terça-feira, 5 de maio de 2020

Duelo sobre a mesa - Conto


DUELO  SOBRE A MESA 





Um dos peritos, impressionado pelo fulgor do embate, chegou a citar, textualmente,  “o caótico rio de pedras”,  narrado pelo escritor  Umberto Eco*. E não sem razão; há de se acreditar, insistia o perito,  que no auge desse enfrentamento imperioso, o interior de ambos seguia em contínua ebulição, revelando uma torrente furiosa, tal qual uma “correnteza de grandes rochas informes, placas irregulares e cortantes como lâminas, e amplas como pedras tumulares (...). Aos olhos do perito, fora assim o duelo entre  Dona Branca e o Professor Pio. Quem os conheceu no dia a dia  informava que as desavenças entre ambos, não raro, surgiam  após um  silêncio profundo; nessas horas o ar ficava pesado e  fazia brotar,  às claras, um rancor íntimo desencavado. Acredita-se, informam os peritos, que esse conflito pode ter sido acentuado  pelo toque de se recolherem ao lar, uma vez que integravam o grupo de risco imposto pela Pandemia. Foram encontrados, ali, sentados, frente a frente, na mesa da sala; cada qual em seu canto  com a cabeça curvada e apoiada sobre o braço;  o olhar de cada  um deles parecia,  certeiramente,  dirigido ao outro. Lá estavam,  inertes, até a descoberta. Cansado de ligar para os pais, o filho informou ao Zelador do prédio, e este,  pressentindo algo estranho, levou o caso  à  polícia, que, instantes depois, solicitou a abertura do local e  posterior autópsia. O casal vivia há muitos anos naquele prédio do bairro. Ela, uma antiga professora de história; ele,  ex-chefe de laboratório de biologia da faculdade, onde se conheceram ainda bem jovens.  A perícia técnica apresentou anotações, laudos, infográficos  e fotos, destacando um considerável número de Palavras Cruzadas abertas; um Volume sisudo de cor marrom;  dois Dicionários que,   pelas digitais,  disseram os peritos,  o Caldas Aulete seria o  da Mulher, e o Aurélio, o do Homem.  A perícia indicou que as sandálias da Mulher deixaram rastros. Observou-se  que teria se deslocado até à cozinha, onde tomara café na térmica;  depois,  deteve-se  na estante da sala, de onde retirou o Volume marrom, que destacava na página interna: “Instrumentos de Guerra da Antiguidade”. Segundo a perícia,  tratava-se  de relatos sobre   estratégias dos antigos exércitos, como o  “Apito da morte”, descrito, ali, como “um objeto sonoro criado pelos Astecas, que simulava  estridentes gritos  de pessoas em sofrimento,  induzindo os adversários a um estado de transe desesperador.”  Apanhado o livro,  Dona Branca  se dirigira  à mesa do embate.  Então, ali, o duelo teve início para ambos.  Cada qual com os seus compêndios de Cruzadas. Segundo os peritos, era quase possível “ver” a agilidade da Mulher no desafio das verticais e horizontais, sem tréguas ao adversário;  indicaram ainda, que, em  determinado instante, os olhos da Mulher foram  ao encontro dos olhos  do Homem.  O abalo causado por esse olhar, disseram eles, fragilizara o  oponente.  Na praça de guerra,  o espalhamento das revistas acenava com que a estratégia do Homem seguia rápida com rigorosa atenção nas armas de combate.  Ao Homem, fortaleciam-lhe as  publicações relativas a  filmes, teatro, música,  biologia  e literatura química. Novamente, “pressentia-se”  a voz  da Mulher de forma  explosiva  no território da disputa. Podia se ler, com clareza, uma das perguntas: “Animal mitológico associado à virgindade, tem a  forma de um cavalo com um único chifre frontal?”.   Bingo.  “Unicórnio”. Assim assinalara a Mulher.  Ao Homem,  restava-lhe o sofrimento frente à  pergunta quase sussurrada: “- O  nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo?”. Segundo os peritos, os sinais mostravam, vivamente, que o professor Pio  estancara-se com a caneta no ar; pois sentia, naquele embate infernal, a Mulher apontando-lhe as  armas de Guerra. Aquelas tamanhas e poderosas, como a Catapulta, arma de ataque capaz de quebrar barreiras dos homens, especialmente, os encastelados  e protegidos em  cidades muradas.  Haveria de destruí-lo, caso ele persistisse. Lançaria sobre seu adversário as mais potentes armas,  que haveriam de liquidá-lo no interior do palácio.  Recuasse, portanto,  ou então,  receberia o golpe  mortal:  haveria de lhe atirar a maldição das  esposas incompreendidas!... Para os peritos,  a mente do Homem dirigira-o  para a área química. Ou ele a superaria agora ou haveria de viver  a maldição das esposas  abandonadas. O Homem sussurrava, exalando suor frio. Ele sentira o baque. Doeu-lhe a força desse punho gigante da Mulher à sua frente.  Por isso, olhava, agora, de dentro do seu próprio silêncio, para dona Branca,  enquanto  lançava  mão do seu  Aurélio:  - O nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo!...   No entanto, as tentativas se mostraram  infrutíferas e o  silêncio fora  quebrado, apenas,  pela  retórica ascendente  da Mulher.   “ - o  Santo Graal também é chamado de.....?”.  Neste ponto,  os peritos adicionaram ao laudo:  “ na sala avolumada de  silêncio, podia ser percebido os contornos grandiosos dos olhos  do Homem e da Mulher,   como fossem eles, Dona Branca e o Professor Pio,  os guerreiros autênticos  das   antigas Cruzadas, os  soldados de Cristo.”.  Então, enquanto a Mulher já se  debruçava  nos desafios da sua  Coquetel Super,  um certo  vazio  se instalava  no ambiente.  Agora,  as horizontais da Passatempo do Homem pediam ajuda aos deuses da sabedoria:  “ - Trepadeira comum em muros -  com quatro letras?  - A flor da idade, no sentido figurado -  com nove letras?”... Enquanto o Homem  entendia a  necessidade urgente dessas  respostas,  ela, a Mulher, garantem os peritos, ganhava distância  a olhos vistos. As palavras cruzadas exigem mais que  uma brincadeira - ironizava em seu silêncio -  como se mostrasse a ele, ao Homem,  que as Cruzadas não brincam.  Então, a Mulher preparou-lhe  um  olhar fulminante repleto de força bruta sonora:   “Lutar com palavras  é a luta mais vã.  Entanto,  lutamos  mal rompe a manhã(**)”. hghE tomada pelo poder dessas palavras ditas,   eis que, então, sob suas mãos, elas, as palavras,  ganharam formas definidas de ataques:  primeiro  as pontiagudas,  depois as  cortantes,   e por fim,  as explosivas... E assim, a Mulher  lançara, inapelavelmente,  sobre Homem, os seus escudos especiais. Ao Homem,  restava-lhe manter a distância adequada para não ser ferido de morte. Mas para sua festa surgiram os filmes, teatro, música,  artistas  e afins.  O Homem sorriu largo,  pois, se sentia no páreo; E assim seguiu ele, devorando com gulodice as suas anotações:  - Em que cidade nasceu Yusuf Islam  ( conhecido como Cat Stevans?)   - Qual série de TV tinha como protagonista o Ator Peter Falk?  ... Como  previsto, o Homem avançou  três  compêndios e cinco páginas, mas ainda era pouco. No entanto, com o rabo-dos-olhos ele percebeu que a incomodara.  A Mulher, ali, embatucara-se diante dos  símbolos químico....Ele ouviu, sim,  a ênfase retórica,  insistente, carregada  de  nervosismo:  - Enxofre?.... Lítio?...A mente não lhe faltaria nessa hora – sorriu triunfante.   A  toxicidade das substâncias químicas dançava  à sua frente,  como um gás mostarda, cloro,  ácido cianídrico...  mas ele, ali,  definira-se pelo Napalm -   O  gel pegajoso e incendiário  usado nas guerras trágicas do  Vietnã, Laos e Camboja... porém,  confessava a si mesmo que não viveria a dor do engenheiro Jeff O. Stanford – Chefe do Laboratório Químico dos USA,  responsável pelo envio do Napalm às frentes americanas que, diante do grito antibélico do mundo, e culpando a  si mesmo  pelo genocídio,  suicidara.  Assim, a Mulher, novamente, ganharia a dianteira: - Península que abriga a Grécia e a Croácia?  - Nome de Deuses da Mitologia Grega?... E então,  decidida  a trucidá-lo, sem perdão,  tomou para si as armas decisivas.  Com destreza e maestria, Dona Branca apossara-se dos Estrepes e Culverins; segundo os peritos,  “armas medievais atiradas  contra a  cavalaria inimiga”. Desviando desse campo minado,  o Homem titubeava em seu abecedário: - Substância encontrada em vegetais, de grande importância  para o funcionamento do intestino?. Os passos  seguintes formariam a barreira implacável. O Homem sofria a cada pergunta que preferia  não ouvir:   - O maior império do mundo (em duração)? - Rei pagão denominado pelos judeus como o Messias?... As muralhas e fortificações,  postas ao chão naquela guerra,  levaram-no à rendição. O ar, agora, lhe faltava – disseram os legistas. Portanto, febril, cansado e ofegante, ele se acomodara sobre a mesa, com a cabeça inclinada no braço curvado, e o olhar, certeiramente, dirigido às  pupilas da Mulher.  E então,  a Mulher, com sua respiração traumática naquela batalha sangrenta,  em que vencera  o homem encastelado, numa luta silenciosamente inumana, reconhecera no antagonista, conforme a perícia,  um guerreiro, alguém de valor  e  à altura, o que a  levara à rendição definitiva.  A ausência do ar, agora, sufocava a ambos – disseram os exames. Portanto, também ela, Dona Branca,  acomodara-se na mesa com a cabeça inclinada  e o olhar certeiramente dirigido às retinas do professor Pio!... Fortalecendo a narrativa técnica, o perito retomaria o “caótico rio de pedras”, criando, aleatoriamente, um  apoteótico final:  “nenhuma voz humana podia se fazer ouvir naquele instante fatal sobre o duelo na mesa;  embora ambos, ali,  tivessem o desejo de falar, de se despedirem de toda a carga de emoção que arrastavam consigo, não conseguiriam. O ‘rio de pedras’ interior que os conduzia, enfurecia-se cada vez mais, levando tudo ao redor  para as invisíveis vísceras da terra, pulverizando cascalhos, blocos e rochas para exprimir, talvez,  a impotência maior  do Homem e da Mulher frente ao embate  do vírus vencedor.”  









