O autor Celso Lopes é natural de Guará, interior do estado de São Paulo, e está radicado na capital paulista há vários anos.
terça-feira, 27 de outubro de 2020
CONCURSO INTL DE CUENTOS Y POESIAS
domingo, 11 de outubro de 2020
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
Homenagem ao Dia da Árvore
A ÚLTIMA ÁRVORE DO UNIVERSO
Por um descuido, por não lhe ouvirmos a súplica,
à nossa frente sangra a última árvore do universo.
Por destratarmos a natureza da sua natureza,
induzimos severas fissuras à última arvore do universo.
Por um ato falho de relegarmos a sua ancestralidade,
queimamos viva, sem culpa, a última árvore do universo.
Por ignorarmos o seu silêncio milenar de significados,
abrimos uma fenda aos fungos na última árvore do universo.
Por lhe fecharmos o cerco e estancarmos a sua seiva,
à nossa frente morre de sede a última árvore do universo.
Por lhe impedirmos o ar e secarmos o seu fôlego de seguir,
abatemos o broto e a vida da última árvore do universo.
Por ela, pela última árvore do universo,
já não haverá crianças que a defendam...
Por ela, pela última árvore do universo,
já não haverá razões para tratados políticos...
Por ela, pela última árvore do universo,
todos os seres, todos os versos serão tristes...
Diante dela, o silêncio inútil, o gesto inútil, o grito inútil
serão cantigas de roda, surda e mudas: o poema em desespero
abraçando o planeta!...
Texto: Celso Lopes
sábado, 19 de setembro de 2020
A LARANJA E O BEIJA FLOR (Resenha sobre "REFLEXÕES" - J.A.Palma)
“A LARANJA E O BEIJA-FLOR”
Tive o prazer de ler o livro “REFLEXÕES”, do escritor João Augusto Palma, nosso Maestro e Confrade na ALAGUARÁ. Dele também são “Coletânea” (escritos diversos) e “Publique no Face”.
O título dessa pequena
resenha, propõe-se a ilustrar, em parte, a trajetória de um autor que, ainda precoce, foi identificado
pelo Professor, através de uma redação
criativa, e por que não dizer, digna de
elogios, cujo título premia um item da
nossa flora: “O fim trágico de uma
Laranja”; o texto, escrito pelo então aluno da 2ª. Série do antigo ginasial, já impregnava os traços da
sua inquietude diante da existência e do existir. Confira um trecho da redação: “(...) Depois de arrancar a minha
pele, apertando-me com força, chupou todo o meu sangue e me jogou pela calçada
quase morto.(...) um garoto brincando
pela rua, ao me ver corre em minha direção e me chuta para o bueiro da esquina,
que quando caio sou levado pelas águas a
um riacho, do riacho ao rio, do rio ao mar, e do mar...”
Creditamos aqui, nosso
reconhecimento ao Mestre e, claro, aos passos promissores e desafiadores do
aluno João Palma. O livro, já na introdução, sintetiza e aponta
os caminhos escolhidos e inspirados pelo autor que, como uma prévia do que
vamos ler, apresenta-nos um olhar
profundo sobre o “amor”, o “tempo”, a “natureza e o Criador”, além de outros
tópicos entremeados às suas convicções evolutivas sobre e para o ser humano. E
questionamentos não lhe faltam, seja em prosa ou poesia/letra de música, como
neste caso: “ (...)
poder ter uma pequena ideia / como deve ser o céu, ser o céu...”.
A título de sugestão para
futuros leitores de “REFLEXÕES”, vale dizer que o autor pinça títulos, que por
si só, retratam e nos direcionam para um desvendamento interior, uma descoberta, e sem dúvida, perguntas
profundas que João Palma se propõe a responder. Senão, vejamos: “Limpar o coração”, “O mundo é um bom
lugar?”, “ O Livro-caixa”, “Quem fala por mim?”, “Estado de Espírito”,
“Irmãos”, “ A Fé (cérebro ou coração?)”, “Como poderemos obter a Paz?”, “O tripé
da vida”, “Compaixão”, “Vibrações de Amor”, “ A voz que não ouvimos”, “O homem
interior”. E há outros textos, incluindo uma “quase dedicatória” aos amigos. “Existe
algum privilégio na vida que seria maior do que ter tido a oportunidade de ter
alguns amigos extraordinários?” “Diz
o ditado” - continua
João Palma: “de
amigos verdadeiros não conseguimos encher uma mão”, entretanto,
acrescenta: “posso ter sido privilegiado (...)
precisaria de mais mãos.”.
