, hoje, ali,  Benhur direcionava o seu foco para a antiga casa azul de portão amarelo, quando se incomodara ao acionar a campainha, atendida, sem demora, e que colocaria  Dona Laura, Dona Laurinha,  já bem idosa   – a doce mãe do general romano  Júlio César  - o Juce -  bem  à sua frente,   a dois passos de distância, quando  muito, irradiando uma esfuziante recepção capaz de inundar a própria rua:     - Benhur...meu menino!... e Narinha, como vai? – Quanto tempo!... Que bom te ver ..Parabéns pra você e pro Juce!...
Por instantes, o Major sentiria  dentro de si,  a voz   melodiosa da mãe de Juce como uma punhalada que o perfurava até a  alma.   Entretanto, compenetrado e militarmente circunspecto,  diria para si mesmo, que  não haveria volta. Dona Laurinha que o perdoasse, mas não poderia transigir no seu intento.  Seu recuo  seria  tão improvável  quanto a ordem de  Juce  contra  a base móvel do seu filho  Marcelo. Enquanto a a imagem de Marcelo surgia  em sua mente pedindo-lhe   um  socorro intermitente até  se transformar  num sussurro que sumia dos próprios  lábios, a mão do Major Benhur seguia, deliberadamente  ao encontro da arma;  a sua  respiração crescia ofegante, mas não o impedia de assentir para si mesmo, que Dona Laurinha carregaria com ela, para sempre,  o vale-tudo entre os rivais,  o peso insuportável  da  retaliação  entre polícia e bandido;  entretanto, antes que o Major levantasse o revólver à altura exata para o disparo, ouviu-se um ruído no alpendre, marcadamente, a  voz enfática e reticente do general Juce:   “ Mãe!...Mãe... está por aí?”     Aquela presença inesperada, colocaria ali, mais uma vez,  frente a frente,  o general romano Julio César, o Juce, e  Benhur, o Major Benhur. Entre eles, agora,  Dona Laurinha.  A mãe de ambos, que, eufórica, quebraria o incômodo silêncio.  A visita  dos filhos queridos, no dia do aniversário,  empolgava-a como nunca;  entretanto, ali,  à curta distância,  os olhos do general Juce fulminavam como um punhal  o desafeto Benhur,   e por certo,  perfurando-o, impiedosamente, com aquelas palavras-lâminas:   Dona Laurinha, Benhur?... você  ia atirar em Dona Laurinha... a Mãe que sempre te acolheu?...   Os olhos do major Benhur, por sua vez, transformavam-se, ali,  em um potente explosivo, capaz de  esmigalhar quem se opusesse à sua frente:     - E Marcelo, Juce, e Marcelo? ...  você matou  o  meu único filho!....    Com os olhares cruzados, faiscantes e estratégicos, Benhur e Juce  definiam  a certeza do primeiro tiro, que, no entanto, fora   interrompido por Dona Laurinha: . - O que houve, brigaram?  - dissera ela, ainda  ligeiramente desorientada, porém,   capaz de perceber que nenhum dos filhos  arriscaria a romper  o insuportável silêncio... E então, ali, em fração de segundos, antes que as armas cumprissem o seu ritual... o  que se ouviu,   enquanto Benhur e Juce decifravam a estratégia  que os levaria a eliminação de um ou de outro... enquanto Benhur e Juce,  reféns da tragédia,  deixavam ver em suas faces os contornos  de um  final trágico e inadiável,...  enquanto  ambos interpretavam os códigos da vida como  ordens  de atenção, preparar, fogo! ....   nesse instante, nesse fatídico instante,   o que se ouviu foi o grito daquela Mãe.   Um grito de mulher que, instintivamente,  doava-se  de corpo e alma  às suas crias.   De braços abertos, como um  sinal da cruz a intimidar os  Fariseus  naquele templo, Dona Laurinha   fez valer a  experiência  de quem percebe como inevitáveis,   a intenção e o gesto.  Cristãos todos,  o general Juce e o Comandante Benhur recuaram  intimidados. Ambos com  o desconforto íntimo, abaixaram os olhos e as armas diante daquela Salve Rainha, Mãe da misericórdia.  Sem dizer qualquer palavra, mas  com a delicadeza de uma Santa, Dona Laurinha apontou-lhes o caminho seguro.  O Major Benhur com a respiração entrecortada e ofegante, deixava visível  a dor latente em sua alma carregada de ressentimentos: o pior deles, o pior de todos, ou seja, a decisão de  matar Dona Laurinha para se vingar do general Juce!... Cabisbaixo, e em silêncio sofrido, o Major Benhur afastou-se lentamente buscando a saída como uma fuga desesperada. O general Juce reteve o seu  ímpeto sob o comando de  dona Laura.   E então, ali, rapidamente, Benhur e Juce acenaram entre si,  como um pacto, uma trégua, um sinal de  reverência   diante daquela  redentora,  daquela  Nossa Senhora da Salvação.
As luzes do estacionamento do IML, onde reconheceria o corpo do filho, já  deixavam  marcas sobre a  noite, quando o Major Benhur - com gestos demorados, carregados de tensão daquele dia  onze de agosto,  e minado em suas últimas resistências, retirou  a  arma e o silenciador  do porta-luvas.  Instantes depois,  quem  olhasse para o  veículo de luzes apagadas -  sob um som abafado, quase em surdina - notaria o clarão, como o napalm incendiário, um risco de luz, aquele  brilho ágil e metálico de um tiro  ricocheteando no  interior do carro, tal qual fizera o Engenheiro Jeff O. Stanford no cumprimento do seu dever.



Texto:  Celso Lopes


terça-feira, 15 de setembro de 2015

BIG BANG  (A grande implosão)
  


Uma árvore...  Um filho... Um livro...

O que se há de dizer sobre isso?
Um compromisso que emana
(e do qual não me livro),
ou uma epifania da natureza
(numa explosão sagrada e profana),
anunciando a  criação da própria 
espécie humana!?...

Um livro...   Um filho... Uma árvore...

O que se há de dizer sobre isso?
Seria um signo  ou pura linguagem:
Sendo o livro – eis a forma de um  criador de mundos;
Sendo filho - o  ser mais simples e mais  profundo;
Sendo  árvore: raiz do universo, o nosso próprio mundo!...

Um filho... Uma árvore...Um livro...

O que se há de dizer sobre isso?
Pois que sigam... e sigam expressivos, livres e vivos,
sem que nada  rompa, dilua, quebre ou entre
nessa importante explosão de  frutos do nosso ventre.





Texto: Celso Lopes