sexta-feira, 31 de julho de 2020

O mergulho corajoso da poeta DALVA ALTOBELLI


Dalva Altobelli se revela em sua poesia. Em seu eu poético  expõe-se de corpo e alma. Entra de cabeça pelas  águas turvas onde quer porque quer  o porvir e/ou se redescobrir diante de si mesma. Para tanto, mantém-se atenta ao tempo, tentando segurar a ampulheta, sua companheira inseparável nesta jornada,  e ao mesmo tempo, o  algoz de seus sonhos... 

A poeta  reafirma  em versos finais:  “Meu grito é inútil. Ninguém ouve a minha voz”.  E é essa coragem reveladora que a sua poesia alcança, e que nos leva a habitar essa morada.  Há mesmo esse despojamento revelador de perdas, às quais, a poeta  busca e tenta incessantemente  resgatar para dar a volta por cima; e é assim que  canta em seus versos, a   sua energia   rigorosa  para  viver o seu  tempo.  Nessa submersão que faz para  as regiões profundas desse mar a ser descoberto e desvendado,  seguimos sentindo a sua ânsia através das   palavras que nos engolem por inteiro na  missão da sua  poesia:  

 “... deixei meu rastro, mastro de minhas naves naufragadas (...) deixei meu sangue, rubro veneno que mata a mim mesma (...)”

 Arrisco dizer que a poesia de Dalva Altobelli, seguramente, trilha expoentes importantes da nossa literatura poética.  A seguir nessa trilha, a autora fará confirmar a intenção e o gesto.  A pessoalidade dela própria na poesia, que por instantes, poderia nos levar à simplicidade  do fazer poético, já no mesmo instante, agiganta-se, pela amplitude com que redesenha a sua e a nossa  viagem através dos versos:

 “Por mares singrados, deixei tempestades, brado insolente em busca do nada. Por outras vidas, deixei meu soluço, dor lancinante das minhas feridas.  Por você me afastei da luz, e hoje ardo sozinha nas trevas do meu próprio inferno”.

 Os versos de Dalva Altobelli, por vezes, flertam com rimas, no entanto, é a liberdade da sua escrita poética que transcende a sua verdade escondida,  e que faz  submergir ao leitor,  em imagens sutis e  inusitadas: 

 “ O ar rarefeito já sufoca. Nem mesmo meu grito sai da garganta estrangulada. Não sei  se tenho forças para chegar à beira da estrada . Não encontro cordas para sair do precipício.  E se as tivesse, meus braços estão inertes. O ar é vidro moído, o soluço é baixo”.  

 Em um paralelo oportuno, ainda que deva ser melhor aferido,  lembro aqui versos do poema “O Mergulhador”, de Vinicius de Moraes, em uma estrofe primorosa que realça a busca e o descobrimento do poeta:  

 “(...) Amo-te os grandes olhos sobre-humanos/ Nos quais, mergulhador, sondo a escura voragem/ Na ânsia de descobrir, nos mais fundos arcanos/ Sob o oceano, oceanos;  e além, a minha imagem (...)”

 O ar rarefeito, quase inexistente, e brutamente feito de “vidro moído”, bem como, o sofrimento silencioso de Altobelli, revelado para si mesma em  “soluço baixo”, também, como ao “poetinha maior”,  nos indica e reforça a sua busca e o desvendamento do seu mundo.  Essa é  a trilha poética de Dalva Altobelli. Enxergamos nela, a poesia sem freios para o pensamento, pois como acentua e informa:  “o pensamento alcança mar aberto e sem fronteiras, aporta no infinito”

A poesia de Dalva Altobelli é assim, um  alter ego de si mesma... uma marinheira que sofre feliz porque  tem o mar infinito como estrada. A nós, leitores, cabe seguir-lhe os passos, e aproveitar ao máximo esse  caminho. 

 

 

 

Texto:  Celso Lopes     elipse84@terra.com.br    Julho/2020


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Escritos da Pandemia "Baile de Máscaras" - Poesia







Cai a máscara, o vírus nos escancara cara a cara, 
o perigo invisível que afoga o que antes alegrara;
e  aflora,  engolindo o que o futuro nos reservara.

Cai a máscara, e nada, ninguém que nos prepara
o front de enfrentamento, nessa guerrilha  rara;
guerreando, de mera ameaça à  dor que arrastara.

Cai a máscara, põe a nu todas as “pestes” por que passara
o mundo, a humanidade que em sua escalada enfrentara;
e de joelhos segue, rogando aos céus o que tanto clamara.

Cai a máscara, um Pierrô trama o que outrora relegara;
uma Colombina chora, suplica o baile que tanto esperara;
e atira confetes, serpentinas e as lágrimas que derramara.

Cai a máscara, e  a fantasia pura que a mente sonhara
sob  ritmos de sons excitantes, penitencia-se. Calara
o riso da história que condenara. Nada disse, não falara.

Cai a máscara, e ansiamos a aurora  que tantos arrastara,
ergueremos  bailes,  salões sem muros, celebrações  preclaras...
buscando rostos,  o beijo antigo  e o abraço que nos acalentara.


Texto:  Celso Lopes

quinta-feira, 2 de julho de 2020

PORÕES - Livro do autor Celso Lopes 2020


Livro do autor Celso Lopes 
Leia um dos Contos da Coletânea


A armadilha do Miranda já estava preparada. 