Nota:  (*) Umberto Eco – Confissões de um jovem romancista. Ed. Record/2018.
 (**)   Versos do poema    “O Lutador” – Carlos Drummond de Andrade. 

sábado, 2 de maio de 2020

O SORRISO DA TARTARUGA Crônica de Celso Lopes



O SORRISO DA TARTARUGA



Na  fábula que todos conhecemos, A Lebre e a Tartaruga,  quem sobe ao pódio,  depois do “descaso” e do  “cochilo” da Lebre durante a corrida, obviamente,  é  a própria Tartaruga;  no entanto, desta vez, a Tartaruga terá que enfrentar um Sapo... Bem, na verdade, um Sapo tecnológico, é claro!...

Assim, avessa às tecnologias de ponta, a antiga vencedora, agora, vai perder o trem, quer dizer, a corrida... Mas, acalmem-se – continuamos torcendo,  torcemos para que ela  chegue  a tempo, e ainda possa  “nadar” de braçada e “sorrir tranquila” pelos sete mares afora.

Isso porque, essa tranquilidade, nos últimos tempos tem esbarrado num “vilão marinho”, ou seja, o material plástico em suas  várias formas: quer sejam sacolas, garrafas pet, canudos, redes de pesca, isopor  e outros milhões de resíduos  descartáveis  made-in-polipropileno – matéria-prima  inerente a essa indústria de transformação. De um lado, os detratores desse uso desenfreado  do plástico e ávidos por  alternativas “Sustentáveis”; e de outro,  a indústria, entidades e profissionais que pregam o uso consciente do plástico, ou seja, uma educação ambiental efetiva, circular e  mais incisiva, e obviamente, comprometida em salvar o  planeta e todas as espécies terrestres e marinhas, a tempo. 

À parte isso,   uma boa notícia para ambos!... 

Alguns  cientistas dos USA,  acabam de criar um “robô-vivo”, a partir de células-tronco de sapos africanos, de nome Xenobots, que medem, aproximadamente,  um milímetro, e tem a função programável para trazer ou levar substâncias.  

Aonde, por exemplo?  

Os cientistas adiantam: esses organismos vivos e programáveis poderão transportar remédios pelo  corpo, viajar pelas artérias para remover placas gordurosas e, aplausos!... poderão, quem sabe,  formar um exército-tarefeiro de milhões de Xenobots  para  coletar microplásticos dos rios, mares e  oceanos.

E para não dizer que os cientistas não falaram  de flores...

Os Xenobots são totalmente biodegradáveis, e  parecem cumprir  uma instrução Bíblica saudável  sobre a função do trabalho, somente que, diferente do descanso bíblico  no sétimo dia, esses fieis-escudeiros, após a sua  labuta do dia a dia, morrem, ou seja, transformam-se em células mortas – afirmam os pesquisadores.

Na fábula conhecida da  Lebre e a Tartaruga, a moral da história  pode relatar, entre outras possibilidades, que “devagar se vai ao longe”. Porém, nesta fábula contemporânea, com esses novos  “atores” e “historiadores” do futuro, queremos crer que  haja uma outra leitura possível.

Assim, as Tartarugas, sejam  elas, de água-doce, como a Tartaruga-Tigre do pantanal,  ou  Tartarugas marinhas, principalmente as  brasileiras ameaçadas, como a Cabeçuda, de Pente, Oliva, de Couro, e até mesmo a Tartaruga-Verde, todas elas, acreditamos, ganharão status de ‘sobrevivência sustentável’, e poderão abrir um doce e   largo sorriso;  e, ainda,  de “quebra”,  a cooperação mútua, a cargo dos Sapos-robôs  Xenobots, com certeza, contribuirá para diminuirmos ou eliminarmos, de vez,  o excesso de  ações predatórias e irresponsáveis  que atingem todo o  meio ambiente.





DIÁLOGOS À BEIRA DO 'COMA' - crônica Celso Lopes


Diálogos à beira do “coma” 


                                            