Soma-se aos textos, um Epílogo,
em que o autor põe sobre a mesa “as grandes verdades por ele adotadas”,
perpassando assim, ora pela grandeza do Criador, ora pela finitude do homem, o
sentido da existência, a presença de Deus, a morte e as leis da Natureza.
REFLEXÕES, do escritor João
Palma, exige sim, concentração, mas sem
dúvida, o leitor é amparado pela sua habilidade de condução sobre os temas vários,
onde, por vezes, faz uso de citações: – “Na casa do meu Pai existem várias
moradas.” (João 14,2); e para esclarecer
ao leitor sobre a amplitude desse entendimento, assim exemplifica: “ A Terra é uma dessas
inúmeras moradas onde a alma de Deus poderia habitar (...) o Ser Supremo criou
um lugar com intenção de torná-lo abrigo e notou que isso era bom (...) a Terra
é o palco onde se desenvolve uma peça teatral e que tem como enredo, a nossa
vida (...) bem desenvolvida a história, o cenário será grandioso (...)”.
No texto “Quem fala por
mim?”, Palma utiliza-se dos sentidos físicos, como o tato, visão, audição, paladar, olfato, e também a fala/comunicação, para
acrescentar (e aprofundar) seus questionamentos. Por isso, afirma que os sentidos são importantes, mas não são os
únicos, pois “quem fala
por mim é o meu coração e a minha mente”. E aliando reforço, vem em nosso socorro para esclarecer de pronto: “Jesus disse que não devemos nos preocupar
com o que entra pela boca, mas sim com o que dela sai.” (Mt.15,11). As perguntas de João Palma em “Uma vida
ideal” são aquelas que faríamos, como por exemplo: Qual é a paz que desejamos?
Qual é a tranquilidade que buscamos? A convivência que queremos?, entretanto,
são as respostas do autor que nos colocam atentos, pois, como diz: “
Nada cairá do céu. Tudo o que desejamos temos que buscar , usando a nossa força
interior, embasada na qualidade da nossa índole.”
No texto “Irmãos”, mais que
oportuno, o autor se apropria do sonho
eterno de Martin Luther King – “
aprendemos a voar, e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como
irmãos.”, e como ele, também clama por
valores imprescindíveis como ‘tolerância’
e ‘fraternidade universal’. Não é sem razão que em
seu brado. João Palma exclame alto: “- Ah! meu querido Deus!...Quão nos poderíamos
seres humanos se extasiar da tua magnitude (...)”
Em “Estado de Espírito”,
fazendo uso de posturas propositivas, como participação, atenção, alegria, responsabilidade,
confiança, benevolência, etc., João Paulo escreve, por assim dizer, ‘lições’ que
equivalem a um “epitáfio vivo” dele próprio, pois promete se tornar,
continuadamente, ‘um ser cada vez melhor’. E é o que ele referenda no texto
“Relacionamento”, em que faz uso de um trecho do “Pequeno Príncipe”,
detidamente, no diálogo com a Raposa: “- Por favor, cativa-me – disse ela. (...)
Se tu queres um amigo, cativa-me!...Que é preciso fazer? – perguntou o
principezinho. “- É preciso ser paciente (...)
– respondeu a Raposa.”
Tão certo como as lições ‘Saint-Exupéry’,
autor do Pequeno Príncipe, há ainda, um mundo a ser desvendado no universo das
reflexões de João Augusto Palma. A resenha, no entanto, ao finalizar, buscou
premiar um item em que o autor, agora, utiliza-se de um elemento da fauna para
transcender os caminhos da sua viagem
reflexiva. A poucos passos de uma parábola, neste caso, contemporânea, o texto “Beija-flor” é um instante
apoteótico, afinal, nasce do pequeno tempo em que uma ave (beija-flor) permanece
presa (sem saber como sair) dentro da casa, mais precisamente, na cozinha. O
episódio, sem intenção, reúne parte da família – todos dispostos a livrar o
beija-flor daquela estranha prisão. E libertá-lo, claro. E dessa simplicidade,
dessa miudeza do cotidiano, João Palma
alcança a sua grandeza. Diz para o filho: “Olha o que é a natureza!...Ele
(beija-flor) está, instintivamente,
buscando o alto (...) o seu único comando é subir, pois sempre foi assim em sua
trajetória de vida (...). A lição ali
contida, revista pelo autor, culmina numa
excelente reflexão e discernimento sobre
a existência frágil e desorientada de tantos e tantos seres humanos. Enfatiza, ainda, o autor: “ - Voltei às minhas rotineiras
atividades quietas, serenas, pois era o primeiro domingo de um novo milênio”. E
“novo milênio”, como sabemos, pode sim, conter novos sinais de inquietude com o
porvir.