Fora somente o tempo de rodopiar a chave no cadeado da porta e os policiais à paisana surgiram fechando o cerco. Enquanto os agentes o algemavam em alvoroço de comemoração, Miranda, num silêncio constrangedor, mantinha-se acocorado no estreito cômodo,  com um olhar cabisbaixo e desolado, acompanhando os chutes fortes e certeiros  que derrubavam seus cavaletes, latas de tintas, pincéis,  tecidos, a mesinha, uma  banqueta e diversos outros apetrechos do seu local de trabalho.  Aos gritos e pontapés,  os agentes intimavam o pintor de faixas:
 
- Vamos, seu merda,  me dá um nome!... Vamos, me dá um nome, anda!!!...

 Lá fora, quase uma dezena de carros policiais, que mais pareciam infernizar o trânsito  com suas sirenes ligadas, aguardavam a saída do pintor,  ainda bem assustado e  temeroso dos novos e futuros acontecimentos.  Era visível que se fosse um Dom Quixote nessa hora, Miranda transformaria seus pincéis em lanças pontiagudas e espadas implacáveis;  dos seus lápis inocentes, que antes  se acomodavam no porta-trecos sobre a mesinha, Miranda  faria  zarabatanas com setas envenenadas pelo curare, ou transformava-os em atiradeiras de miras precisas...... Quem sabe ainda, dali, do seu ‘ateliê de pintura’,  um cubículo com paredes descascadas, com a estreiteza de dois metros  por quatro e pouco, onde  mal  cabiam as suas  faixas estendidas, quem sabe dali,  do seu minúsculo cômodo sublocado no centro da cidade, Miranda,  com seus pincéis ágeis, criaria  os vestígios de um campo de relvas, feito uma clareira aberta em meio à floresta, para que pudesse como o Cavaleiro Andante, combater o  bom combate e  escorraçar de vez e para sempre os  seus  opressores;   enfrentaria  os agentes, seus algozes, em campo aberto,  mas  antes  anunciaria  a façanha  ao som de trombetas e clarins, como uma aventura necessária à sua  vida tão carente de novas dimensões até aquele maldito dia...   Miranda, por certo, usaria  para si,  da mesma descrição  que o “Manco de Lepanto” dirigira a si mesmo:  “este que aqui vês, de rosto pontiagudo, de cabelo castanho, testa lisa e desembaraçada, de olhos alegres e nariz curvo (...)  os bigodes grandes, a boca pequena, os dentes nem miúdos nem grandes, porque não tem senão seis, e estes mal acondicionados e pior postos, porque não têm correspondência uns com os outros...” Aprisionado entre as paredes daquele estreito corredor, em meio a seus objetos  de trabalho espalhados pelo chão, Miranda, depois de atirado ao solo várias vezes pelos  Agentes, e  já cansado da pancadaria vinda das mãos fortes daquele grupo, agora prestava-se a ouvir os apelos insistentes para que ele, Miranda, abrisse o bico; Os Agentes insistiam para que ele, Miranda, desse com a língua nos dentes;  entregasse a eles,  os Agentes, alguém de cima: o seu Chefe, o seu Líder, o Mandante, o Mandão, o Déspota!...  Os Agentes pressionavam para que ele, Miranda,  caguetasse um nome;   se preciso, agisse sem pena, sem piedade, sem dó nenhum... Ali, como um bicho enjaulado, Miranda, quase em comoção, completaria para si mesmo de uma maneira ‘nada exemplar’:  “ Este que aqui está,  digo, este que aqui vês, trôpego, arruinado,  exposto hoje ao vexame público, desenganado, um miserável  traste em mãos alheias,  um cachorro morto que continua a ser chutado, sem que qualquer culpa tenha nesta vida... este,  este sou eu,  Miranda Martins, cujo primeiro emprego foi o de ‘Estafeta’ na Gráfica Moderna de São Paulo. Quase uma vida como  impressor gráfico. Eu, o Miranda, a quem sempre diziam:  Anda, Miranda, anda!...”  Miranda lembrou-se que ao compor os textos na bancada da Gráfica Moderna, na maioria das vezes sozinho, sentia  um medo danado da morte, pois temia que um dia morresse ali solitário e esquecido,  sob o som alto e continuado da Impressora Minerva.  Entretanto, nada disso acontecera, mas o receio da morte rondava-o novamente,  diante daqueles carrascos à sua frente.  Então, como quem quisesse ganhar tempo, Miranda esclarecia aos Agentes que na Moderna aprendera,  por exemplo,  que Ottmar Mergenthaler, o Otto, dizia o Miranda, fora  o inventor da ‘Linotipo’, nome aportuguesado de uma máquina de composição, que fundia em chumbo, linhas inteiras de ‘tipos’ em um único bloco. Na verdade, insistia Miranda, havia quem  a chamasse de “A oitava maravilha do mundo!”... Diante da insistência de um Agente, Miranda explicou-lhe  que ‘tipo’  se referia às letras do alfabeto, aos sinais gráficos  e a todos os outros caracteres usados  para criar palavras, sentenças, blocos de texto, etcetera e tal.   Afirmou também para os Agentes que a sua função, antes da Linotipo,  era organizar  as letras para o bloco de impressão nas maquinas tipográficas. E assim que as antigas impressoras perderam lugar para as modernas offsets, ele, Miranda,  perdera também, o  emprego na Gráfica Moderna de São Paulo... Miranda reiterava para os  homens da lei,  que hoje era apenas um  pintorzinho de faixas, quer dizer, fazia também  alguns banners,  algumas placas, além de cartazes e painéis...  E, ali,  na frente de todos eles, jurava  por Deus nosso Senhor e  pela Santíssima Nossa Senhora Aparecida  que no dia de ontem fizera, sim, fizera aquela faixa inocente a que eles se referiam.   Uma faixa com uma  mensagem de amor.  Miranda esclareceu que fez  o serviço a pedido de um Motoqueiro que nem mesmo o capacete havia tirado da cabeça, por isso, ele, Miranda, não vira sequer o rosto do homem, que nem era  muito baixo nem era muito alto.  A moto, aquela sim, ficara ali parada, ali onde agora estão as viaturas; uma moto verde oliva, ali mesmo  junto ao meio-fio da rua.   Mas os Agentes, de imediato,  retrucaram que tudo bem, Seo Miranda, entretanto, a mensagem, saiba o senhor,  era um  “SALVE GERAL” para uma contra-ofensiva comandada pelos presos  diante da proibição de visitas intimas no presídio. Havia quem dissesse também, Seo Miranda,   que era uma represália à linha dura do governo, que impedira a  saída  do Dia das Mães para os  detentos do semiaberto.  Portanto, ele, Miranda Martins, a pessoa jurídica, fora entregue aos policiais como o local onde se produziu  o “SALVE ”, quer dizer,  a faixa solicitada pelo homem da  moto.  Agora, ele, ‘Seo Miranda’, a pessoa física, dava pinta de não querer facilitar as coisas.  Dificultava até.  Custasse o que custasse, mas tinha de ter um nome.   Assim, disseram os Agentes,  tudo ficaria  muito mais  simples, não é mesmo, Seo Miranda?  