quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

ANTOLOGIA POLICIAL WEBTV CRENÇAS DE AGOSTO Conto de Celso Lopes

 


CRENÇAS DE AGOSTO (O Império sob sombras)  -  Celso Lopes 

https://www.redewtv.com/2020/12/antologia-contos-contemporaneos-2x06.html


Gêmeos, os irmãos CAU e JUCE  nasceriam num  fatídico mês  de agosto. Mês em que as lendas e superstições tratam logo  de dizer:  Agosto, mês do desgosto!... No entanto, a data destacava-se como histórica para os pais, em especial, para dona Nara, a mãe, pois buscara  origem dos nomes  no Império Romano; e para a alegria dos familiares e parentes, as crianças,  durante algum  tempo comemoraram juntas os festejos de  aniversário.  Vale dizer que ambos - Cau  e Juce -   tiveram  suas histórias de vida regidas por uma epopeia familiar. Dona  Nara, quando grávida,  debruçara-se sobre os principais  relatos  de  heróis medievais,  à cata de nomes que mais se fizessem apropriados ao primeiro filho, no caso, aos dois pimpolhos.   Isso, tão logo o ultrassom acabara de confirmar o sexo das crianças!...  Dali à escolha dos nomes, o tempo  fora correndo com curiosidades e empolgação . Mas sem dúvida, o mês de mau agouro, o mês de cachorro louco, sempre surgia nas evidências das pesquisas feitas  por dona Nara, até que... .  Empolgada com a vida de um rico mercador romano, escravizado pelo antigo amigo, mas que se esforçara pela conquista da  liberdade,  dona Nara  não vacilou:   - César Augusto.  –  e dizia a quem estivesse por perto,   contornando a barriga, delicadamente, com as mãos,  e reiterando, inúmeras vezes, com um largo  sorriso nos lábios, o nome épico do seu mercador Romano, distinto e especial; e dizia em alto e  bom som   para que o seu  próprio bebê  pudesse ouvi-la:  - CÉSAR AUGUSTO!...  

E então, sem meias palavras, assim de supetão,  espocou-lhe à mente, o esperado nome para o outro filho: -  JULIO CÉSAR!... disse dona Nara com ar comemorativo, o  que colocava  um ponto final à sua procura.  Júlio César!... Júlio César!... emendou confiante e alegre, e dissera de forma empolgadíssima, especialmente, porque o  achado era excelente:  um  general importante do Império Romano, um homem audacioso... Enfim,  um homem aguerrido!... E a descoberta dos nomes surgiu  acompanhada de ajustes,  com a precisão de um bisturi:  “- E que melhor coisa o “CAU”  iria querer, hein?  -  acentuava, alegremente,  dona Nara, com a certeza de que o  apelido criado pela junção das primeiras letras de César Augusto,  emprestava  prestígio e simpatia ao seu  grande mercador romano:  C-AU!... -  e completava:- CAU  é tão bonito, você não acha,  Benhur?...  Nessa hora, levava a definição ao marido, complementando em delírio o nome do segundo filho:  JU-CE!...JU-CE!... Escolhido da mesma forma, com a junção das primeiras sílabas do seu Imperador Romano JÚLIO CÉSAR!...E foi assim que pouco a pouco,  dona Nara, apresentava-se com  uma habilidade acentuada para “Mãe”.  Parecia ter sido feita sob medida para a maternidade dos gêmeos.  E por isso, pode-se dizer que adotara em seu lar, o desafio de uma  forte  criação com paixão e amor,  reiterando, orgulhosamente,  para todos:  amava o CAU, pois  gostava do jeitinho compenetrado daquele  menino e, vaticinando à solta,  via para ele – mais que no irmãozinho JUCE  –  um brilhante futuro!... 

E daí pra frente o mundo dera voltas e mais voltas.  E do desgaste na  relação entre as duas crianças,  surgiram as brigas e desavenças entre os  dois gêmeos. Dona Nara presenciava o rancor e o ódio latentes entre ambos, num  desentendimento crescente, aliado aos  conflitos intermináveis e  sempre à tona. Uma profecia do destino, quem sabe.  Fosse ela,  buscar explicações,  diria que se comportavam como Caim e Abel, destinados,  pela pura inveja, ao primeiro homicídio.-  “E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou” (Gn 4:8).

 

No entanto, fosse ela, dar ouvidos ao sonho que a perseguia desde há muito,  carregado de   superstições  e fatos sobrenaturais, impregnados, todos,  ao mês de agosto, dona Nara  receberia a visita de lobisomens,  bruxas maldosas e do diabo enganador de arcanjos, prontinho, prontinho   para levar consigo as almas puras e ingênuas. E assim sucedia:  o diabo travestido de cor negra das trevas,  surgia-lhe,  ora em forma de bichos como uma pantera,  ora em forma de um gato preto  de garras afiadas e  longas,  e reluzente como a lua cheia,  intimidando-a como um espírito do mal e da discórdia; e sem lhe dar chance,  pressionava-a para que  fizesse  a livre escolha de um dos gêmeos, ou CAU ou JUCE.  Sua recusa decretaria a morte de ambos. Ao Diabo caberia, então,  uma das almas para habitar o reino das trevas e do inferno. Titubeante e indecisa, dona Nara via-se diante de um caminho tomado  por horrendas feiticeiras, anjos rebeldes  e vultos tortos e ofegantes, os próprios  Cramunhões,  monstros com rabo, orelhas grandes e afuniladas, patas de unhas espessas, chifres de bode e asas rústicas de morcego, todos eles discordantes do  reino da paz e da ordem; todos eles  defensores do Diabo negociador. Ali, então,  os aflitos do apocalipse  aguardavam a sua decisão. Ou CAU ou JUCE.  Dona Nara,  sob emoção e lágrimas, sem saída, empunharia ao Diabo um dos gêmeos, não sem antes ajoelhar-se compenetrada e comovida em seu desespero de Mãe. Depois disso, o choro copioso dos gêmeos expulsava aquele  pesadelo sufocante,  trazendo-a de volta ao mundo real.

 

 O major CAU, hoje,  estava no   Comando Geral da Segurança; e  Júlio César, o JUCE,  o general Juce, o irmão gêmeo da infância, agora,  longe um do outro,   era o  homem forte do tráfico, o  chefe da maior organização criminosa implantada no interior dos presídios.

 

E tiveram por onde serem rivais  – ponderava  dona Nara -  culpando-se, a todo o tempo, por trazê-los à luz, juntos,  naquele mês de mau agouro, naquele mês movido por forças demoníacas.  Diante disso, desse calafrio de medo que lhe invadia o corpo,  dona Nara chamava por  constantes confissões, e benzia-se, profundamente,  clamando por  salvação junto ao Senhor, rogando ao Misericordioso, todas  as  suas preces: “ -  São Bento na água benta, Jesus Cristo no seu altar, afastai todos os males peçonhentos e dai-nos a  proteção para a vida (...)”.  Dona Nara sempre camuflara esse temor do sonho tenebroso, que a arrastava sempre para o oitavo mês do ano, evitando, assim,  dizer qualquer coisa  ao marido Benhur,  que sempre se mostrava  avesso  e descrente de  quaisquer referências às lendas e superstições. “- invencionices de quem não tem o que fazer!”– dizia ironizando dona Nara.

