O autor Celso Lopes é natural de Guará, interior do estado de São Paulo, e está radicado na capital paulista há vários anos.
sábado, 13 de junho de 2020
terça-feira, 5 de maio de 2020
Duelo sobre a mesa - Conto
DUELO SOBRE A MESA
Um dos peritos, impressionado
pelo fulgor do embate, chegou a citar, textualmente, “o
caótico rio de pedras”, narrado pelo
escritor Umberto Eco*. E não sem razão;
há de se acreditar, insistia o perito,
que no auge desse enfrentamento imperioso, o interior de ambos seguia em
contínua ebulição, revelando uma torrente furiosa, tal qual uma “correnteza de
grandes rochas informes, placas irregulares e cortantes como lâminas, e amplas
como pedras tumulares (...). Aos olhos do perito, fora assim o duelo entre Dona Branca e o Professor Pio. Quem os
conheceu no dia a dia informava que as
desavenças entre ambos, não raro, surgiam
após um silêncio profundo; nessas
horas o ar ficava pesado e fazia
brotar, às claras, um rancor íntimo desencavado.
Acredita-se, informam os peritos, que esse conflito pode ter sido
acentuado pelo toque de se recolherem ao
lar, uma vez que integravam o grupo de risco imposto pela Pandemia. Foram
encontrados, ali, sentados, frente a frente, na mesa da sala; cada qual em seu
canto com a cabeça curvada e apoiada
sobre o braço; o olhar de cada um deles parecia, certeiramente, dirigido ao outro. Lá estavam, inertes, até a descoberta. Cansado de ligar
para os pais, o filho informou ao Zelador do prédio, e este, pressentindo algo estranho, levou o caso à
polícia, que, instantes depois, solicitou a abertura do local e posterior autópsia. O casal vivia há muitos
anos naquele prédio do bairro. Ela, uma antiga professora de história;
ele, ex-chefe de laboratório de biologia
da faculdade, onde se conheceram ainda bem jovens. A perícia técnica apresentou anotações, laudos,
infográficos e fotos, destacando um
considerável número de Palavras Cruzadas abertas; um Volume sisudo de cor marrom; dois Dicionários que, pelas digitais, disseram os peritos, o Caldas Aulete seria o da Mulher, e o Aurélio, o do Homem. A perícia indicou que as sandálias da Mulher deixaram
rastros. Observou-se que teria se
deslocado até à cozinha, onde tomara café na térmica; depois, deteve-se
na estante da sala, de onde retirou o Volume marrom, que destacava na
página interna: “Instrumentos de Guerra
da Antiguidade”. Segundo a perícia, tratava-se de relatos sobre estratégias dos antigos exércitos, como
o “Apito da morte”, descrito, ali, como “um objeto sonoro criado pelos Astecas, que simulava estridentes
gritos de pessoas em sofrimento, induzindo os adversários a um estado de
transe desesperador.” Apanhado o
livro, Dona Branca se dirigira
à mesa do embate. Então, ali, o
duelo teve início para ambos. Cada qual
com os seus compêndios de Cruzadas. Segundo os peritos, era quase possível
“ver” a agilidade da Mulher no desafio das verticais e horizontais, sem tréguas
ao adversário; indicaram ainda, que, em determinado instante, os olhos da Mulher
foram ao encontro dos olhos do Homem. O abalo causado por esse olhar, disseram eles,
fragilizara o oponente. Na praça de guerra, o espalhamento das revistas acenava com que a
estratégia do Homem seguia rápida com rigorosa atenção nas armas de combate. Ao Homem, fortaleciam-lhe as publicações relativas a filmes, teatro, música, biologia
e literatura química. Novamente, “pressentia-se” a voz da
Mulher de forma explosiva no território da disputa. Podia se ler, com
clareza, uma das perguntas: “Animal
mitológico associado à virgindade, tem a
forma de um cavalo com um único chifre frontal?”. Bingo.