Afinal,  algo não estava se encaixando bem, disseram os Agentes.  Faltavam peças neste quebra-cabeças. Faltavam letras  nesse texto. A frase completa não fazia sentido, diziam. Estava sem coerência. Toda oração merecia  sujeito e predicado,  Seo Miranda de merda!... Algo está em falta nesse seu discurso,  seja uma crase, um  acento grave,  ou  uma linha a mais que realce os contornos dessa historiazinha mal contada, Seo Miranda imprestável. Por isso, Mano, abre o bico!... Caguete, alguém, vamos!... Vomite uma oração com início, meio e fim,  seu bosta!...   Aponte  o caminho dessa narrativa;  Diz aí, Seo Miranda, quem é o protagonista, o herói, o mocinho?;  onde anda o sujeito, Seo Miranda?   Não faça nós, os Agentes, perdermos a nossa compostura. Vamos, seu merda, vomite um nome,  me dá um nome, um nome!...Anda, Seo Miranda, anda!... O verso livre, Seo Miranda, incisivo, direto... A nota de rodapé que tudo esclarece, o parágrafo inteiro, completo, vamos, Seo Miranda, não temos aqui uma  vida inteira!... E outra coisa, Seo Miranda – prosseguiram os Agentes -  Sabemos que  o senhor começou a trabalhar como Estafeta,  uma espécie de office-boy, já que Estafeta era o nome que se dava pros meninos lá  em Portugal, para aqueles  que trabalhavam em escritórios ou empresas fazendo serviços  sem muito valor, de pouca importância e complexidade... serviços  sem muito prestígio, coisa assim como ir ao banco fazer um pagamento de contas ou andar para fazer  entrega de documentos, essas coisas. Era uma tarefa  de jovens que ainda não tinham lá seus estudos completados e precisavam de dinheiro para ele mesmo ou pra ajudar a família;  havia quem passasse uma vida inteira nesses empregos... Os  office-boys, que hoje os tempos se encarregaram de modificar, são os atuais Motoqueiros e Motoboys,  que agora já não são mais garotos, mas ao contrário,  são praticamente homens formados ou jovens com idade mais avançada, acima dos dezoito, e às vezes ultrapassando os vinte e tantos; nas grandes cidades, eles formam, hoje, um exército motorizado a ziguezaguear pelas ruas ...Enquanto ouvia, Miranda era empurrado para dentro do camburão,  sentindo-se reduzido  a um homenzinho  infeliz e desastrado.  Miranda contemplava pela porta semiaberta,  os sinais da destruição no seu  estreito corredor de  dois por quase cinco; sentia-se triste vendo espalhados pelo chão, atirados a esmo pelos estabanados Agentes, o seu armário, a sua mesinha, os cavaletes, os pincéis, os lápis,  as latas de tinta e de querosene, os tecidos, a sua banquetinha quadrada, com as laterais mais altas pra  facilitar-lhe  o apoio dos apetrechos... Miranda lembrou-se que  ficara lá, também, o  peso de papel, um pedaço de madeira com uma chapa de  metal fixada, em que se  via o desenho invertido de uma Águia... Um ‘clichê’ que Miranda guardara desde os tempos  da Moderna. Bastava que algum cliente apenas olhasse pro objeto, e Miranda discorria contente,  sem titubear  “Ah. isso é um clichê. Uma chapa  para impressão em relevo, usada nas antigas tipografias. Olha só, aqui a tinta não entra. Aqui entra. Quando a chapa pressiona o papel, pronto, a Águia surge soberana no claro-escuro, a cortar o céu!
 As veraneios  dos agentes, agora, já davam sinais de manobra, e Miranda revia o filme daquela manhã  terrível de setembro.  Lembrou-se que  chegara ao terminal de ônibus e ali, como todos,  dera se  conta do tamanho do estrago. A cidade estava mesmo de joelhos diante do  crime organizado.  Ainda nem raiara o dia e o saldo já estava contabilizado: incêndios em garagens públicas,  carros metralhados,  coquetéis molotov  explodindo em delegacias,  bombas caseiras estourando vidros, ataques relâmpagos nas bases móveis,  carros em chamas jogados contra agências bancárias,  caixas eletrônicos carbonizados,   ônibus incendiados nos terminais,  gritos, correrias, tiros e bombas na madrugada inteira... Sob um som cortante de sirenes indo e vindo, ambulâncias e carros policiais cruzando as longas avenidas ou mesmo subindo em canteiros de pedestres, ninguém poderia deixar de ver os estragos consideráveis que exalavam da temperatura quente daquela madrugada. Diante da paralisação geral do transporte público na região, todos seguiam andando avenida acima em direção ao centro da cidade.  Vez ou outra, nos bares e botecos, já se ouvia os plantões da televisão com os  primeiros informes e comentários:  agentes policiais mortos, ônibus queimados, gente ferida e em estado grave, prédios públicos metralhados, vidros estilhaçados pelo chão...A ação comandada pelos internos aprisionados fora mesmo  uma represália contra o sistema carcerário, garantiam!  As escutas  telefônicas, grampeadas pela polícia, apontavam para um  “SALVE GERAL”. A referência, comentada pela jornalista da tevê, fez com que Miranda desviasse os olhos para o bar.  - Uma frase de amor!... – insistia a  repórter. Miranda, de forma automática,  repetiu o texto para si. E se pudesse olhar com mais atenção, teria percebido que a frase que espocou na tevê,  acentuou-lhe  uma sonoridade carregada de culpa. Pelo menos era assim que seus batimentos cardíacos se manifestaram. Os sinais de impaciência tornavam-se agora bem mais visíveis. Sem conseguir explicar para si mesmo, o como e o porquê, Miranda sentia-se cúmplice do que enxergava e ouvia. O seu olhar, ao longo do caminho, parecia  denunciá-lo às centenas de trabalhadores que ali caminhavam.  Talvez por essa razão, seus  passos ganharam outro ritmo, continuado, acelerado, uma corrida contra o tempo;  e o que  lhe vinha à cabeça naquele momento, era somente o  texto escrito no papel-rascunho que havia  deixado sobre a sua bancada, seguro pelo peso do clichê tipográfico.. Entretanto, sem que soubesse como, os Agentes se anteciparam à sua chegada e lhe prepararam o flagrante. Fora apenas o tempo de rodopiar a chave no cadeado e eles surgiram sabe-se lá de onde!  Agora, quebrado e alquebrado, com hematomas visíveis pelo corpo, surrado e torturado física e psicologicamente,  Miranda, longe de saber para onde o levariam naquele passeio sem fim,  viu surgir-lhe na mente as  páginas de uma  antiga brochura que  imprimira na gráfica Moderna: Dom Quixote!  Lembrou-se melhor: Dom Quixote de La Mancha, o romance de Miguel de Cervantes! Miranda recordou-se de uma prova de página que lera para revisão. Lembrava-se ainda da fonte utilizada: maiúsculas e minúsculas em garamond, corpo 12,  romano.  