 

Ainda ensaiando os  primeiros passos no Presídio Disciplinar – a menina dos olhos da Segurança Pública -  Cesar Augusto, o CAU,  o major CAU, de gestos fortes e irascível em decisões,  logo ganharia, internamente, o apelido que lhe faria jus por muito tempo:  – Dá-Sem-Dó!...  Por sua vez, ainda desconhecido no mundo do crime,  Júlio César, o JUCE, detido por tráfico,  apresentara-se à frente dos detentos com uma postura de  liderança ímpar  e criativa, capaz de articular  uma fuga memorável; ainda que  tivesse acabado  de forma  trágica, o  episódio somou pontos no mundo das facções,  marcando para sempre a origem do destemido JUCE, o general JUCE, como o apelidaram, pois com a inteligência e a audácia dos aguerridos, teria  dado   liberdade a mais de uma centena de internos, não fora  o desabamento  imponderável do túnel, que soterrara  a maior parte dos fugitivos.  Juce escapara do  incidente, no entanto, líder nato,  e temendo uma longa  prisão, enfrentaria  pela primeira vez, o antigo amigo de infância, o irmão gêmeo, o major CAU,  por força de uma  ação de sequestro que liderara  no interior do presídio.

 Antes que se pudesse contar até três na velocidade do som,  o Major César Augusto, o major CAU e sua tropa, fizeram tombar a porta da sala onde Juce mantinha a refém,   entretanto,  recuaram temerosos diante do que viram. O general JUCE desenhara um cenário  que exigia atenção e cuidados;  mantinha a Assistente Social junto  à mesa, deixando visível uma  faca ao  alcance da mão.   O Major CAU pode ler nos olhos do irmão rival,  general Juce,  as  artimanhas de um golpe anunciado, por isso, manteve-se em silêncio, sinalizando  à  tropa,  o posicionamento em círculo. Estava claro que o general Juce   levaria  essa   infâmia ao fim do mundo, pois mantinha  a refém, a uma distância precisa, inibindo qualquer iniciativa precipitada.  Enquanto o   silêncio se prolongava,  o major César Augusto, o major CAU,  tentava decifrar aquele cenário estratégico:  o episódio levado  às últimas consequências seria capaz de transformar o general Juce,  de  bandido a herói, pois  os tiros sobrariam em maior  parte para a própria  Assistente Social.  Sobre a mesa,  a faca  reluzia diante  de todos,  parecendo dizer que estava à espera, que aguardava  ordens  para cumprir o seu destino de mau agouro,  ou seja, furar bem fundo a  jugular da  Assistente. Refém do silêncio, aos poucos,  o Major CAU  deixaria   ver em sua face os contornos de um sorriso enigmático, transformando-se, paulatinamente, no antigo e  irascível  Dá-Sem-Dó.  Era evidente que precisava agir, tal qual aprendera no comando da Polícia.  A tropa, sintonizada,   interpretava aquele  código  em ordens  de Atenção, Preparar, Fogo!....

 Nesse instante, porém,   o que se ouviu a partir dali,  foi um  grito maior e urgente. Um grito sobre-humano de uma mulher que, instintivamente,  decifrava os enigmas e doava-se de corpo e alma aos seus rebentos.  De braços abertos, como um sinal da cruz a intimidar os fariseus, a  Assistente  disse por palavras proféticas:   “Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés.  Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam.  Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los (...).  

Com essa parábola,  a  Assistente  compreendeu que nenhum dos dois  cederia à intenção e ao gesto.  Cristãos todos,  o general Juce e  Dá-Sem-Dó, o major CAU,  recuaram, ambos,  intimidados. A  tropa baixou as armas. Juce afastou-se da faca.  E com a delicadeza de uma Mãe, coube à  refém indicar um caminho  seguro para todos.  O major CAU   e o general JUCE  acenaram – antagônicos, porém, consanguíneos e desafetos -  com uma certa reverência fraterna  diante daquela Nossa Senhora da Salvação.

Tempos depois, ambos, JUCE e CAU perderiam o pai para um doença incurável. Depois disso, a fuga do general Juce não demoraria muito.  E tão logo se pôs fora do presídio,   um  telefonema  matinal  não desmentia que o seu  rancor e o ódio latentes, saltavam-lhe  aos olhos. O recado chegaria ao major CAU:  “- ...Você me conhece, CAU,   ou facilita a saída dos presos  no  Dia das Mães, ou atrapalho e arrebento com sua carreira, sua e a do seu moleque na base móvel Joana D’Arc!.. o que acha? ... O número do seu telefone?... tenho lá minhas artimanhas, não é mesmo!...  E  antes, até, que o major CAU fizesse as manobras no portão de acesso para o estacionamento,  o general Juce, sem  lhe dar tréguas para qualquer réplica, acentuaria o tom de ironia:    - Ah! CAU... Dona Nara mandou lembranças,  nunca esquece do nosso aniversário, você sabe! ...e  de mais a mais,  você sempre foi o xodó da Velha, não é!?...   

 O major CAU,  por mais que rejeitasse o  irmão,  não poderia deixar de  enxergá-lo   nas cores puras da   infância:  lá, bem  longe do tempo, o  corajoso Juce,  de semblante  inteligente, ágil e esperto... o estrategista Juce enganando  a todos nas brincadeiras de “Salva-Cadeia”...Já não havia mais a quem pegar, todos os meninos estavam presos na corrente indiana,  faltando apenas o general romano Júlio César... e nada do Juce aparecer pra libertar os amigos. Houve até quem o chamasse de general traidor!... Ali  na rua, junto à praça,  apenas alguns boias-frias solitários chegando do trabalho,  com seus apetrechos e enxadas às costas... Pois, exatamente quando passavam pela “cadeia” surgiria o aguerrido Juce, o general Juce,  disfarçado num desses trabalhadores e, tranquilamente, daria o salvo-conduto a todos os meninos  daquela prisão inventada pelo imaginário infantil!...  O major CAU sempre sorria  muito dessa cena desenhada em sua  memória... Doutra feita, sabe-se lá como, o mesmo  Juce  alçara o alto  vitral da Igreja, já iluminado,  e, ali, diante dos olhos desatentos de todos,  postara-se como a imagem de um São Sebastião – como se ele, também   flechado, de cabeça inclinada, fosse, àquela altura,  um desenho impregnado às nuances multicores do próprio vitral.  Em instantes,  Juce desceria do alto do batente e, novamente, com seu gesto de deboche e um sorriso escrachado, “salvaria” os amigos daquela  infame prisão infantil; - liberdade para todos!... – dizia, provocando,  reiteradamente,  o irmão.

Ainda pela manhã, na reunião de cúpula, o Major CAU  tentara esfriar os ânimos dos seus pares de linha mais dura,  sobre a sua  proposta de liberação  de presos no Dia das Mães; e também a extinção da base móvel Joana d’Arc, na sua opinião, um alvo a céu acerto para as facções do crime.  Era evidente que, mesmo  amaldiçoando Juce,  o Major tentasse ganhar tempo para elaborar algumas estratégias diante das ameaças que sofria do irmão. Uma frase dita por Juce, ao final do bate-boca entre eles,  ainda  martelava em  sua cabeça

 “ - Bandido e Polícia também tem Mãe, não é Major?!”.