No filme, Fale com ela, (Hable con ella), do diretor Pedro Almodóvar, os personagens masculinos (enfermeiro e jornalista) e os femininos (bailarina e toureira), estabelecem uma relação intensa no hospital, onde ambas se encontram em coma.  Marco, o jornalista, acredita que elas estão mortas. Benigno, o enfermeiro, que cuida da bailarina (Lydia)  aposta num “milagre” e aconselha Marco: “Fale com ela”... “Fale com ela”... e é o que ele fará, de certa forma, dialogando com o longo silêncio de Leonor ( a toureira).
Esse, digamos,  monólogo, que no filme ganha  contornos de  diálogos, pode, apropriadamente, tornar-se uma “ferramenta essencial”, também  nesses tempos de pandemia.  Imagine-se como um paciente terminal. Você está internado, próximo ao fim, mas você ainda escuta. De repente, ao seu lado alguém diz:   “ - Farei o possível pela sua vida!...”
Até aí, alguns pontos a considerar:  primeiro, esse alguém, o médico ou  profissional  especializado,  poderia estar fisicamente ali, desde que fosse possível,  e com todos os cuidados de um não-contágio, especialmente, frente a um vírus pandêmico, como é o caso do recente coronavírus.   Segundo ponto, o médico ou esse atendente especializado, estaria  acompanhando você, via equipamentos de “Telemedicina” – com uso de som e  imagem de vídeo;  com a ressalva de que,  até pouco tempo, esse procedimento sofria certo viés contrário, uma vez que, culturalmente, exigíamos dos profissionais de saúde um estreito contato com o paciente. Digamos que, quanto mais  melhor, acredito que era assim que todos nós pensávamos.   Mas há uma outra consideração que salta com relevância neste enfoque.
E vem de uma experiente profissional no trato com Cuidados Paliativos; um enfrentamento habilidoso, entre médico-paciente  diante de doenças dolorosas e incuráveis. Tendo à frente,  doentes que não podem receber visitas, a médica  Ana Cláudia Quintana, tema desse texto, adianta que a importância do profissional de saúde nessa hora,  alcança uma conexão fundamental e de extrema confiança ao paciente.  Para a doutora -  no  momento da nossa maior fragilidade, em que estamos morrendo, e todas as medidas de sobrevivência já foram tomadas, não respondemos mais aos  estímulos, mas ouvimos de um  profissional ao nosso lado:   
“ - Farei o melhor que puder pela sua vida. Você é muito corajoso!...”
Para Ana Cláudia, esse gesto cuidadoso ganha proporções de reflexão sobre a nossa finitude, tornando, não-necessariamente,  a morte digna, mas sim, a vida digna.  Por isso, acrescenta:  “ Se  a última coisa que você ouvir na sua vida for isso, vai ter valido a pena.  Não é nem para salvar a sua vida, mas (fazer) o possível pela sua vida.”.  A abordagem da médica, entre outros pontos importantes, avança, com propriedade, para esse momento restritivo imposto pela  “pandemia” causada pelo Coronavírus,  em particular sobre o  impedimento presencial junto ao leito,  de familiares, ou  mesmo, de profissionais de Saúde,  numa fase delicada  da perda do ente querido. Em sua ótica, quando se vê o corpo, sepulta, chora, faz missa, faz rezas, esse ritual cria e garante uma estrutura de segurança a quem fica;  é como se fizéssemos uma  trilha sinalizada.  “ Sem essa ritualização, a emoção da perda é arrebatadora” – conclui.
Médica com grande reconhecimento na sua área, e autora de livros como “A morte é um dia que vale a pena viver” e “ Histórias lindas de morrer”, Ana Cláudia Quintana parece construir, e constrói,  cuidadosamente, aquele “milagre” da narrativa do filme, apostando todas as suas fichas, sabiamente e  humanamente,  nesse aparente e improvável “diálogo” entre os médicos e pacientes.




Texto:  Celso Lopes

Fonte: Mariana Alvim - @marianaalvimDa BBC News Brasil em São Paulo (12/abril/2020).

O PULO DO RATO Crônica


                      “O PULO DO RATO”                                                     