E   sem que se desse conta saiu lhe da boca um sussurro alto:   Dom Quixote!... Voltou a repetir aos brados: -  Dom Quixote de La Mancha!... Enquanto Miranda regurgitava  o nome do imortal cavaleiro,  os Agentes policiais,  atônitos e boquiabertos, em uníssono, cumpriram as ordens de se reunirem  em confraria, numa espécie de assembleia de avaliação;  algo como uma banca examinadora que fixasse pontuação para a adequação ao tema,  para o desenvolvimento do texto, encadeamento das ideias, coesão, coerência, ortografia e dificuldades gramaticais. E assim, os Agentes chegaram imediatamente  a um veredicto: foram unânimes em afirmar que  avançaram.  Sabiam que o caminho era esse.  Miranda não era mesmo um reles  pintorzinho de faixas como previram,  nem sequer  um inocentezinho pra inglês ver... Não!... Hoje, Miranda estava ali entregando o ouro sobre a  mais recente e  perigosa facção surgida no interior do sistema prisional:  Dom Quixote!  Sim, diziam os Agentes,  agora estavam prontos  para uma nova investida.  Agora, agora tinham um nome. Agora, agora era escancarar as portas para a imprensa.  Afinal, não basta só botar o ovo. É preciso cacarejar: Dom Quixote! ...Operação Dom Quixote!!! – diziam sorridentes e aos brados, sob o som das sirenes e buzinas, comemorando a descoberta da  facção que, ou já existia ou estava sendo plantada nos corredores do presídio. Sim, estava claro, o ataque fora encomendado por uma nova e recente força:  Dom Quixote!... Algo como uma luta dos amotinados contra os gigantes controladores do cárcere;  algo como  uma proposta de implosão do sistema prisional; ou ainda, quem sabe,  um combate sem trégua para ridicularizar os promotores e os agentes da lei. E tudo isso regado a muita ironia e blasfêmia. Sim, concluíram os Agentes: naquele dia 12 havia surgido  um novo modelo de célula,  inclusive com uso de amigos, parentes,  pilotos e celulares... Operação Dom Quixote!...  Tivesse olhos pra todas as coisas, Miranda veria que  os Agentes naquele momento  sequer  lhe davam atenção, quando, insistentemente,  repetia as palavras que ouvira do Motoqueiro:  “ quero as  letras bem grandes, Seo Pintor...Assinar não é preciso, não! O Anjo me conhece, Seo Pintor.  Deixo o pagamento adiantado e  retiro à tardinha... E motoboy tem folga, Seo Pintor? Folga nenhuma. O dia inteiro no vai e vem dessa cidade. Entrega e busca. Leva e traz!...Tivesse  mais atento ao entusiasmo que causara aos  Agentes,  que riam e riam em sinal de vitória sob os sons desconcertantes das sirenes,  Miranda perceberia  que a conversa que ouvira do falso motoboy pouco lhes interessava naquele momento, entretanto, Miranda continuava contando: “Porcelana fina, Seo pintor!... Uma Diana, essa mulher!...  Deusa Grega, essa Vênus platinada... Pois quero fazer-lhe uma surpresa, Seo Pintor. Quero ver a faixa  estendida bem lá  na  esquina,  bem ali no cruzamento da avenida por  onde ela passa todo dia”   Miranda registrara as lembranças com nitidez e precisão. E por essa razão empolgava-se com sua memória. A ele, Miranda, parecia-lhe que cada palavra, cada frase que dizia, transformava-se em testemunha ocular para a  sua própria liberdade. Sua memória, portanto, poderia  servir-lhe de álibi infalível pra escapar dessa bruta  enrascada em que se metera. Naquele instante,  era como se ele, Miranda, tivesse se transformado no próprio Motoqueiro em pessoa, tal a empolgação dirigida aos Agentes: “ Essa mulher é como uma princesa, Seo Pintor.  Preciosa como um objeto raro que se guarda na Cristaleira. Fosse de vidro, Seo Pintor, seria  um ‘Murano’, translúcido e colorido,  com traços feito à mão, coisa de artesão  que se consagra soprando belezas raras com a cana de vidreiro.  Fosse uma paisagem,  Seo Pintor, habitaria os campos resplandecentes de um amanhecer esplendoroso...  Cuido que nunca se  quebre esse vaso Chinês, Seo Pintor. Nunca!.. Essa mulher,  eu carrego aqui  no meu  coração...Pois escreve  aí  nessa faixa com as letras  grandes, Seo Pintor, bem grandes,   assim ó:  BIBELÔ, EU TE AMO!” Ainda que os Agentes não lhe  dessem a mínima,  Miranda esclarecia a eles que até rira de si mesmo diante do trabalho que fizera, e confessou que  “ para um tipógrafo-minervista até que se saíra muito bem como um pintor de faixas!”.  Miranda explicou ainda, que desenhara  as letras sobre o tecido branco. A mensagem, esta destacara em vermelho-vivo,  cor quente, a cor da paixão. As letras ganharam assim um jeitão bold, pesadas,  com um ligeiro filete em preto, que era  pra saltar aos olhos da musa do Motoqueiro.  Pois não fora assim, o pedido?  Então, o Motoqueiro não lhe implorara o máximo empenho pra lhe atender a um desejo do coração? Alheios e indiferentes, os Agentes todos, como fosse um pacto, um sinal de aviso,  uma combinação prévia,  uma estratégia armada para dar inicio à Operação Dom Quixote, cruzavam com seus veículos em marcha moderada, depois de muitas  idas e vindas rodando com as possantes viaturas.  Agora, chegavam ao destino em silêncio gradual e profundo.  Uma a uma, simultaneamente, as portas escancaram-se para a saída dos Agentes que, calados todos, diante daquele cenário de relvas, num campo aberto tal qual uma clareira à espera de  acontecimentos,  a um só tempo, e juntos,  pareciam remoer aquela maldita frase reiterativa: Dom Quixote!...Operação Dom Quixote!. Todos, ali, pareciam sentir na própria carne aquele  golpe fulminante que sofreram diante da frase estampada numa faixa de rua: BIBELÔ, EU TE AMO!... Por isso, o revide. Por isso, o revide a quem ameaçara colocar  a cidade em pé-de-guerra naquela  fatídica manhã de 12 de setembro, era, pois, inevitável. O fato  exigia dos Agentes  um olhar para o  avesso do avesso do avesso.  Por isso,  de olhos vendados pelos seus algozes, e desatento às urdiduras todas no demorado passeio daquela manhã,  Miranda descera do camburão amaldiçoando o seu dia,   sentindo um  suor frio  percorrer-lhe a espinha ao compreender  que ali,  bem próximo dele,  os grupos  se dividiram:  de um lado,  alguns  Agentes marcando um ritmo cadenciado na palma das mãos, chamando-o  aos gritos, de  forma alternada e incessante: anda, Miranda, anda!... anda, Miranda, anda!...e de outro, os demais ensaiavam uma seqüência ruidosa  de sons metálicos, tal qual gatilhos em preparativos pipocando na sua frente, martelando seu ouvidos, ferindo seus tímpanos continuadamente...   