Texto: Celso Lopes elipse84@terra.com.br
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quinta-feira, 17 de setembro de 2020
ASSINA "GUIMARÃES" - Crônica de Celso Lopes
Assina “Guimarães”
É no mínimo curioso e gratificante acompanhar
alguns caminhos “coincidentes” da escritora
Ruth Guimarães em seu livro Água Funda,
e de seu colega Guimarães Rosa, no conto A terceira margem do rio. O livro da autora é de 1946, o do autor,
inserido em Primeiras Estórias, é de 1962.
Dezesseis anos separam ambos os textos, porém, ambos os autores, de
fato, juntos, submergem e emergem à flor d’água, e a partir dali, tecem nas
margens de um rio, as suas próprias narrativas.
Se a narradora destila fluida: “A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole
um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo
e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica
tudo no mesmo outra vez “
Guimarães mergulha, aflora e revela nessas mesmas águas turvas: “...Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma
parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de
meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais (...)”
Rosa destaca a história de um homem que abandona a
família e a sociedade local, para viver à deriva numa canoa dentro do rio. Entretanto, é de se notar que os caminhos do
campo para a cidade são visíveis. Presos ao mundo rural, restam, apenas, pai e filho.
Podemos aventar que, diante dessa “estória estranha”, enxergamos os
sinais de um novo mundo que se entranha naquele sertão.
Água Funda tem como cenário a fazenda Olhos D’Água, no sul de Minas e região paulista do Vale do
Paraíba, e de acordo com o resenhista
Carlos Carvalho, “o romance nos leva a conhecer os
primeiros moradores da propriedade, ainda no século XIX, em pleno período
escravocrata e, de repente, a história dá um salto no tempo, chegando ao começo
do século XX”. (...) Se na primeira parte a vida é pautada pela
exploração da mão-de-obra escravizada, cujo status está ameaçado pela iminente
mudança de modelo econômico e político, na segunda história, a ruptura se dá
pelo choque com a modernidade e a chegada dos gringos que vão mudar o processo
de produção do açúcar e do álcool na usina da fazenda (...)
Para o resenhista, ainda, há de se acrescentar que “ Toda essa dose de
realidade econômica, social e política é contada em um registro fantástico, com
um lirismo e um ritmo narrativo que antecipa muito do que se produziu na
literatura mágica latino-americana.”
“- Ninguém é doido. Ou então, todos”.
A escritora viu-se sozinha na grande cidade, nem parentes nem amigos, entretanto, ainda
que, ‘expulsa’ do meio rural, daquele outro Brasil, veio para os estudos em
busca de cumprir a sua sina, e trouxe na sua
bagagem a memória viva e profícua relatada em seu romance Água Funda
que, conforme analisa Fernanda Miranda: “A ficção acentua o que
ficou de uma fase na outra, isto é, elabora as permanências e resíduos do
colonial na passagem do tempo” (...)
Para a própria
autora de Água Funda, em sua preciosa
síntese: “ Água funda é
um livro engraçado, livro da vida de todos os dias, é um livro de
“acontecências”. Qualquer vida dá uma água funda, qualquer um de nós escreve um
diário e conta aquelas coisas de todos os dias e vai sair uma água funda”. Não há
dúvida de que Ruth Guimarães encontrou,
sim, o seu tempo. E nos deixa na
amplitude das suas palavras, o foco do seu destino, a sua sina, ao pisar,
segura e confiante na grande cidade, com a tarefa de nos legar um incessante trabalho
literário; e ainda, também como o autor “Guimarães”, deixar uma importante lição para todos nós
sobre a literatura universal. “Ao
mesmo tempo, rica de certeza, de uma presciência, de uma esperança, que sei eu?
sonhando os sonhos mais doidos. Viver, sempre aceitei como uma grande aventura.” - relata-nos, com sinceridade,
a autora de Água Funda.