 Os gráficos apontavam para um número excessivo de presidiários  com acesso ao benefício do Dia das Mães; o que traria pânico e insegurança  à população, além de um descrédito à própria esfera da Polícia. Depois de entreveros, o Comando decidiu por nenhuma liberação.  Voto vencido,  o  Major CAU  deglutia o resultado; o seu desconforto saltava aos olhos mais atentos de alguns membros da Corporação, como o capitão Jardim, que lhe indagara: “ - Está tudo bem, Major?!...”  

 Ao deixar a sala, o major CAU entendera que lhe   restava, agora,  somente correr contra o tempo para  proteger o  filho Marcelo na base-móvel Joana D’arc,  com  a  autoridade de Comandante e de Pai.  Por essa razão dirigiu, pessoalmente, ao  Controle Geral,  solicitando apoio e reforço para a base e, ato contínuo, assinara autorização para o seu desativamento. Arriscava-se,  é verdade. Corria riscos de o interpelarem,  porém,   era visível que  temia  a ameaça  do general Juce, com o seu recado de papo-reto. Mais claro, impossível. Mas, o tempo fora curto. Curtíssimo até.   Antes mesmo que o major CAU dissesse “Espera, meu irmão, espera, Juce”,  na velocidade digital  do celular,   a voz do  aguerrido general romano crescia poderosa, atingindo contornos que desfaziam qualquer acordo,  deixando, inclusive, suspeitas sobre eventual   vazamento da  Operação Dia das Mães.   A voz  seca do general  Juce soara como   um   rojão, sinalizando   um único caminho de entendimento. Emudecido,  o major CAU sentia  no próprio corpo,  a pressão de um  incômodo  e dolorido soco  que o levava a  nocaute, estatelado  no chão de um ringue: 

 “  - Não brinco, CAU!... Não brinco!.”.- finalizou Juce de forma enfática.

 “-Juce, espera!”... A voz do major CAU ganhou  relevo, mas, provavelmente, não foi 

ouvida. Atropelando  os seus próprios movimentos, o majo  avançaria  corredor adentro  no suntuoso prédio da Secretaria, enquanto  tentava, já, pela quinta vez,  acionar  o celular do filho, a essa hora,  sem qualquer resposta.   O major CAU,  atordoado, e  quase em transe, seguiria, então,  direto para a   sala  do  Comando, onde pode  confirmar, o que  o general romano Juce,  já havia lhe  soprado no telefonema: 

 “ - A Base Joana D’Arc foi atacada, Major CAU .. e há vítimas!..- disse o oficial.

 Quem olhasse para o major CAU de volta à  sala,  e o visse  abrir  a gaveta e desta retirar a sua arma e o silenciador,   conferindo  o  carregamento, por certo não conseguiria descrever a  sua  fisionomia. O que se via ali,  era  o rosto de um homem velho, abatido,  com  marcas que mais pareciam frinchas numa parede nua;  entretanto, eram visíveis no Major, os  traços fortes,  acentuando o que se pode chamar de raiva, ódio e um  clamor, impiedoso,  de vingança; e ainda que atordoado com a referência,  quem por ventura passasse ali bem próximo, ouviria um   nome   reiterado de forma insistente  pelo  o Major CAU:  - dona Nara!... dona Nara!...

O carro do major  já fazia as manobras pelas ruas estreitas do bairro, onde observara  que,  praticamente, o local ainda  se mantinha com a mesma geografia dos tempos idos. O major CAU   ladeava o veículo e, por vezes, parava-o para conferir  o nome de uma  rua,  ou ainda,  para ver de perto o pé-de-amora na casa de  dona Rosa,  fruta que fora objeto de desejo da sua infância... Noutra ocasião teria aspirado melhor aquele cheiro agradável, aquele aroma puro que o tempo apagara. No entanto, hoje, ali,  o major CAU direcionava o seu foco para a antiga casa azul de portão amarelo, quando, ao acionar a campainha, fora atendido, calmamente,  por Dona Nara,  agora, já bem  idosa:   – A doce mãe do general romano  Júlio César  - o JUCE!... -  a inconfundível  mãe de César Augusto, o CAU, o major CAU.  A sua frente, a  dois passos de distância, quando  muito, irradiando uma esfuziante recepção,  capaz de inundar a própria rua, dona Nara derramava-se de alegria e  emoção: - CAU, meu filho... mas quem diria... o meu menino!...– Quanto tempo!... Que bom te ver  por aqui!...Parabéns pra você e pro JUCE!... onde anda aquele diabo de menino?!......

Por instantes, o major CAU,  sentiria  dentro de si,  a voz   melodiosa da Mãe  como uma punhalada  que o perfurava até a  alma.   Entretanto, compenetrado, como sempre fora,  militarmente circunspecto,  diria para si mesmo, que  não haveria volta. Dona Nara que o perdoasse, mas não poderia transigir no seu intento frente ao irmão.   Esperaria Juce, o tempo que fosse. Seu recuo, agora,  seria  tão improvável  quanto a ordem   de  Juce contra  a base móvel do seu filho  Marcelo.  Enquanto a mão do Major CAU tocava, sutilmente,  o cabo da arma, a sua  respiração crescia ofegante, mas não o impedia de assentir para si mesmo, o que sua Mãe  carregaria com ela, para sempre: O vale-tudo entre os irmãos  rivais e  o peso insuportável de uma vida carregada de rancor e ódio entre o  policial e o bandido;  entretanto, antes que o major CAU seguisse o seu raciocínio, ouviu-se, no alpendre, os ruídos de passos e a   voz enfática do general Juce:   “ Mãe!...Mãe... está por aí?” .

 Aquela presença, colocaria ali, mais uma vez,  frente a frente,  o general romano Júlio César, o Juce, e  o irmão consanguíneo, CAU, o major CAU.  E  entre eles, agora,  dona Nara, a genitora,   a mãe de ambos que, eufórica como nunca,  quebraria o incômodo silêncio.  A visita  dos filhos queridos, depois de tanto tempo,  no exato  dia do aniversário de ambos  empolgava-a ao extremo;  entretanto, ali,  à curta distância,  os olhos do general Juce fulminavam  o desafeto CAU, o major CAU, seu irmão:   

 - Por que o Marcelo, Juce? ... Você tirou a vida do  meu único filho!?.... 