terça-feira, 5 de maio de 2020

Duelo sobre a mesa - Conto


DUELO  SOBRE A MESA 





Um dos peritos, impressionado pelo fulgor do embate, chegou a citar, textualmente,  “o caótico rio de pedras”,  narrado pelo escritor  Umberto Eco*. E não sem razão; há de se acreditar, insistia o perito,  que no auge desse enfrentamento imperioso, o interior de ambos seguia em contínua ebulição, revelando uma torrente furiosa, tal qual uma “correnteza de grandes rochas informes, placas irregulares e cortantes como lâminas, e amplas como pedras tumulares (...). Aos olhos do perito, fora assim o duelo entre  Dona Branca e o Professor Pio. Quem os conheceu no dia a dia  informava que as desavenças entre ambos, não raro, surgiam  após um  silêncio profundo; nessas horas o ar ficava pesado e  fazia brotar,  às claras, um rancor íntimo desencavado. Acredita-se, informam os peritos, que esse conflito pode ter sido acentuado  pelo toque de se recolherem ao lar, uma vez que integravam o grupo de risco imposto pela Pandemia. Foram encontrados, ali, sentados, frente a frente, na mesa da sala; cada qual em seu canto  com a cabeça curvada e apoiada sobre o braço;  o olhar de cada  um deles parecia,  certeiramente,  dirigido ao outro. Lá estavam,  inertes, até a descoberta. Cansado de ligar para os pais, o filho informou ao Zelador do prédio, e este,  pressentindo algo estranho, levou o caso  à  polícia, que, instantes depois, solicitou a abertura do local e  posterior autópsia. O casal vivia há muitos anos naquele prédio do bairro. Ela, uma antiga professora de história; ele,  ex-chefe de laboratório de biologia da faculdade, onde se conheceram ainda bem jovens.  A perícia técnica apresentou anotações, laudos, infográficos  e fotos, destacando um considerável número de Palavras Cruzadas abertas; um Volume sisudo de cor marrom;  dois Dicionários que,   pelas digitais,  disseram os peritos,  o Caldas Aulete seria o  da Mulher, e o Aurélio, o do Homem.  A perícia indicou que as sandálias da Mulher deixaram rastros. Observou-se  que teria se deslocado até à cozinha, onde tomara café na térmica;  depois,  deteve-se  na estante da sala, de onde retirou o Volume marrom, que destacava na página interna: “Instrumentos de Guerra da Antiguidade”. Segundo a perícia,  tratava-se  de relatos sobre   estratégias dos antigos exércitos, como o  “Apito da morte”, descrito, ali, como “um objeto sonoro criado pelos Astecas, que simulava  estridentes gritos  de pessoas em sofrimento,  induzindo os adversários a um estado de transe desesperador.”  Apanhado o livro,  Dona Branca  se dirigira  à mesa do embate.  Então, ali, o duelo teve início para ambos.  Cada qual com os seus compêndios de Cruzadas. Segundo os peritos, era quase possível “ver” a agilidade da Mulher no desafio das verticais e horizontais, sem tréguas ao adversário;  indicaram ainda, que, em  determinado instante, os olhos da Mulher foram  ao encontro dos olhos  do Homem.  O abalo causado por esse olhar, disseram eles, fragilizara o  oponente.  Na praça de guerra,  o espalhamento das revistas acenava com que a estratégia do Homem seguia rápida com rigorosa atenção nas armas de combate.  Ao Homem, fortaleciam-lhe as  publicações relativas a  filmes, teatro, música,  biologia  e literatura química. Novamente, “pressentia-se”  a voz  da Mulher de forma  explosiva  no território da disputa. Podia se ler, com clareza, uma das perguntas: “Animal mitológico associado à virgindade, tem a  forma de um cavalo com um único chifre frontal?”.   Bingo.  “Unicórnio”. Assim assinalara a Mulher.  Ao Homem,  restava-lhe o sofrimento frente à  pergunta quase sussurrada: “- O  nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo?”. Segundo os peritos, os sinais mostravam, vivamente, que o professor Pio  estancara-se com a caneta no ar; pois sentia, naquele embate infernal, a Mulher apontando-lhe as  armas de Guerra. Aquelas tamanhas e poderosas, como a Catapulta, arma de ataque capaz de quebrar barreiras dos homens, especialmente, os encastelados  e protegidos em  cidades muradas.  Haveria de destruí-lo, caso ele persistisse. Lançaria sobre seu adversário as mais potentes armas,  que haveriam de liquidá-lo no interior do palácio.  Recuasse, portanto,  ou então,  receberia o golpe  mortal:  haveria de lhe atirar a maldição das  esposas incompreendidas!... Para os peritos,  a mente do Homem dirigira-o  para a área química. Ou ele a superaria agora ou haveria de viver  a maldição das esposas  abandonadas. O Homem sussurrava, exalando suor frio. Ele sentira o baque. Doeu-lhe a força desse punho gigante da Mulher à sua frente.  Por isso, olhava, agora, de dentro do seu próprio silêncio, para dona Branca,  enquanto  lançava  mão do seu  Aurélio:  - O nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo!...   No entanto, as tentativas se mostraram  infrutíferas e o  silêncio fora  quebrado, apenas,  pela  retórica ascendente  da Mulher.   “ - o  Santo Graal também é chamado de.....?”.  Neste ponto,  os peritos adicionaram ao laudo:  “ na sala avolumada de  silêncio, podia ser percebido os contornos grandiosos dos olhos  do Homem e da Mulher,   como fossem eles, Dona Branca e o Professor Pio,  os guerreiros autênticos  das   antigas Cruzadas, os  soldados de Cristo.”.  Então, enquanto a Mulher já se  debruçava  nos desafios da sua  Coquetel Super,  um certo  vazio  se instalava  no ambiente.  Agora,  as horizontais da Passatempo do Homem pediam ajuda aos deuses da sabedoria:  “ - Trepadeira comum em muros -  com quatro letras?  - A flor da idade, no sentido figurado -  com nove letras?”... Enquanto o Homem  entendia a  necessidade urgente dessas  respostas,  ela, a Mulher, garantem os peritos, ganhava distância  a olhos vistos. As palavras cruzadas exigem mais que  uma brincadeira - ironizava em seu silêncio -  como se mostrasse a ele, ao Homem,  que as Cruzadas não brincam.  Então, a Mulher preparou-lhe  um  olhar fulminante repleto de força bruta sonora:   “Lutar com palavras  é a luta mais vã.  Entanto,  lutamos  mal rompe a manhã(**)”. hghE tomada pelo poder dessas palavras ditas,   eis que, então, sob suas mãos, elas, as palavras,  ganharam formas definidas de ataques:  primeiro  as pontiagudas,  depois as  cortantes,   e por fim,  as explosivas... E assim, a Mulher  lançara, inapelavelmente,  sobre Homem, os seus escudos especiais. Ao Homem,  restava-lhe manter a distância adequada para não ser ferido de morte. Mas para sua festa surgiram os filmes, teatro, música,  artistas  e afins.  O Homem sorriu largo,  pois, se sentia no páreo; E assim seguiu ele, devorando com gulodice as suas anotações:  - Em que cidade nasceu Yusuf Islam  ( conhecido como Cat Stevans?)   - Qual série de TV tinha como protagonista o Ator Peter Falk?  ... Como  previsto, o Homem avançou  três  compêndios e cinco páginas, mas ainda era pouco. No entanto, com o rabo-dos-olhos ele percebeu que a incomodara.  A Mulher, ali, embatucara-se diante dos  símbolos químico....Ele ouviu, sim,  a ênfase retórica,  insistente, carregada  de  nervosismo:  - Enxofre?.... Lítio?...A mente não lhe faltaria nessa hora – sorriu triunfante.   A  toxicidade das substâncias químicas dançava  à sua frente,  como um gás mostarda, cloro,  ácido cianídrico...  mas ele, ali,  definira-se pelo Napalm -   O  gel pegajoso e incendiário  usado nas guerras trágicas do  Vietnã, Laos e Camboja... porém,  confessava a si mesmo que não viveria a dor do engenheiro Jeff O. Stanford – Chefe do Laboratório Químico dos USA,  responsável pelo envio do Napalm às frentes americanas que, diante do grito antibélico do mundo, e culpando a  si mesmo  pelo genocídio,  suicidara.  Assim, a Mulher, novamente, ganharia a dianteira: - Península que abriga a Grécia e a Croácia?  - Nome de Deuses da Mitologia Grega?... E então,  decidida  a trucidá-lo, sem perdão,  tomou para si as armas decisivas.  Com destreza e maestria, Dona Branca apossara-se dos Estrepes e Culverins; segundo os peritos,  “armas medievais atiradas  contra a  cavalaria inimiga”. Desviando desse campo minado,  o Homem titubeava em seu abecedário: - Substância encontrada em vegetais, de grande importância  para o funcionamento do intestino?. Os passos  seguintes formariam a barreira implacável. O Homem sofria a cada pergunta que preferia  não ouvir:   - O maior império do mundo (em duração)? - Rei pagão denominado pelos judeus como o Messias?... As muralhas e fortificações,  postas ao chão naquela guerra,  levaram-no à rendição. O ar, agora, lhe faltava – disseram os legistas. Portanto, febril, cansado e ofegante, ele se acomodara sobre a mesa, com a cabeça inclinada no braço curvado, e o olhar, certeiramente, dirigido às  pupilas da Mulher.  E então,  a Mulher, com sua respiração traumática naquela batalha sangrenta,  em que vencera  o homem encastelado, numa luta silenciosamente inumana, reconhecera no antagonista, conforme a perícia,  um guerreiro, alguém de valor  e  à altura, o que a  levara à rendição definitiva.  A ausência do ar, agora, sufocava a ambos – disseram os exames. Portanto, também ela, Dona Branca,  acomodara-se na mesa com a cabeça inclinada  e o olhar certeiramente dirigido às retinas do professor Pio!... Fortalecendo a narrativa técnica, o perito retomaria o “caótico rio de pedras”, criando, aleatoriamente, um  apoteótico final:  “nenhuma voz humana podia se fazer ouvir naquele instante fatal sobre o duelo na mesa;  embora ambos, ali,  tivessem o desejo de falar, de se despedirem de toda a carga de emoção que arrastavam consigo, não conseguiriam. O ‘rio de pedras’ interior que os conduzia, enfurecia-se cada vez mais, levando tudo ao redor  para as invisíveis vísceras da terra, pulverizando cascalhos, blocos e rochas para exprimir, talvez,  a impotência maior  do Homem e da Mulher frente ao embate  do vírus vencedor.”  