(*) Carlos Carvalho –
escritor e jornalista
https://lombadaquadrada.com/2019/10/21/agua-funda-o-classico-fantastico-de-ruth-guimaraes/
(*) Fernanda
Miranda é doutoranda em Letras (USP)
DUELO SOBRE A MESA - Conto de Celso Lopes
DUELO SOBRE A MESA
Um dos peritos, impressionado pelo fulgor do embate, chegou a citar, textualmente, “o caótico rio de pedras”, narrado pelo escritor Umberto Eco*. E não sem razão; há de se acreditar, insistia o perito, que no auge desse enfrentamento imperioso, o interior de ambos seguia em contínua ebulição, revelando uma torrente furiosa, tal qual uma “correnteza de grandes rochas informes, placas irregulares e cortantes como lâminas, e amplas como pedras tumulares (...). Aos olhos do perito, fora assim o duelo entre Dona Branca e o Professor Pio. Quem os conheceu no dia a dia informava que as desavenças entre ambos, não raro, surgiam após um silêncio profundo; nessas horas o ar ficava pesado e fazia brotar, às claras, um rancor íntimo desencavado. Acredita-se, informam os peritos, que esse conflito pode ter sido acentuado pelo toque de se recolherem ao lar, uma vez que integravam o grupo de risco imposto pela Pandemia. Foram encontrados, ali, sentados, frente a frente, na mesa da sala; cada qual em seu canto com a cabeça curvada e apoiada sobre o braço; o olhar de cada um deles parecia, certeiramente, dirigido ao outro. Lá estavam, inertes, até a descoberta. Cansado de ligar para os pais, o filho informou ao Zelador do prédio, e este, pressentindo algo estranho, levou o caso à polícia, que, instantes depois, solicitou a abertura do local e posterior autópsia. O casal vivia há muitos anos naquele prédio do bairro. Ela, uma antiga professora de história; ele, ex-chefe de laboratório de biologia da faculdade, onde se conheceram ainda bem jovens. A perícia técnica apresentou anotações, laudos, infográficos e fotos, destacando um considerável número de Palavras Cruzadas abertas; um Volume sisudo de cor marrom; dois Dicionários que, pelas digitais, disseram os peritos, o Caldas Aulete seria o da Mulher, e o Aurélio, o do Homem. A perícia indicou que as sandálias da Mulher deixaram rastros. Observou-se que teria se deslocado até à cozinha, onde tomara café na térmica; depois, deteve-se na estante da sala, de onde retirou o Volume marrom, que destacava na página interna: “Instrumentos de Guerra da Antiguidade”. Segundo a perícia, tratava-se de relatos sobre estratégias dos antigos exércitos, como o “Apito da morte”, descrito, ali, como “um objeto sonoro criado pelos Astecas, que simulava estridentes gritos de pessoas em sofrimento, induzindo os adversários a um estado de transe desesperador.” Apanhado o livro, Dona Branca se dirigira à mesa do embate. Então, ali, o duelo teve início para ambos. Cada qual com os seus compêndios de Cruzadas. Segundo os peritos, era quase possível “ver” a agilidade da Mulher no desafio das verticais e horizontais, sem tréguas ao adversário; indicaram ainda, que, em determinado instante, os olhos da Mulher foram ao encontro dos olhos do Homem. O abalo causado por esse olhar, disseram eles, fragilizara o oponente. Na praça de guerra, o espalhamento das revistas acenava com que a estratégia do Homem seguia rápida com rigorosa atenção nas armas de combate. Ao Homem, fortaleciam-lhe as publicações relativas a filmes, teatro, música, biologia e literatura química. Novamente, “pressentia-se” a voz da Mulher de forma explosiva no território da disputa. Podia se ler, com clareza, uma das perguntas: “Animal mitológico associado à virgindade, tem a forma de um cavalo com um único chifre frontal?”. Bingo. “Unicórnio”. Assim assinalara a Mulher. Ao Homem, restava-lhe o sofrimento frente à pergunta quase sussurrada: “- O nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo?”