 Com os olhares cruzados, faiscantes e estratégicos, CAU e JUCE definiam  a certeza de um gesto final que, no entanto, fora   interrompido pela mãe,  dona Nara: - O que houve, vocês brigaram?  - dissera ela, um tanto desorientada, porém  capaz de perceber que nenhum dos filhos  arriscaria a romper aquele  insuportável silêncio... E então, ali, em fração de segundos, antes que as armas cumprissem o seu ritual, o  que se ouviu,   enquanto CAU e JUCE  decifravam estratégias que levaria à eliminação de um ou de outro... enquanto JUCE e CAU,  reféns da tragédia anunciada,   deixavam ver em suas faces os contornos  de um  final  inadiável,...  enquanto  ambos interpretavam os códigos da vida como  ordens  de atenção, preparar, avançar ....   nesse instante, nesse fatídico instante,   o que se ouviu foi um   grito desesperado de uma  Mãe.   Um grito de mulher que, instintivamente,  doava-se  de corpo e alma  às suas crias,  a despeito do sonho e das profecias de mau agouro.  De braços abertos, como um  sinal da cruz a intimidar os  fariseus  naquele templo, naquela  sala , dona Nara   fez valer a  experiência  de quem percebe como inevitáveis,   a intenção e o gesto.  Cristãos todos,  o general Juce e o major CAU recuaram  intimidados. Ambos com  o desconforto intimo, abaixaram os olhos e as armas diante daquela Salve Rainha, Mãe da misericórdia.  Sem dizer qualquer palavra, mas, delicada como uma Santa, dona Nara apontou-lhes um caminho seguro. 

 O major CAU com a respiração entrecortada e ofegante, deixava visível  a dor latente em sua alma carregada de ressentimentos: o pior deles, o pior de todos, ou seja, a decisão de  matar o irmão, o general JUCE,   para  vingar o filho Marcelo!... Cabisbaixo, O general Juce reteve o seu  ímpeto,  permanecendo ao lado de dona Nara.  Então,  em silêncio sofrido, o general  CAU beijou a mãe,  e afastou-se lentamente, buscando a saída como uma fuga em desespero. E  ali, rapidamente, CAU e JUCE trocaram olhares com um aceno entre ambos, como um pacto possível,  uma trégua, um sinal de  reverência   diante da  redentora, daquela Mãe, daquela Nossa Senhora da Salvação, ali,  desabada em lágrimas à frente de ambos.  Em seu percurso de volta, o major CAU  conferia pelo noticiário as  ações do crime organizado  naquele fatídico dia de agosto.  Entre os alvos da facção sob o comando do general Juce, o repórter acentuara  “ a morte do policial Marcelo, filho do major CAU,  na  base móvel  Joana D’Arc!”...   Antes que chegasse ao Instituto Médico Legal – o IML,  onde faria o reconhecimento do corpo, o botão do rádio  sentiu a pressão dos dedos do Major,  pois, ali, agora, ele necessitava  do silêncio como se fosse o próprio  ar que respirava.  E sob aquele vazio volumoso, ainda que  extremamente incômodo, o major CAU  culpando a  si mesmo pela obediência cega  às  normas e às ordens da sua corporação,  lembrara-se de  Jeff – o Chefe do Laboratório Químico nos USA,  responsável pela preparação e envio do Napalm  e do Agente Laranja às frentes americanas no Vietnã. Também ele – recordava o major– também ele, Jeff, cumprira com rigor a  sua missão de apoio incondicional  às políticas  de  guerra, entretanto, vivenciara o grito antibélico na própria pele, na própria alma, diante das  enfermidades, mortes e do terror causados por sua presteza e competência!...  As luzes do estacionamento  já  deixavam  marcas sobre a  noite, quando o major CAU -  tal qual fizera o Engenheiro Químico Jeff O. Stanford - com gestos calmos e demorados,  que em nada lembrariam a tensão daquele dia  de agosto,  retirou, novamente,  a  sua arma e o silenciador   do porta-luvas.  Instantes depois,  quem  olhasse para o  veículo de luzes apagadas -   sob um som abafado, quase em surdina - notaria o clarão, o risco de luz, aquele  brilho ágil e metálico de um tiro ricocheteando no  interior do carro, e que por certo, atingiria, ainda nesta mesma noite,  na dimensão de um sonho de horror,  o âmago e alma de dona Nara,  empunhando César Augusto, o CAU, o major CAU, como um anjo ingênuo,  para as mãos tenebrosas do Diabo negociador, que, cumprindo a profecia do apocalipse,  carregaria sua alma  para habitar o reino das trevas e do inferno. Nessa mesma  noite, Dona Nara, sob forte emoção e lágrimas nos olhos,  ajoelhou-se sofredora e  compenetrada em seu desespero particular de Mãe, entretanto, o choro dos gêmeos não mais expulsaria  aquele  seu  pesadelo sufocante sobre o mau agouro impregnado ao oitavo mês do ano.   






 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

O PULO DO RATO Crônica de Celso Lopes

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DO FATO À FICÇÃO: a humanização das notícias de jornal.

Concurso Literário e de Imagens coordenado pelo

IFTM (INSTITUTO FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO)

- Campus Uberlândia/Centro - 2020

Celso Lopes  -  Crônica

  

“O PULO DO RATO”



Não, você não leu errado. 

Ainda que quem esteja à frente desse estrelato de habilidades seja o Gato,  com as suas 7 vidas ou por vezes até 9, de acordo com cultura local de países,  neste caso, o felino terá de ceder a vez  e a expertise para o Rato. É certo que  continuamos tratando aqui de Vida, onde os gatos seriam praticamente imbatíveis, seja pela proeza inimitável do seu pulo, seja pela imunidade à doenças ou mesmo pela narrativa  convincente das “sete vidas”; entretanto,  pasmem, resta a eles abrir espaço, pois o que está em jogo não é somente a Vida,  porém, a Vida eterna.    Isso mesmo.  A Vida eterna, garante o engenheiro formado pelo MIT e  futurólogo venezuelano,  José Luiz Cordeiro, está com os dias contados, quer dizer, em contagem regressiva  de uma  data  ou progressiva para alcançá-la  – à escolha de todos nós mortais. Ou seria melhor dizermos – imortais?. Apresentando dados que, por vezes, queremos crer que sejam mesmo verdadeiros, confiáveis, uma vez que respalda suas teorias sobre a Vida eterna, em expoentes como o matemático David Wood (autor de A morte da morte), incluindo o biólogo e cientista David Sinclair, da Universidade de Harvard, Cordeiro ‘prega e bota fé’ no que chama de interrupção da velhice, afirmando:  “já temos novas tecnologias de reprogramação celular e estamos entre a última geração humana mortal e a primeira imortal”.  Quando  perguntado sobre os caminhos dessa viagem sem volta, saltam à tona, entre outros micro-organismos, as bactérias. “ Sabemos que há células e organismos que não envelhecem, como, por exemplo, as bactérias. Elas são as primeiras formas de vida no planeta”.  

“- Outro tipo de célula que se descobriu que não envelhece é a do câncer” – acrescenta enfático:  “(...) Esse é o problema do câncer, ele não envelhece e por isso é preciso matar todas as células cancerosas porque, se deixar uma sobrevivente, elas voltam a se reproduzir”.  No rol desse esquadrão de “eliminadores do Gato”,  entram nomes de peso, como por exemplo, a Microsoft:  “ Depois do sequenciamento do genoma humano, conseguimos entender, por exemplo, que o câncer é uma mutação para se manter jovem”.   Cordeiro garante que a cura virá por aí:  “Não foi uma companhia médica ou farmacêutica que falou isso (cura do câncer), mas a Microsoft, porque o câncer é um problema computacional, não um problema médico. Podemos encontrar as mutações que geraram o câncer e compará-las com as células não cancerosas”.