Nota:  (*) Umberto Eco – Confissões de um jovem romancista. Ed. Record/2018.
 (**)   Versos do poema    “O Lutador” – Carlos Drummond de Andrade. 

sábado, 2 de maio de 2020

O SORRISO DA TARTARUGA Crônica de Celso Lopes



O SORRISO DA TARTARUGA



Na  fábula que todos conhecemos, A Lebre e a Tartaruga,  quem sobe ao pódio,  depois do “descaso” e do  “cochilo” da Lebre durante a corrida, obviamente,  é  a própria Tartaruga;  no entanto, desta vez, a Tartaruga terá que enfrentar um Sapo... Bem, na verdade, um Sapo tecnológico, é claro!...

Assim, avessa às tecnologias de ponta, a antiga vencedora, agora, vai perder o trem, quer dizer, a corrida... Mas, acalmem-se – continuamos torcendo,  torcemos para que ela  chegue  a tempo, e ainda possa  “nadar” de braçada e “sorrir tranquila” pelos sete mares afora.

Isso porque, essa tranquilidade, nos últimos tempos tem esbarrado num “vilão marinho”, ou seja, o material plástico em suas  várias formas: quer sejam sacolas, garrafas pet, canudos, redes de pesca, isopor  e outros milhões de resíduos  descartáveis  made-in-polipropileno – matéria-prima  inerente a essa indústria de transformação. De um lado, os detratores desse uso desenfreado  do plástico e ávidos por  alternativas “Sustentáveis”; e de outro,  a indústria, entidades e profissionais que pregam o uso consciente do plástico, ou seja, uma educação ambiental efetiva, circular e  mais incisiva, e obviamente, comprometida em salvar o  planeta e todas as espécies terrestres e marinhas, a tempo. 

À parte isso,   uma boa notícia para ambos!... 

Alguns  cientistas dos USA,  acabam de criar um “robô-vivo”, a partir de células-tronco de sapos africanos, de nome Xenobots, que medem, aproximadamente,  um milímetro, e tem a função programável para trazer ou levar substâncias.  

Aonde, por exemplo?  

Os cientistas adiantam: esses organismos vivos e programáveis poderão transportar remédios pelo  corpo, viajar pelas artérias para remover placas gordurosas e, aplausos!... poderão, quem sabe,  formar um exército-tarefeiro de milhões de Xenobots  para  coletar microplásticos dos rios, mares e  oceanos.