. Segundo os peritos, os sinais mostravam, vivamente, que o professor Pio estancara-se com a caneta no ar; pois sentia, naquele embate infernal, a Mulher apontando-lhe as armas de Guerra. Aquelas tamanhas e poderosas, como a Catapulta, arma de ataque capaz de quebrar barreiras dos homens, especialmente, os encastelados e protegidos em cidades muradas. Haveria de destruí-lo, caso ele persistisse. Lançaria sobre seu adversário as mais potentes armas, que haveriam de liquidá-lo no interior do palácio. Recuasse, portanto, ou então, receberia o golpe mortal: haveria de lhe atirar a maldição das esposas incompreendidas!... Para os peritos, a mente do Homem dirigira-o para a área química. Ou ele a superaria agora ou haveria de viver a maldição das esposas abandonadas. O Homem sussurrava, exalando suor frio. Ele sentira o baque. Doeu-lhe a força desse punho gigante da Mulher à sua frente. Por isso, olhava, agora, de dentro do seu próprio silêncio, para dona Branca, enquanto lançava mão do seu Aurélio: - O nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo!... No entanto, as tentativas se mostraram infrutíferas e o silêncio fora quebrado, apenas, pela retórica ascendente da Mulher. “ - o Santo Graal também é chamado de.....?”. Neste ponto, os peritos adicionaram ao laudo: “ na sala avolumada de silêncio, podia ser percebido os contornos grandiosos dos olhos do Homem e da Mulher, como fossem eles, Dona Branca e o Professor Pio, os guerreiros autênticos das antigas Cruzadas, os soldados de Cristo.”. Então, enquanto a Mulher já se debruçava nos desafios da sua Coquetel Super, um certo vazio se instalava no ambiente. Agora, as horizontais da Passatempo do Homem pediam ajuda aos deuses da sabedoria: “ - Trepadeira comum em muros - com quatro letras? - A flor da idade, no sentido figurado - com nove letras?”... Enquanto o Homem entendia a necessidade urgente dessas respostas, ela, a Mulher, garantem os peritos, ganhava distância a olhos vistos. As palavras cruzadas exigem mais que uma brincadeira - ironizava em seu silêncio - como se mostrasse a ele, ao Homem, que as Cruzadas não brincam. Então, a Mulher preparou-lhe um olhar fulminante repleto de força bruta sonora: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto, lutamos mal rompe a manhã(**)”. E tomada pelo poder dessas palavras ditas, eis que, então, sob suas mãos, elas, as palavras, ganharam formas definidas de ataques: primeiro as pontiagudas, depois as cortantes, e por fim, as explosivas... E assim, a Mulher lançara, inapelavelmente, sobre Homem, os seus escudos especiais. Ao Homem, restava-lhe manter a distância adequada para não ser ferido de morte. Mas para sua festa surgiram os filmes, teatro, música, artistas e afins. O Homem sorriu largo, pois, se sentia no páreo; E assim seguiu ele, devorando com gulodice as suas anotações: - Em que cidade nasceu Yusuf Islam ( conhecido como Cat Stevans?) - Qual série de TV tinha como protagonista o Ator Peter Falk? ... Como previsto, o Homem avançou três compêndios e cinco páginas, mas ainda era pouco. No entanto, com o rabo-dos-olhos ele percebeu que a incomodara. A Mulher, ali, embatucara-se diante dos símbolos químico....Ele ouviu, sim, a ênfase retórica, insistente, carregada de nervosismo: - Enxofre?.... Lítio?...A mente não lhe faltaria nessa hora – sorriu triunfante. A toxicidade das substâncias químicas dançava à sua frente, como um gás mostarda, cloro, ácido cianídrico... mas ele, ali, definira-se pelo Napalm - O gel pegajoso e incendiário usado nas guerras trágicas do Vietnã, Laos e Camboja... porém, confessava a si mesmo que não viveria a dor do engenheiro Jeff O. Stanford – Chefe do Laboratório Químico dos USA, responsável pelo envio do Napalm às frentes americanas que, diante do grito antibélico do mundo, e culpando a si mesmo pelo genocídio, suicidara. Assim, a Mulher, novamente, ganharia a dianteira: - Península que abriga a Grécia e a Croácia? - Nome de Deuses da Mitologia Grega?... E então, decidida