Outro “golpe mortal” sobre os felinos estaria a um passo de acontecer,   e chega pela Universidade de Tóquio, através de um Samurai-cientista, o  japonês Shinya Yamanaka, prêmio Nobel  em 2012. “ Ele descobriu (2006) que células podem ser reprogramadas e que é possível modificar genes de uma célula velha e torná-la novamente jovem (...)”,  acentua  Cordeiro.   Para fortalecer, ainda mais, as previsões,  Cordeiro agrega as projeções do futurista Raymond Kurzweil: “  Ele fala que no ano de 2045, o envelhecimento e a morte se tornarão opcionais, quando a inteligência artificial ultrapassará a inteligência humana”. Assim,  outra data, 2029,  agora bem mais próxima,  entra em cena:  “... alcançaremos a velocidade de escape da longevidade (....) para cada ano que vivermos, ganharemos um ano a mais (...) Mas não é o suficiente. Kurzweil estima que a partir de 2029 passaremos a viver indefinidamente, mas ainda envelhecendo. E em 2045 teremos as tecnologias de rejuvenescimento biológico com a reprogramação celular”.

Bem, “o tiro de misericórdia” ao reinado e à  sobrevida dos felinos tem hora marcada, garante Cordeiro: “O sequenciamento do genoma envolve três bilhões de bases nitrogenadas (...)   A mente humana não consegue ver a diferença (...)  Nosso cérebro é limitado e a inteligência artificial não tem esse problema. Por isso, ela será decisiva para a cura de muitas doenças e tratamentos (...)”.  E é neste ponto que  os ratos saem do buraco e nos olham, assim,   cara a  cara. Afinal, geneticamente, são 90% iguais aos humanos, e sobressaem-se, até aqui,  como importantes e excelentes “cobaias”, embora vivam em média  dois anos e meio.  Entretanto, afirma Cordeiro, entregando-nos, de bandeja,  “O  pulo do Rato”:   “ Agora temos espécimes que vivem cinco anos. Conseguimos duplicar a expectativa de vida dos ratos. E já temos conhecimento suficiente para usar isso experimentalmente com os humanos”. Uffa... pelo visto,  não temos nada a temer. Quem precisará daquelas 7 vidas dos felinos, se são os ratos, agora, que  já nos acenam com a Vida eterna?...



Texto:  Celso Lopes                                        


Fonte:  -   https://istoe.com.br/a-morte-vai-se-tornar-opcional/   

 



quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

O preZente de Natal - conto de Celso Lopes

 


“O preZente de Natal”

Muita gente não acredita que exista o “reino das palavras”, e bem mais perto do que se imagina. Basta olharmos para uma estante e se  ali estiver  ali um dicionário... pronto!... É nesse lugar mesmo que elas moram.  Lá  dentro, que parece tudo muito quietinho, quietinho,  é onde acontecem as estripulias do abecedário.  Por isso mesmo, pode se dizer que  as letras, todas elas, são  como crianças quando ficam sozinhas num quarto ou numa sala... muitas vezes viram um Deus nos acuda!.... 

Alegres. Serelepes. Bagunceiras. Irritadas...  As letras também são assim. São como crianças. Às vezes, até se parecem com  a gente.  Veja a letra    “A”, por exemplo,  quem não conhece um menino ou uma menina,  um amiguinho, um primo, ou até mesmo um tio mais velho, alto e  comprido, de pernas longas feito o “A” maiúsculo?  Ou então, alguém com um rosto redondinho com uma  franjinha, feito a letra “a”minúscula?  A  letra  “B”  se parece com uma criança rechonchudinha, seja  pequena na forma minúscula, seja grande na forma maiúscula. E  assim vai seguindo. Cada letra  com o seu jeito. Igualzinho uma criança. E que melhor momento para ver a alegria das crianças senão na época do Natal?   Cada criança,  à sua maneira, não vê a hora de escrever uma cartinha para o Papai Noel... e no dia exato correr para  encontrar presentinho trazido pelo  “bom Velhinho”.

No reino das letras é a mesma coisa.  Papai Noel chega na casa de uma letra,   entra pela chaminé ou pela janela entreaberta, olha para  a arvorezinha enfeitada, pega a  lista dos presentes, avalia como foi a “criança”, quer dizer, a letra, durante o ano, e pronto. Coloca ali o tanto certo de brinquedos  para cada criança, digo, para cada letra  que  habita o “reino das palavras”. E assim elas vivem  felizes para sempre?  

Nada disso. Sempre pode existir uma pedra, quer dizer, uma palavra torta no meio do caminho, e neste caso, atente  pelo nome de Zê!...  A letra  Zê, a última letra do alfabeto,  sempre foi uma espécie de criança zangada. Tão zangada como o personagem Zangado  na história da Branca de Neve e os Sete Anões. Mais que  enfezado,  o  Zê não se conformava  em   ser o último de todos  na ganhar o seu presente de Natal.  O Papai-Noel não tinha culpa, pois  a recomendação era seguir a ordem alfabética:  a, b, c, d, e , f, g, h, i, j....     E era isso que  mais  irritava esse menino zangadinho chamado  Zê.

Por isso, ele vivia choramingando  pelos cantos, chutando latas de tão nervoso, e tentando conseguir apoio dos seus vizinhos. O que ele queria mesmo era inverter a ordem  da entrega dos presentes. Dessa forma, claro, seria o primeirão a ganhar o presentinho.  Bem que o Zê   tentou  trazer para o seu lado  a letra S, a letra T, a letra U,  o  W....  Como não conseguiu, ficava  trucidando  a letra  “A” com suas pernas longas ou  com sua  franjinha no corpo. O “A”, confortável que estava na sua posição,   nem ligava para o  Zê.  Sabia que da lavra dessa consoante é que  saiam “as mais belas palavras do Natal” . Por isso, dizia e recitava pra quem quisesse ouvir:   Amor... Alegria... Altivez.... Apreço.... Apoio.... Alma...    Claro que a letra  “Bê” não  deixava por menos:   “ E no Natal não tem  Beleza,  Bolas,   Beatitude, Brincadeiras, Bondade...  não tem?” – dizia o Bê, tentando ser melhor que o A.   Quem não perdia tempo também era a letra CÊ, que sempre se gabava  com o  seu jeito de meia-lua, das   possibilidades de  ser soletrado de várias formas, e  insistia:     “ Quando é preciso sou  Casa...  mas também sou Ceia,  e  sou até Criação,  e também sou Carinho  e Coração.... “

Quando ouvia  isso,  o “ZÊ”  esperneava.  Tentava buscar algumas palavras que pudessem competir com esses “espertinhos” – como dizia - , mas nada, nada vinha em sua ajuda. Da sua boca saiam apenas  frases   provocativas  e ofensivas : -  “Zagais”... “Zabumbada” ...  – Dizia o Zê  em tom alto, enquanto  manquitolava  tortuoso   no “reino das palavras”.  O dicionário não tinha culpa nenhuma.  Afinal, permanecia  ali na estante, fechado, como um livro qualquer que descansasse dos muitos manuseios e leituras. Mas foi assim mesmo, a páginas fechadas,  que se deu aquela balbúrdia, isto é, quase uma revolução nada silenciosa no mundo das letras. As vogais,  esparramadas que estavam ao longo das páginas, juntaram-se rapidamente, gritando palavras de ordem contra o zangadinho Zê :

- Urra, urra, urra... sozinha a  letra Zê   é burra!...