Não, você não leu errado. Ainda que quem esteja à frente desse estrelato de habilidades seja o Gato,  com as suas 7 vidas ou por vezes até 9, de acordo com cultura local de países,  neste caso, o felino terá de ceder a vez  e a expertise para o Rato. É certo que  continuamos tratando aqui de Vida, onde os gatos seriam praticamente imbatíveis, seja pela proeza inimitável do seu pulo, seja pela imunidade a doenças ou mesmo pela narrativa  convincente das “sete vidas”, entretanto,  pasmem, resta-lhes abrir espaço, pois o que está em jogo não é somente a Vida,  porém, a Vida Eterna.    Isso mesmo.  A vida eterna, garante o engenheiro formado pelo MIT e  futurólogo venezuelano,  José Luiz Cordeiro, está com os dias contados, quer dizer, em contagem regressiva  de uma  data   ou progressiva para alcançá-la  – à escolha de todos nós mortais. Ou seria melhor dizer – imortais? Apresentando dados que, por vezes, queremos crer que sejam mesmo verdadeiros, confiáveis, uma vez que respalda suas teorias sobre a vida eterna em expoentes como o matemático David Wood (autor de A morte da morte), incluindo o biólogo e cientista David Sinclair, da Universidade de Harvard, Cordeiro ‘prega e bota fé’ no que chama de interrupção da velhice, afirmando:  “já temos novas tecnologias de reprogramação celular e estamos entre a última geração humana mortal e a primeira imortal”.  Quando  perguntado sobre os caminhos dessa viagem sem volta, saltam à tona, entre outros micro-organismos, as bactérias. “ Sabemos que há células e organismos que não envelhecem, como, por exemplo, as bactérias. Elas são as primeiras formas de vida no planeta”.  
“Outro tipo de célula que se descobriu que não envelhece é a do câncer” – acrescenta enfático:  “(...) Esse é o problema do câncer, ele não envelhece e por isso é preciso matar todas as células cancerosas porque, se deixar uma sobrevivente, elas voltam a se reproduzir”.  No rol desse esquadrão de “eliminadores do Gato” entram nomes de peso, como por exemplo, a Microsoft:  “  Depois do sequenciamento do genoma humano conseguimos entender, por exemplo, que o câncer é uma mutação para se manter jovem”.   Cordeiro garante que a cura virá por aí:  “Não foi uma companhia médica ou farmacêutica que falou isso (cura do câncer), mas a Microsoft, porque o câncer é um problema computacional, não um problema médico. Podemos encontrar as mutações que geraram o câncer e compará-las com as células não cancerosas”.
Outro “golpe mortal” sobre os felinos estaria a um passo de acontecer,   e chega pela Universidade de Tóquio através de um Samurai-cientista, o  japonês Shinya Yamanaka, prêmio Nobel  em 2012. “ Ele descobriu (2006) que células podem ser reprogramadas e que é possível modificar genes de uma célula velha e torná-la novamente jovem (...)”,  acentua Cordeiro.   Para fortalecer, ainda mais, as previsões,  Cordeiro agrega as projeções do futurista Raymond Kurzweil: “  Ele fala que no ano de 2045 o envelhecimento e a morte se tornarão opcionais, quando a inteligência artificial ultrapassará a inteligência humana”. Assim,  outra data, 2029,  agora bem mais próxima,  entra em cena:  “... alcançaremos a velocidade de escape da longevidade (....) para cada ano que vivermos, ganharemos um ano a mais (...) Não é o suficiente. Kurzweil estima que a partir de 2029 passaremos a viver indefinidamente, mas ainda envelhecendo. E em 2045 teremos as tecnologias de rejuvenescimento biológico com a reprogramação celular”.
Bem, “o tiro de misericórdia” ao reinado e à  sobrevida dos felinos tem hora marcada, garante Cordeiro:   O sequenciamento do genoma envolve três bilhões de bases nitrogenadas (...)   A mente humana não consegue ver a diferença (...)  Nosso cérebro é limitado e a inteligência artificial não tem esse problema. Por isso, ela será decisiva para a cura de muitas doenças e tratamentos (...)”.  E é neste ponto que  os ratos saem do buraco e nos olham  cara a  cara. Afinal, geneticamente, são 90% iguais aos humanos, e sobressaem-se, até aqui,  como excelentes “cobaias”, embora vivam em média  dois anos e meio.  Entretanto, afirma Cordeiro, entregando-nos, de bandeja,  “O  pulo do Rato”:   “ Agora temos espécimes que vivem cinco anos. Conseguimos duplicar a expectativa de vida dos ratos. E já temos conhecimento suficiente para usar isso experimentalmente com os humanos”.  Pelo visto,  não temos nada a temer. Quem precisará daquelas 7 vidas dos felinos, se são os ratos, agora, que  já nos acenam com a Vida eterna?...




quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

ESTUPOR Mensagem Intergaláctica (livro Poesia Lbertadora) Absurtos Editora


ABSURTOS EDITORA   Olá, Celso!


A Absurtos Editora tem a felicidade de informar que, entre tantos candidatos talentosos, o seu poema foi um dos selecionados em nosso concurso literário e você está sendo convidado a participar da antologia Poesia Libertadora – Prêmio Absurtos de Poesia.



(leia a poesia de Celso Lopes). 

ESTUPOR  - (mensagem intergaláctica). 

Ando à míngua... 
trago comigo todas as  línguas-mortas
na ponta da minha língua.
Uma outra linguagem, o que sou:  surda-muda!...
Ando à míngua...
à espera de um aceno no reino do universo,
e então serei farto em prosa e verso:
hei de  me saciar a pleno pulmões
e não há de estuporar essa íngua!...
Ando à míngua...
mas  recusarei o banquete de Pélope
e  não viverei o suplício de Tântalo*...
Hei de vencer  todas as  apoplexias!...
Nunca mais a fome, nunca mais a sede...
Seguirei ímpar, multilíngue, como sei, 
como sou: 
um incansável decifrador de hierógrafos...                        
Eu, a  nave-mãe, levando um epitáfio para o futuro:
“Saudações -  a quem quer que você seja!...
Trago boa vontade e paz através do espaço”**


 (*) Tântalo, filho de Zeus, casado com Dione, teve três filhos.  Ousando testar  os deuses, serviu-lhes a carne do  filho Pélope. Lançado ao Tártaro, num vale com abundante vegetação e água,  foi castigado  a não poder saciar sua fome nem a sede.(Mitologia grega).  
 (**) Paráfrase à mensagem da Missão Espacial Europeia em pesquisa sobre a origem do sistema solar, a vida na Terra e a provável  existência de vida em outros planetas.





terça-feira, 10 de dezembro de 2019

NÃO HÁ MAIS TEMPO, GENERAL JUCE!... Conto policial de Celso Lopes


 Edição Final - Livro PROCURADOS -  Vol.I -  Contos Policiais 




Resultado da Seletiva para o Livro  "PROCURADOS - Melhores contos Policiais  nacionais e internacionais" com participações de autores renomados em Portugal e na Argentina.