a trucidá-lo, sem perdão, tomou para si as armas decisivas. Com destreza e maestria, Dona Branca apossara-se dos Estrepes e Culverins; segundo os peritos, “armas medievais atiradas contra a cavalaria inimiga”. Desviando desse campo minado, o Homem titubeava em seu abecedário: - Substância encontrada em vegetais, de grande importância para o funcionamento do intestino?. Os passos seguintes formariam a barreira implacável. O Homem sofria a cada pergunta que preferia não ouvir: - O maior império do mundo (em duração)? - Rei pagão denominado pelos judeus como o Messias?... As muralhas e fortificações, postas ao chão naquela guerra, levaram-no à rendição. O ar, agora, lhe faltava – disseram os legistas. Portanto, febril, cansado e ofegante, ele se acomodara sobre a mesa, com a cabeça inclinada no braço curvado, e o olhar, certeiramente, dirigido às pupilas da Mulher. E então, a Mulher, com sua respiração traumática naquela batalha sangrenta, em que vencera o homem encastelado, numa luta silenciosamente inumana, reconhecera no antagonista, conforme a perícia, um guerreiro, alguém de valor e à altura, o que a levara à rendição definitiva. A ausência do ar, agora, sufocava a ambos – disseram os exames. Portanto, também ela, Dona Branca, acomodara-se na mesa com a cabeça inclinada e o olhar certeiramente dirigido às retinas do professor Pio!... Fortalecendo a narrativa técnica, o perito retomaria o “caótico rio de pedras”, criando, aleatoriamente, um apoteótico final: “nenhuma voz humana podia se fazer ouvir naquele instante fatal sobre o duelo na mesa; embora ambos, ali, tivessem o desejo de falar, de se despedirem de toda a carga de emoção que arrastavam consigo, não conseguiriam. O ‘rio de pedras’ interior que os conduzia, enfurecia-se cada vez mais, levando tudo ao redor para as invisíveis vísceras da terra, pulverizando cascalhos, blocos e rochas para exprimir, talvez, a impotência maior do Homem e da Mulher frente ao embate do vírus vencedor.”
(**) Versos do poema “O Lutador” – Carlos Drummond de Andrade.
II CONCURSO LITERÁRIO – MARIANA CAZELLA MACIEL
Promoção: Projeto NEPLLI – Nucleo
de Ensino e Pesquisa em Língua e Literatura
Curso de Letras - Instituto
Federal do Paraná - Campus Palmas
Realização: maio/junho 2020
Classificação: 1º. Lugar -
Conto: DUELO SOBRE A MESA
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
SALTO SEM BARREIRAS Conto de Celso Lopes
SALTO
SEM BARREIRAS
Em casa quando a situação ficava tensa, a Mãe
folheava as páginas de um livro do Machado de Assis e o Pai rondava pela
sala, silencioso; eu acelerava acordes do violão, criando
um som desigual pra atiçar aquele espaço chamado “lar”. O violão parecia dizer: “- Ei, Dona Nancy,
largue esse maldito livro e grite as suas mágoas para o seu marido, vamos!” A
Mãe tremia; era visível que resistia em tocar
fogo no seu lar-doce-lar. O romance com
o Pai, nasceu de uma acirrada disputa com uma tal de “Mariana” e
lembrava o mestre da literatura.
Trocando os nomes, teríamos a história de ambos recontada pelo Bruxo
do Cosme Velho: “O ‘Pai’ quis sinceramente fugir, mas já não pode: ‘Dona Nancy’, como uma serpente, foi se acercando dele,
envolveu-o todo (...) Ele ficou atordoado e subjugado.(...) Para a Mãe, as ausências do Pai,
antes um sussurro, agora explodiam...Diante dessa situação, eu, sem saber o porquê, disparava farpas
contra o Pai. Nascia em mim uma crueldade provocativa,
capaz de trucidá-lo até, se
preciso. Tantas vezes, tanto fiz, que naquele dia a Mãe soltou os seus
demônios . “Dona Nancy” aliou-se a mim disparando
estilhaços para o seu homem. “- O
Júnior tem razão... Pra você, somente os amigos e as competições!” A Mãe
falava e eu sorria vitorioso, insistindo que ele queria era fugir da gente, livrar-se da sua mulher e do seu filho!... Instigada pela infâmia, a Mãe
pegou o jeito, avivou as brasas e entornou a água fervente: “...Comigo?