 Perfiladas e unidas no seu tradicional a-e-i-o-u, as vogais exigiam que tudo ficasse como estava.  Os presentes deveriam ser entregues pela ordem do abecedário tradicional: abcdefghijklmnopqrstuvx....e finalmente, o Zê!...

- Zaratrustras!!!...  respondia o “Zê”, no seu estilo ofensivo contra as vogais.

Letra tortuosa e explosiva, o “Zê” sempre caminhava  dizendo adjetivos próprios (e até impróprios), além de alguns substantivos de difícil compreensão. Era chegar o Zê por ali, e lá vinham aqueles  nomes estranhos: 

- Zarolhos!...,  “Zagais!... Zabumbada!...  “Zambê!... 

O “Zê” dizia tudo isso e depois  ficava “zaranzando” pelas páginas, até seguir para longe, bem longe e  zeloso como um “Zepelim” voando...

Não se sabe como, mas essa balbúrdia no “reino das palavras” chegou ao ouvido do Papai Noel. O que fazer para tudo ficar em ordem como sempre fora? O bom Velhinho consultou todos os sábios do Universo e mandou o recado. A longa noite em que se comemora o Natal , quando todas as crianças dormem o seu sono  encantado, uma carruagem voadora, trazida pelas mais belas Renas do universo, corta os continentes para levar uma alegria sem igual  aos pequeninos do mundo. É bem verdade que não havia presentes para todos. Muitos e muitos ficam sem nada. Algumas crianças nunca, sequer, ganharam um presente de Natal. Mas poucas crianças ficavam sem o carinho nessa data que homenageia o nascimento do  Menino Jesus.  Sempre há uma alma boa e solidária para os  mais necessitados. Sendo assim, não importa por onde se começa, o que é necessário  é que todos ganhem um afeto.  Um carinho simples que seja, pode se transformar num belo presente de Natal. 

Papai Noel cumpria a sua parte. Ao amanhecer o dia, todos os presentes estavam entregues, portanto, sua  tarefa estava cumprida.  Dizendo isso, mandou logo um recado para o  “menino Zê:  Que ficasse  tranquilo, afinal,  o  presente dele também já estava na caixa para ser entregue, portanto  – disse Papai Noel -  não precisa ficar me mandando recado com indiretas  na grafia das letras,  para me lembrar do seu presente.  Papai Noel disse isso porque o Zê, espertamente,  trocava o S pelo Z,  achando que iria enganar o bom velhinho.  Olha só como o espertinho escrevia as suas cartinhas:

“ Papai Noel, minha caZa  é logo ali!...   Papai Noel,   traga meu preZente primeiro!...  Papai Noel, não querendo abuZar do Senhor... ” 

Papai Noel sabia que criança era criança, quer dizer,  letra era letra. Sendo assim,  cumpriu mais uma etapa na vida de quem não faz outra coisa a não ser  entregar as lembranças  para o mundo inteiro.  O sinos de Natal soaram com a beleza de sempre.  As crianças correram em busca dos presentes. Quanto ao  ZÊ -  inquieto como sempre -  continua dizendo que ainda vai  criar um  novo alfabeto, cujo nome será  – Alfabeto Zumbix -  uma sugestão  proposta pelo amigo  “Xis”, um indivíduo xereta e  xarope, dono de um xeque-mate exclusivo para   convencer a todos  Como segunda letra desse novo alfabeto, o esperto “Xis” tentava  algumas adesões importantes, por isso vivia dizendo: 

  -  K, W e Y merecem nosso Xodó!... Viva o Alfabeto ZUMBIX!... 

Mas a letra Xis, com  o  seu jeito  de jogar  xaveco no vazio,  percebeu logo  a  xaropada   que inventaram.  A essa altura, o  zombeteiro  ZÊ,  sem rumo,  ziguezagueando  entre os vocábulos,  zurrava  e zumbia a não mais poder.  Por fim, ambos, o  ZÊ e XIS, feito andarilhos  zumbis,  riram soltos da zoada e zombaria,  certos de que tudo não passava de  pura provocação ao tradicional abecedário.   A letra A  evitava, a seu modo, um confronto direto com os integrantes do ZUMBIX,  preferindo – sempre que possível – analisar com seus provérbios:

-  “Abnóxios, o que são!”... “Abominável” ZUMBIX!... “Abobrinhas”, o que falam!...

Ainda não sabemos como isso tudo  vai  terminar. O ZÊ continua tortuoso e inconformado, e sempre está  manquitolando com novas ideias pelo caminho. E o Xis, claro, segue o mestre,  está sempre do lado dele. Por enquanto, o Papai Noel está tranquilo quanto aos pedidos de todas as crianças do mundo, mas sabe que no meio do caminho sempre pode ter  uma pedra, quer dizer,  uma letra que atende pelo nome  de ZÊ, e que vive querendo mais e mais  “ PreZentes”,  e primeiro que todos as outra crianças.  “Vai que uma hora dessas ele consegue mudar  o alfabeto!...” – analisa o bom velhinho, com  toda a sua alegria de sempre: Ho...Ho...Ho!... Ho...Ho...Ho!...

 

Texto: Celso Lopes 



segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

QUEIJINHO - HONRA AO MÉRITO

 


Homenageado pela Câmara Municipal de Guará em 13/dez/2018, José Paulo Telles,  nosso reconhecido “Queijinho”,  recebeu a medalha de honra ao mérito. A comenda é  a mais alta condecoração oferecida pela Câmara Municipal da cidade,  como forma de distinguir  pessoas e entidades que contribuem com o avanço da sociedade.  É o caso do “Queijinho”,  um dos  esportistas guaraenses, e  com grandes experiências e vivências no mundo do futebol.

Pegando “carona” na homenagem mais que oportuna, compartilho com os integrantes da Câmara  e com todos os amigos guaraenses, o texto abaixo, uma pequena crônica, em que faço minha carinhosa homenagem à passagem, hoje, 21/12/20, do amigo de sempre - “Queijinho”. 


 “Assim é se lhe parece...”

 Queijinho jogou bola. Futebol dos bons. Tinha chute forte e corria como ninguém – um fôlego de queniano. Ponta esquerda,  no escanteio  esbanjava a maestria.  Após o chute certeiro, a bola subia por sobre a área, afastada do goleiro, procurando  uma testa livre, disponível e bem preparada pra vazar o gol adversário. E foi assim... a pelota ganhou força em direção à marca do pênalti... e o Queijinho lá parado, com seu estilo, no gesto do chute, alongado, o pé de apoio firme deixando ver claro a força dedicada ao lance.  Ele lá parado,  nós todos  acompanhávamos e  víamos o gesto. Adiantou vir o Juiz? Adiantou os colegas implorarem para que ele voltasse ao gramado?  Os adversários,  ávidos por  buscar a diferença do placar,  também fizeram esforços para que o atleta deixasse daquela firula... e nada!... Queijinho, ali, contemplado por todos como uma estátua... melhor ainda, um Monumento, coisa assim trabalhada  por alguém como um Michelangelo,  o escultor maior  com a própria escultura maior   para homenagear os  melhores, ou seja, aqueles  que se destacam  numa empreitada sem igual.  E Queijinho era o seu nome, o nome do nosso atleta... 