Foram mais de 200 contos, um desafio escolher os 20 melhores, mas foi preciso escolher, então temos nossos nomes.  Será um livro ESPECIAL - 26 contos (contos dos organizadores e dos autores internacionais renomados) - com composição gráfica diferenciada, brindes personalizados e um lançamento de sucesso.
  Contos selecionados

1.       Torta Vegana – Julia Ramalho
2.       O Segundo Nascimento – Jorge Pontes
3.       Aderir ou Morrer – Pedro Franco
4.       Enredo – Adnelson Campos
5.       A Mosca Presa na Garrafa – Alexis Machine
6.       Setenta Vezes Sete – Wellington Fioruci
7.       Sobre Pipas e Pássaros – Bruce Torres
8.       Máscara Negra – Aline Moreira
9.       Desforra – Mario Feitosa
10.   Não Há Mais Tempo, General Juce – Celso Lopes
11.   Alma Penada – Vitor Gagliardo
12.   O Abominável Homem do Saco – Davi Gonzales
13.   Tudo, menos isso – André Leitão
14.   O Riso Escarninho – Joaquim Bispo
15.   Uma Noite Qualquer – Diego Escopelli
16.   Filho de Peixe – Calebe Lopes
17.   A Janela Indiscreta - Bárbara Lia
18.   O Artista – Day Celestino
19.   Vampiro Contemporâneo – Danilo Morales
20.   01100010 – Fabiano Soares

 (Leia o CONTO do autor Celso Lopes). 


“NÃO HÁ MAIS TEMPO, GENERAL JUCE...”    