E para não dizer que os cientistas não falaram  de flores...

Os Xenobots são totalmente biodegradáveis, e  parecem cumprir  uma instrução Bíblica saudável  sobre a função do trabalho, somente que, diferente do descanso bíblico  no sétimo dia, esses fieis-escudeiros, após a sua  labuta do dia a dia, morrem, ou seja, transformam-se em células mortas – afirmam os pesquisadores.

Na fábula conhecida da  Lebre e a Tartaruga, a moral da história  pode relatar, entre outras possibilidades, que “devagar se vai ao longe”. Porém, nesta fábula contemporânea, com esses novos  “atores” e “historiadores” do futuro, queremos crer que  haja uma outra leitura possível.

Assim, as Tartarugas, sejam  elas, de água-doce, como a Tartaruga-Tigre do pantanal,  ou  Tartarugas marinhas, principalmente as  brasileiras ameaçadas, como a Cabeçuda, de Pente, Oliva, de Couro, e até mesmo a Tartaruga-Verde, todas elas, acreditamos, ganharão status de ‘sobrevivência sustentável’, e poderão abrir um doce e   largo sorriso;  e, ainda,  de “quebra”,  a cooperação mútua, a cargo dos Sapos-robôs  Xenobots, com certeza, contribuirá para diminuirmos ou eliminarmos, de vez,  o excesso de  ações predatórias e irresponsáveis  que atingem todo o  meio ambiente.





DIÁLOGOS À BEIRA DO 'COMA' - crônica Celso Lopes


Diálogos à beira do “coma” 


                                            

No filme, Fale com ela, (Hable con ella), do diretor Pedro Almodóvar, os personagens masculinos (enfermeiro e jornalista) e os femininos (bailarina e toureira), estabelecem uma relação intensa no hospital, onde ambas se encontram em coma.  Marco, o jornalista, acredita que elas estão mortas. Benigno, o enfermeiro, que cuida da bailarina (Lydia)  aposta num “milagre” e aconselha Marco: “Fale com ela”... “Fale com ela”... e é o que ele fará, de certa forma, dialogando com o longo silêncio de Leonor ( a toureira).
Esse, digamos,  monólogo, que no filme ganha  contornos de  diálogos, pode, apropriadamente, tornar-se uma “ferramenta essencial”, também  nesses tempos de pandemia.  Imagine-se como um paciente terminal. Você está internado, próximo ao fim, mas você ainda escuta. De repente, ao seu lado alguém diz:   “ - Farei o possível pela sua vida!...”
Até aí, alguns pontos a considerar:  primeiro, esse alguém, o médico ou  profissional  especializado,  poderia estar fisicamente ali, desde que fosse possível,  e com todos os cuidados de um não-contágio, especialmente, frente a um vírus pandêmico, como é o caso do recente coronavírus.   Segundo ponto, o médico ou esse atendente especializado, estaria  acompanhando você, via equipamentos de “Telemedicina” – com uso de som e  imagem de vídeo;  com a ressalva de que,  até pouco tempo, esse procedimento sofria certo viés contrário, uma vez que, culturalmente, exigíamos dos profissionais de saúde um estreito contato com o paciente. Digamos que, quanto mais  melhor, acredito que era assim que todos nós pensávamos.   Mas há uma outra consideração que salta com relevância neste enfoque.
E vem de uma experiente profissional no trato com Cuidados Paliativos; um enfrentamento habilidoso, entre médico-paciente  diante de doenças dolorosas e incuráveis. Tendo à frente,  doentes que não podem receber visitas, a médica  Ana Cláudia Quintana, tema desse texto, adianta que a importância do profissional de saúde nessa hora,  alcança uma conexão fundamental e de extrema confiança ao paciente.  Para a doutora -  no  momento da nossa maior fragilidade, em que estamos morrendo, e todas as medidas de sobrevivência já foram tomadas, não respondemos mais aos  estímulos, mas ouvimos de um  profissional ao nosso lado:   
“ - Farei o melhor que puder pela sua vida. Você é muito corajoso!...”
Para Ana Cláudia, esse gesto cuidadoso ganha proporções de reflexão sobre a nossa finitude, tornando, não-necessariamente,  a morte digna, mas sim, a vida digna.  Por isso, acrescenta:  “ Se  a última coisa que você ouvir na sua vida for isso, vai ter valido a pena.  Não é nem para salvar a sua vida, mas (fazer) o possível pela sua vida.”.  A abordagem da médica, entre outros pontos importantes, avança, com propriedade, para esse momento restritivo imposto pela  “pandemia” causada pelo Coronavírus,  em particular sobre o  impedimento presencial junto ao leito,  de familiares, ou  mesmo, de profissionais de Saúde,  numa fase delicada  da perda do ente querido. Em sua ótica, quando se vê o corpo, sepulta, chora, faz missa, faz rezas, esse ritual cria e garante uma estrutura de segurança a quem fica;  é como se fizéssemos uma  trilha sinalizada.  “ Sem essa ritualização, a emoção da perda é arrebatadora” – conclui.
Médica com grande reconhecimento na sua área, e autora de livros como “A morte é um dia que vale a pena viver” e “ Histórias lindas de morrer”, Ana Cláudia Quintana parece construir, e constrói,  cuidadosamente, aquele “milagre” da narrativa do filme, apostando todas as suas fichas, sabiamente e  humanamente,  nesse aparente e improvável “diálogo” entre os médicos e pacientes.




Texto:  Celso Lopes

Fonte: Mariana Alvim - @marianaalvimDa BBC News Brasil em São Paulo (12/abril/2020).