O que não se sabe é se isso aconteceu, realmente,  bem ali,  sob nossas barbas.... eu mesmo, careço dessa confirmação, mas  afirmo, lançando mão da frase sustentável de Pirandello: assim é se lhe parece!...  Queijinho, o atleta de fôlego, gente da  melhor safra  esportiva, com chute de canhão e pontaria no centro do alvo, não poderia ficar sem a homenagem. Ficaria, portanto,  ali no campo, para sempre, transformado por si mesmo naquela  escultura irrepreensível.  O jogo continuaria em poucos minutos,  afinal,  logo alguém se  lembraria   de empurrar a estátua do atleta, digo monumento,   para um dos cantos favoráveis do estádio. Assim,  lá ficou para sempre o Queijinho. Um justo reconhecimento.   No entanto, é preciso ter  olhos para enxergar o Monumento. Olhos da alma.  Dessa forma, olhando bem,  ainda está lá, onde sempre estivera,   como se aquele  monumento  tivesse nascido ali, ali mesmo,  no gramado do nosso campo de futebol da A.A. Guaraense,    ou tivesse existido  por  ali durante uma vida inteira,  sem que a gente se desse conta... O Monumento, bem à frente dos nossos olhos, causando uma admiração reverenciada,  infinita, duradoura, de vida inteira, a quem fosse dado esse privilégio de contemplação.    Passado todo esse tempo, hoje, hoje mesmo,  Queijinho está ali, sentado, tranquilo, por vezes, no bar do Ademir ou em outro boteco qualquer,  onde sempre  leva   as suas memórias para dar um longo passeio... pode se ver nelas, quando se materializam,  as suas dores,  os seus amores, os olhares, os sabores e as agruras todas da sua  longa  caminhada pela  vida...

Dia desses tive vontade de lhe perguntar:  

- Queijinho, me fale da vida, da sua vida, da  vida  vivida? 

Mas me silenciei.  Deixei apenas o pensamento fluir...

Melhor vê-lo assim, ali, como um pai que olha um filho suplicando-lhe o amparo nos momentos difíceis. Pois eu sei que esse rebento da nossa  cidade de Guará,   sempre me teve em conta. E amizade é o que nunca lhe faltava.  Nunca lhe faltou.   Mas, só poucos,  muito poucos – pode-se contar  nos dedos da mão ­-  somente a poucos cabe enxergá-lo  como a Pietà, esculpida por Michelangelo,  em que se transformou....  E a  quem for concedida essa graça, esse dom quase divino de enxergá-lo em toda  a sua  pureza, grandeza  e plenitude,  que  sempre foram as suas marcas registradas... esse, esse vivente  terá a virtude de encontrar o  que nos falta ainda, o que falta a todos nós para  desvendarmos por inteiro, a própria alma dos homens!...

Texto:  Celso Lopes 


OBS:  homenagem ao Queijinho que nos deixou em 21/12/20


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

DUELO SOBRE A MESA Conto de Celso Lopes

II CONCURSO LITERÁRIO – MARIANA CAZELLA MACIEL
Promoção:  Projeto NEPLLI – Núcleo de Ensino e Pesquisa em Língua e Literatura
Curso de Letras -  Instituto Federal do Paraná -  Campus Palmas 
Realização:   maio/junho 2020  
Classificação:  1º. Lugar  -  Conto:   DUELO SOBRE A MESA