                 
O telefonema do Juce me perturbou por dois motivos. Dona Nara, inocentemente, teria dado o meu número particular aqui na Segurança. Nessa hora só pude pensar – Ah! Dona Nara...sempre boazinha, não é, Mãezinha!? Por outro lado,  sei como ele é um  obstinado desde criança. Portanto, vinha chumbo grosso. Com a habilidade que eu tinha para desenhar, vi que ainda conseguia rascunhar na folha em branco, o semblante perfeito do  Marcelo. Mas, me dou conta que esses traços escondem um pouco das minhas preocupações.  Ainda que sem o acabamento, a falta do degradê, dos contornos esmaecentes, aqui está ele com o quepe, a farda, o coturno e o sorriso largo... Assim, em preto e branco,  o desenho  me lembra  a noite da  formatura dele, quando, eu  me senti atingido pelas  farpas doces da felicidade, pois, sob aplausos, Marcelo  receberia uma destacada homenagem na Academia de Polícia e o reconhecimento de  todo o corpo docente. Mas nem tudo ficou sob controle. Para o Marcelo a base móvel  dava-lhe o respeito e o compromisso de se fazer algo de bom para a comunidade.  Mas essa atitude dele virou um incômodo para mim. O mínimo que eu esperava  era que ficasse mais próximo ao poder,  assumisse  uma  Secretaria, uma  Diretoria... e de mais a mais, convenhamos, a  base móvel estava muito aquém do Marcelo. Cansei  de dizer isso a ele:  Filho, a base Joana  D’arc  é um alvo a céu aberto. No entanto, Marcelo quer se  fazer por si. Os amigos instigam:  “ - você é o herdeiro do homem mais forte da Polícia”... Ele insiste que vai subir  pelos   próprios méritos. Personalidade forte, a dele,  tenho que admitir.  Mas  a encrenca já está pronta. Juce, o cérebro do tráfico, não me dá tréguas. Por isso, o telefonema  e  o aviso:  “- Benhur, ou libera os meninos pro dia das Mães ou o seu moleque na Joana D’arc  vai passar dessa pra outra...eu não brinco, você sabe!...”
Somos exatamente da mesma idade. Nossos pais eram amigos e, coincidentemente,  nascemos  no  mesmo  onze  de agosto. O bom foi que eu e o Júlio Cesar, o Juce, comemoramos, juntos, por muito tempo os aniversários. E bota coincidência nisso: tivemos historias de vida como uma epopeia familiar. Mamãe, dona  Nara, e dona Laura, a mãe do Juce,   quando grávidas,  debruçaram-se em relatos  de  heróis medievais  à cata de nomes apropriados ao primeiro filho.  Isso, tão logo o ultrassom acabara de confirmar o nosso sexo!...  Dali à escolha, o tempo foi rápido.  Empolgada com a vida de um rico mercador Judeu, traído e escravizado , mas que se esforçara pela  liberdade,  dona Nara não vacilou:   - Benhur!...  – disse à amiga, contornando a barriga, delicadamente, com as mãos,  e reiterando, com amplo  sorriso nos lábios, o nome épico,  para que eu, ainda  bebê,  pudesse ouvi-la: “- Benhur!...  “- Júlio César, mas sem o Caio  -  de Caio não gosto!...disse Dona  Laura,  colocando um ponto final à procura.  Júlio César!... E  segundo Dona Nara, ela disse de forma empolgadíssima, porque o  achado era excelente:  um  general importante do Império Romano... “- E que melhor coisa o “Juce”  iria querer, hein?  -  acentuara, alegre,   com a certeza de que o  apelido criado pela junção das primeiras sílabas, dava prestígio  ao seu rebento: JU-CE!...
E completaria:- Juce é tão bonito, você não acha,  Narinha?... Dona Laura, pouco a pouco, apresentava-se com  uma habilidade acentuada para “Mãe”. Feito  sob medida para a maternidade.  E ode-se dizer que me adotara para sempre  em seu lar, e falando, orgulhosamente:  “amo Benhur, gosto do jeito compenetrado desse  menino, e vejo para ele – mais que meu próprio filho – um brilhante futuro!...“. Dali pra frente  o mundo deu voltas e mais voltas. Surgiram invejas, brigas e desentendimentos. Mais tarde o  conflito ficou claro: Eu, o Major Benhur, assumi o   Comando Geral da Segurança; e ele,  Júlio César, o Juce,   tornou-se o  chefe da maior organização criminosa implantada no interior dos presídios.  Hoje vejo que tivemos por onde nessa rivalidade. Entrei na corporação e dei os primeiros passos no Presídio Disciplinar – a menina dos olhos da Segurança Pública -  Ali, ganhei um apelido que moldava minhas atitudes – Benhur... o Dá-Sem-Dó!...  Por sua vez,  Juce, detido no presídio,  apresentou-se à frente dos detentos com uma liderança ímpar, articulando fugas memoráveis,  o que deu origem ao  destemido Juce,, o general Juce, como o chamavam.  Ali, ficaríamos frente e frente pela primeira vez,  por força do sequestro da Assistente Social no  interior do pavilhão. Sob meu comando, a tropa fez  tombar a porta onde Juce e seu grupo mantinham a refém.   Entretanto, o general Juce desenhou um cenário  que exigia atenção, pois   mantinha a Assistente  junto  à mesa, deixando visível  faca ao  alcance da sua  mão. Ali, pude  ler nos olhos dele,  as  artimanhas de um golpe anunciado. Mantive-me  em silêncio, sinalizando  à  tropa o posicionamento em círculo. Estava claro que Juce  levaria  essa   infâmia até o  fim do mundo, pois tinha  a refém e inibia qualquer iniciativa precipitada.   A mim, restava-me  decifrar aquele cenário estratégico:  o episódio levado  às últimas consequências, transformaria o general Juce  de  bandido a herói, pois  os tiros sobrariam para  a   Assistente Social.   Refém do silêncio instalado,  aos poucos,  deixei que vissem os contornos de um sorriso cínico, que me transformava, paulatinamente, no antigo Dá-Sem-Dó.  Eu precisava agir  tal qual  aprendera no comando da Polícia.  A tropa interpretava o código  em ordens  de Atenção, Preparar, Fogo!.... Nesse instante, porém,   o que  ouvimos, a partir dali,  foi um  grito. Um grito de mulher que, instintivamente,  decifrara aquele sorriso enigmático e doava-se de corpo e alma aos detentos.  De braços abertos, como um  sinal da cruz a intimidar os fariseus,   a  Assistente  compreendeu que nenhum dos dois  cederia.  Cristãos todos,  Juce e eu recuamos, ambos, ligeiramente  intimidados. A  tropa baixou as armas. Juce afastou-se da faca.  E com a delicadeza de uma Mãe, coube à  refém indicar um caminho  seguro para todos.  