...comigo apenas alguns minutos, sem uma
palavra de carinho, só cobranças ... Lavou meu uniforme? Viu minha chuteira? Cadê meu
tênis? Eu?... Eu que me lixasse nesse abandono ... Antes, eu juro, antes eu tivesse deixado você
com a espevitada da Mariana... À noite, quando
eu mais te queria, me via ali, sozinha. Eu no meu quarto, o Júnior no dele.
Sozinhos, os dois. Sem homem, sem pai, sem palavra amiga. E você? Você lá no bem-bom, comemorando vitórias... E você? Você ali, na cama, dormindo cansado...Pior,
um homem sem vida pra mim! Sem os desafios que eu queria!... E eu, a boba, a
boboca, a vida inteira na plateia, impotente, assistindo a essa sua epopéia olímpica
maldita. Maldito, você!”. Naquela tarde, enquanto a Mãe espezinhava
o seu homem, o Pai fazia desabar ali na sala, todos os seus troféus
esportivos, as medalhas, as fotografias
emolduradas, os seus diplomas e certificados... Eu, sem lhe dar folga, acentuava o ritmo do violão e fulminava-o com palavras cruéis; Eu repetia até que me faltasse o fôlego, como numa competição em busca de recordes: “- Medalhas,
troféus, diplomas... Você nessas malditas
competições, eu aqui, sem pai, sem amigo....
Às favas, esse tal de Moses! E ganhou o
quê, me diga? Nada!...” Em meio à guerra que lhe fazíamos, os “louros”, agora,
acomodavam-se espremidos em caixas de
papelão. O Pai, aos poucos, livrava as paredes, as prateleiras
e as estantes, de tudo aquilo que o mundo esportivo lhe dera; e odiando a Mãe e
a mim, descia, furiosamente, pra
depositar as suas conquistas na lixeira da rua. Pouco vimos o Pai numa competição;
quem o conhecia, no entanto, admirava
o esportista polivalente, de excelente compleição física, um atleta determinado
e talentoso, nascido no mesmo dia, mês e ano da lenda-viva do atletismo
mundial, Edwin Moses; garantiam
que dele, o Pai absorvera a velocidade, a força
muscular e a capacidade de treinar ... Hoje, ali, no
parapeito do sétimo andar, o olhar do
Pai nos evitava, mas mantinha sob vigília todos os seus troféus. Uma visão de águia contemplando cada um dos objetos
lá na lixeira da rua. Abrisse a boca, o
Pai diria que a medalha de “natação” cromada
em ouro 18 fora conquistada na raia olímpica do Tênis Clube ... Abrisse a
boca, diria que lá estava também a medalha do “futebol”...A Mãe lia pela
décima vez “A Cartomante”, embevecida
com a tal “Nancy”. O Pai, por certo, também via entre suas “honrarias”, o troféu
Hélio Rubens, referência do basquete
brasileiro, agora, abandonado
lá na lixeira tal qual o do “handebol”... Vez ou outra, seus olhos aquilinos
rastreavam o vazio das paredes, a
limpidez das estantes, a profundidade das prateleiras... Por vezes, mirava olhos reticentes endereçados a mim e à Mãe,
mas em instantes deixava-nos ao abandono.
Apoiado no beiral da janela, pude ver quando os ruídos lá embaixo abriram-lhe
um sorriso. O menino não tinha mais de 12 anos. Primeiro, olhou para os lados, depois subiu os olhos
para o alto do edifício. O Pai, mais visível, esquivou-se para a cortina,
temeroso de algum confronto... E lá
estava o menino, ora puxando um troféu, ora uma fotografia, ora uma medalha...
Chegou até mesmo a apanhar o porta-retrato do Edwin Moses, mas abandonou-o rápido, por certo, desconhecia o atleta dos
Texto: Celso Lopes
/ elipse84@terra.com.br
Publicação
no site www.escritacafeina.com
https://www.escritacafeina.com/post/salto-sem-barreiras
Obs: publicado na seção Cappuccino Grande