DUELO  SOBRE A MESA 

 Um dos peritos, impressionado pelo fulgor do embate, chegou a citar, textualmente,  “o caótico rio de pedras”,  narrado pelo escritor  Umberto Eco*. E não sem razão; há de se acreditar, insistia o perito,  que no auge desse enfrentamento imperioso, o interior de ambos seguia em contínua ebulição, revelando uma torrente furiosa, tal qual uma “correnteza de grandes rochas informes, placas irregulares e cortantes como lâminas, e amplas como pedras tumulares (...). Aos olhos do perito, fora assim o duelo entre  Dona Branca e o Professor Pio. Quem os conheceu no dia a dia  informava que as desavenças entre ambos, não raro, surgiam  após um  silêncio profundo; nessas horas o ar ficava pesado e  fazia brotar,  às claras, um rancor íntimo desencavado. Acredita-se, informam os peritos, que esse conflito pode ter sido acentuado  pelo toque de se recolherem ao lar, uma vez que integravam o grupo de risco imposto pela Pandemia. Foram encontrados, ali, sentados, frente a frente, na mesa da sala; cada qual em seu canto  com a cabeça curvada e apoiada sobre o braço;  o olhar de cada  um deles parecia,  certeiramente,  dirigido ao outro. Lá estavam,  inertes, até a descoberta. Cansado de ligar para os pais, o filho informou ao Zelador do prédio, e este,  pressentindo algo estranho, levou o caso  à  polícia, que, instantes depois, solicitou a abertura do local e  posterior autópsia. O casal vivia há muitos anos naquele prédio do bairro. Ela, uma antiga professora de história; ele,  ex-chefe de laboratório de biologia da faculdade, onde se conheceram ainda bem jovens.  A perícia técnica apresentou anotações, laudos, infográficos  e fotos, destacando um considerável número de Palavras Cruzadas abertas; um Volume sisudo de cor marrom;  dois Dicionários que,   pelas digitais,  disseram os peritos,  o Caldas Aulete seria o  da Mulher, e o Aurélio, o do Homem.  A perícia indicou que as sandálias da Mulher deixaram rastros. Observou-se  que teria se deslocado até à cozinha, onde tomara café na térmica;  depois,  deteve-se  na estante da sala, de onde retirou o Volume marrom, que destacava na página interna: “Instrumentos de Guerra da Antiguidade”. Segundo a perícia,  tratava-se  de relatos sobre   estratégias dos antigos exércitos, como o  “Apito da morte”, descrito, ali, como “um objeto sonoro criado pelos Astecas, que simulava  estridentes gritos  de pessoas em sofrimento,  induzindo os adversários a um estado de transe desesperador.”  Apanhado o livro,  Dona Branca  se dirigira  à mesa do embate.  Então, ali, o duelo teve início para ambos.  Cada qual com os seus compêndios de Cruzadas. Segundo os peritos, era quase possível “ver” a agilidade da Mulher no desafio das verticais e horizontais, sem tréguas ao adversário;  indicaram ainda, que, em  determinado instante, os olhos da Mulher foram  ao encontro dos olhos  do Homem.  O abalo causado por esse olhar, disseram eles, fragilizara o  oponente.  Na praça de guerra,  o espalhamento das revistas acenava com que a estratégia do Homem seguia rápida com rigorosa atenção nas armas de combate.  Ao Homem, fortaleciam-lhe as  publicações relativas a  filmes, teatro, música,  biologia  e literatura química. Novamente, “pressentia-se”  a voz  da Mulher de forma  explosiva  no território da disputa. Podia se ler, com clareza, uma das perguntas: “Animal mitológico associado à virgindade, tem a  forma de um cavalo com um único chifre frontal?”.   Bingo.  “Unicórnio”. Assim assinalara a Mulher.  Ao Homem,  restava-lhe o sofrimento frente à  pergunta quase sussurrada: “- O  nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo?”. Segundo os peritos, os sinais mostravam, vivamente, que o professor Pio  estancara-se com a caneta no ar; pois sentia, naquele embate infernal, a Mulher apontando-lhe as  armas de Guerra. Aquelas tamanhas e poderosas, como a Catapulta, arma de ataque capaz de quebrar barreiras dos homens, especialmente, os encastelados  e protegidos em  cidades muradas.  Haveria de destruí-lo, caso ele persistisse. Lançaria sobre seu adversário as mais potentes armas,  que haveriam de liquidá-lo no interior do palácio.  Recuasse, portanto,  ou então,  receberia o golpe  mortal:  haveria de lhe atirar a maldição das  esposas incompreendidas!... Para os peritos,  a mente do Homem dirigira-o  para a área química. Ou ele a superaria agora ou haveria de viver  a maldição das esposas  abandonadas. O Homem sussurrava, exalando suor frio. Ele sentira o baque. Doeu-lhe a força desse punho gigante da Mulher à sua frente.  Por isso, olhava, agora, de dentro do seu próprio silêncio, para dona Branca,  enquanto  lançava  mão do seu  Aurélio:  - O nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo!...   No entanto, as tentativas se mostraram  infrutíferas e o  silêncio fora  quebrado, apenas,  pela  retórica ascendente  da Mulher.   “ - o  Santo Graal também é chamado de.....?”.  Neste ponto,  os peritos adicionaram ao laudo:  “ na sala avolumada de  silêncio, podia ser percebido os contornos grandiosos dos olhos  do Homem e da Mulher,   como fossem eles, Dona Branca e o Professor Pio,  os guerreiros autênticos  das   antigas Cruzadas, os  soldados de Cristo.”.  Então, enquanto a Mulher já se  debruçava  nos desafios da sua  Coquetel Super,  um certo  vazio  se instalava  no ambiente.  Agora,  as horizontais da Passatempo do Homem pediam ajuda aos deuses da sabedoria:  “ - Trepadeira comum em muros -  com quatro letras?  - A flor da idade, no sentido figurado -  com nove letras?”... Enquanto o Homem  entendia a  necessidade urgente dessas  respostas,  ela, a Mulher, garantem os peritos, ganhava distância  a olhos vistos. As palavras cruzadas exigem mais que  uma brincadeira - ironizava em seu silêncio -  como se mostrasse a ele, ao Homem,  que as Cruzadas não brincam.  Então, a Mulher preparou-lhe  um  olhar fulminante repleto de força bruta sonora:   “Lutar com palavras  é a luta mais vã.  Entanto,  lutamos  mal rompe a manhã(**)”. E tomada pelo poder dessas palavras ditas,   eis que, então, sob suas mãos, elas, as palavras,  ganharam formas definidas de ataques:  primeiro  as pontiagudas,  depois as  cortantes,   e por fim,  as explosivas... E assim, a Mulher  lançara, inapelavelmente,  sobre Homem, os seus escudos especiais. Ao Homem,  restava-lhe manter a distância adequada para não ser ferido de morte. Mas para sua festa surgiram os filmes, teatro, música,  artistas  e afins.  O Homem sorriu largo,  pois, se sentia no páreo; E assim seguiu ele, devorando com gulodice as suas anotações:  - Em que cidade nasceu Yusuf Islam  ( conhecido como Cat Stevans?)   - Qual série de TV tinha como protagonista o Ator Peter Falk?  ... Como  previsto, o Homem avançou  três  compêndios e cinco páginas, mas ainda era pouco. No entanto, com o rabo-dos-olhos ele percebeu que a incomodara.  A Mulher, ali, embatucara-se diante dos  símbolos químico....Ele ouviu, sim,  a ênfase retórica,  insistente, carregada  de  nervosismo:  - Enxofre?.... Lítio?...A mente não lhe faltaria nessa hora – sorriu triunfante.   A  toxicidade das substâncias químicas dançava  à sua frente,  como um gás mostarda, cloro,  ácido cianídrico...  mas ele, ali,  definira-se pelo Napalm -   O  gel pegajoso e incendiário  usado nas guerras trágicas do  Vietnã, Laos e Camboja... porém,  confessava a si mesmo que não viveria a dor do engenheiro Jeff O. Stanford – Chefe do Laboratório Químico dos USA,  responsável pelo envio do Napalm às frentes americanas que, diante do grito antibélico do mundo, e culpando a  si mesmo  pelo genocídio,  suicidara.  Assim, a Mulher, novamente, ganharia a dianteira: - Península que abriga a Grécia e a Croácia?  - Nome de Deuses da Mitologia Grega?... E então,  decidida  a trucidá-lo, sem perdão,  tomou para si as armas decisivas.  Com destreza e maestria, Dona Branca apossara-se dos Estrepes e Culverins; segundo os peritos,  “armas medievais atiradas  contra a  cavalaria inimiga”. Desviando desse campo minado,  o Homem titubeava em seu abecedário: - Substância encontrada em vegetais, de grande importância  para o funcionamento do intestino?. Os passos  seguintes formariam a barreira implacável. O Homem sofria a cada pergunta que preferia  não ouvir:   - O maior império do mundo (em duração)? - Rei pagão denominado pelos judeus como o Messias?... As muralhas e fortificações,  postas ao chão naquela guerra,  levaram-no à rendição. O ar, agora, lhe faltava – disseram os legistas. Portanto, febril, cansado e ofegante, ele se acomodara sobre a mesa, com a cabeça inclinada no braço curvado, e o olhar, certeiramente, dirigido às  pupilas da Mulher.  E então,  a Mulher, com sua respiração traumática naquela batalha sangrenta,  em que vencera  o homem encastelado, numa luta silenciosamente inumana, reconhecera no antagonista, conforme a perícia,  um guerreiro, alguém de valor  e  à altura, o que a  levara à rendição definitiva.  A ausência do ar, agora, sufocava a ambos – disseram os exames. Portanto, também ela, Dona Branca,  acomodara-se na mesa com a cabeça inclinada  e o olhar certeiramente dirigido às retinas do professor Pio!... Fortalecendo a narrativa técnica, o perito retomaria o “caótico rio de pedras”, criando, aleatoriamente, um  apoteótico final:  “nenhuma voz humana podia se fazer ouvir naquele instante fatal sobre o duelo na mesa;  embora ambos, ali,  tivessem o desejo de falar, de se despedirem de toda a carga de emoção que arrastavam consigo, não conseguiriam. O ‘rio de pedras’ interior que os conduzia, enfurecia-se cada vez mais, levando tudo ao redor  para as invisíveis vísceras da terra, pulverizando cascalhos, blocos e rochas para exprimir, talvez,  a impotência maior  do Homem e da Mulher frente ao embate  do vírus vencedor.”  

 

 

Nota:  (*) Umberto Eco – Confissões de um jovem romancista. Ed. Record/2018.

 (**)   Versos do poema    “O Lutador” – Carlos Drummond de Andrade. 

 


Texto:  Celso Lopes