Assumi o comando da tropa. Juce orientou a rendição dos seus. Superado o incidente, seguimos  cada qual o seu rumo. Agora, aqui na sala, sobre a mesa, também fiz surgir  no papel,  o rosto  duro e grotesco do  general  Júlio César!...   Na verdade, era sabido de todos,  que Juce, desde há muito, incomodava a Segurança Pública.  E o telefonema daquela manhã não desmentia.  “- ...Você me conhece, Benhur.... - Ah! Benhur... Dona Laura manda lembranças, e parabéns pelo nosso aniversário!...”   Olhando o desenho, não pude deixar de ver na infância, o corajoso Juce, o estrategista Juce enganando  a todos na brincadeira de “Salva-Cadeia”...Já não havia mais a quem pegar, todos estavam presos na corrente indiana,  faltava apenas ele...e nada do Juce aparecer pra libertar os amigos. Na rua, próxima à praça,  apenas alguns boias-frias chegando do trabalho com apetrechos e enxadas às costas... Pois, exatamente quando passavam pela “cadeia”, surgiria o aguerrido Juce, disfarçado num desses trabalhadores e, tranquilamente, daria o salvo-conduto a todos naquela prisão inventada pelo imaginário infantil!...  E mais, sabe-se lá como, certo dia,  Juce alçara o alto  vitral da Igreja, já iluminado,  e ali, diante dos nosso olhos  desatentos,  postara-se como São Sebastião – como se ele, também, flechado, de cabeça inclinada, fosse um desenho do próprio vitral. Em instantes,  Juce desceu do alto do batente e, novamente, com seu gesto, salvaria todos  os amigos daquela  infame prisão infantil: -  liberdade para todos!.. - dizia eufórico.
Na reunião de cúpula dessa manhã, tentei esfriar os ânimos da linha mais dura, que pedia a  transferência de detentos para presídios de segurança máxima.  Minha insistência na liberação  dos  presos no Dia das Mães ficou evidente. Mesmo amaldiçoando Juce, tentei  ganhar tempo. Entretanto,  a referência às genitoras, foi tratada com  ironia pela turma da mesa oval,  e ganhou desdobramentos. Os gráficos indicavam  um número excessivo de presidiários com direito ao benefício; isso traria pânico e insegurança  à população, além de descrédito à Polícia. Depois de entreveros, a maioria venceu,  optando por  nenhuma liberação.  Degluti o resultado, porém, o  meu desconforto saltava aos olhos da  Corporação. O Capitão Jardim, por exemplo, chegou a me perguntar:  “ - Está tudo bem, Major?...”.    Entendi que me  restava, agora, correr contra o tempo e   acionar o celular do Marcelo com  a  autoridade de Comandante e Pai.  Antes, porém, segui até o  Controle Geral  para informar sobre  minha proposta de desativamento  da  base Joana D’Arc.  Eu corria riscos,    porém,   estava claro  que  temia  pela presença do Marcelo no local. Justifiquei a iniciativa como um estudo experimental, mas  o tempo correu contra mim.  Antes que eu dissesse ao telefone, “espera, Juce” ,  a voz do  maldito general romano cresceu poderosa, soando como   um   rojão. Senti   no próprio corpo,  a pressão  incômoda  e dolorida de um  soco na boca do estômago:   “  -  Não brinco, Benhur!...” - finalizou Juce.
Atropelando  os meus  movimentos,  avancei  corredor adentro, enquanto  tentava, já, pela quinta vez,  acionar  o celular do Marcelo,  a essa hora,   sem qualquer resposta.  Na sala  do  Comando, pude confirmar o que  Juce  já havia me soprado ao telefone:  “ - A base da Joana D’Arc foi atacada, Comandante .. e temos vítimas!.. Lamento, Major, lamento...
Por certo, quem me visse de volta à  sala,  perceberia a arma e o silenciador, entretanto, não conseguiria  descrever  a minha fisionomia.  Sentia-me com  marcas fundas do rosto,  acentuando em mim,  o que se pode chamar de raiva, ódio e um  clamor impiedoso  de vingança; e ouviria um  nome   ser repetido de  forma insistente:  - Dona Laurinha!.. – Dona Laurinha!..
Manobrei o carro  pelas ruas estreitas do bairro e vi de perto o pé-de-amora na casa de  dona Rosa. Aspirei o quanto pude,  aquele aroma eterno da infância!... Em instantes, direcionei-me para  a antiga casa azul de portão amarelo. Acionei  a campainha, e sem demora, o gesto  colocava à minha frente, a já idosa  Dona Laura, Dona Laurinha   – a doce mãe do general romano  Júlio César  - o Juce. A dois passos de distância, Dona Laura irradiava uma esfuziante recepção, capaz de inundar a própria rua:    
- Benhur...meu menino!... e Narinha, como vai? – Quanto tempo!... Que bom te ver  por aqui!... Parabéns pra você e pro Juce!...
Aquela  voz   melodiosa atingia-me  como uma punhalada na  alma.   Entretanto, militarmente circunspecto,  repeti  a mim mesmo, que  não haveria volta. Dona Laurinha que me perdoasse, mas não poderia transigir ao meu intento.  Recuar, agora,  seria  tão improvável  quanto a ordem de  Juce  contra  a base móvel do meu filho Marcelo.  Minha mão seguiu  ao encontro da arma colidindo com minha respiração ofegante; no entanto, isso não  me impedia de assentir a mim  mesmo,  que Dona Laurinha carregaria com ela, o vale-tudo dessa rivalidade entre  mim e Juce.  Entretanto, antes que eu levantasse o revólver à altura exata, ouvi o ruído no alpendre,  a  voz enfática  do general  romano Juce:   “ Mãe!...Mãe... está por aí?”    
Aquela presença inesperada colocava-nos,  mais uma vez,  frente a frente,  e entre nós, agora,  Dona Laurinha, a mãe de ambos, que, eufórica, quebraria o incômodo silêncio diante dos seus filhos queridos, no dia do aniversário.  À curta distância,  os olhos do general Juce me fulminavam:  - Dona Laurinha, Benhur?... você  ia atirar em Dona Laurinha... a Mãe que te acolheu!?...Meus olhos transformaram-se, ali,  em potentes explosivos:  - E o Marcelo, Juce, e o Marcelo? ...Você me tirou o  único filho!....   Nossos  olhares cruzados, faiscantes e estratégicos, buscavam a  certeza do primeiro gesto, e no entanto, recebia a indulgência de Dona Laurinha:  - O que houve, vocês  brigaram?...brigaram? - dissera ela, desorientada e incapaz de perceber que um dos seus filhos arriscaria a romper  aquele insuportável silêncio... E então, ali, em fração de segundos, disparei duas vezes,  antes mesmo que uma voz  dentro de mim,  dissesse: -  “ Não há mais tempo, general Juce!... Não há mais tempo!...”



Texto:  Celso Lopes