“Unicórnio”. Assim assinalara a Mulher. Ao Homem,
restava-lhe o sofrimento frente à pergunta quase sussurrada: “- O
nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo?”. Segundo os
peritos, os sinais mostravam, vivamente, que o professor Pio estancara-se com a caneta no ar; pois sentia,
naquele embate infernal, a Mulher apontando-lhe as armas de Guerra. Aquelas tamanhas e
poderosas, como a Catapulta, arma de ataque capaz de quebrar barreiras dos
homens, especialmente, os encastelados e
protegidos em cidades muradas. Haveria de destruí-lo, caso ele persistisse.
Lançaria sobre seu adversário as mais potentes armas, que haveriam de liquidá-lo no interior do
palácio. Recuasse, portanto, ou então,
receberia o golpe mortal: haveria de lhe atirar a maldição das esposas incompreendidas!... Para os peritos, a mente do Homem dirigira-o para a área química. Ou ele a superaria agora
ou haveria de viver a maldição das
esposas abandonadas. O Homem sussurrava,
exalando suor frio. Ele sentira o baque. Doeu-lhe a força desse punho gigante
da Mulher à sua frente. Por isso,
olhava, agora, de dentro do seu próprio silêncio, para dona Branca, enquanto
lançava mão do seu Aurélio:
- O nome de uma das sete maravilhas do mundo antigo!... No entanto, as tentativas se mostraram infrutíferas e o silêncio fora
quebrado, apenas, pela retórica ascendente da Mulher.
“ - o Santo Graal também é chamado de.....?”. Neste ponto, os peritos adicionaram ao laudo: “ na
sala avolumada de silêncio, podia ser
percebido os contornos grandiosos dos olhos
do Homem e da Mulher, como
fossem eles, Dona Branca e o Professor Pio,
os guerreiros autênticos das antigas Cruzadas, os soldados de Cristo.”. Então, enquanto a Mulher já se debruçava
nos desafios da sua Coquetel Super, um certo
vazio se instalava no ambiente.
Agora, as horizontais da Passatempo do Homem pediam ajuda aos
deuses da sabedoria: “ - Trepadeira comum em muros - com quatro letras? - A
flor da idade, no sentido figurado - com
nove letras?”... Enquanto o Homem
entendia a necessidade urgente
dessas respostas, ela, a Mulher, garantem os peritos, ganhava
distância a olhos vistos. As palavras
cruzadas exigem mais que uma
brincadeira - ironizava em seu silêncio - como se mostrasse a ele, ao Homem, que as Cruzadas não brincam. Então, a Mulher preparou-lhe um
olhar fulminante repleto de força bruta sonora: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto, lutamos
mal rompe a manhã(**)”. hghE tomada pelo poder dessas palavras ditas,
eis que, então, sob suas mãos, elas, as palavras, ganharam formas definidas de ataques: primeiro
as pontiagudas, depois as cortantes,
e por fim, as explosivas... E assim, a
Mulher lançara, inapelavelmente, sobre Homem, os seus escudos especiais. Ao
Homem, restava-lhe manter a
distância adequada para não ser ferido de morte. Mas para sua festa surgiram os
filmes, teatro, música, artistas e afins.
O Homem sorriu largo, pois, se
sentia no páreo; E assim seguiu ele, devorando com gulodice as suas
anotações: - Em que cidade nasceu Yusuf Islam
( conhecido como Cat Stevans?) -
Qual série de TV tinha como protagonista o Ator Peter Falk? ... Como
previsto, o Homem avançou
três compêndios e cinco páginas,
mas ainda era pouco. No entanto, com o rabo-dos-olhos
ele percebeu que a incomodara. A Mulher,
ali, embatucara-se diante dos símbolos
químico....Ele ouviu, sim, a ênfase
retórica, insistente, carregada de
nervosismo: - Enxofre?....
Lítio?...A mente não lhe faltaria nessa hora – sorriu triunfante. A toxicidade das substâncias químicas dançava à sua frente,
como um gás mostarda, cloro,
ácido cianídrico... mas ele, ali, definira-se pelo Napalm - O gel
pegajoso e incendiário usado nas guerras
trágicas do Vietnã, Laos e Camboja...
porém, confessava a si mesmo que não viveria
a dor do engenheiro Jeff O. Stanford – Chefe do Laboratório Químico dos
USA, responsável pelo envio do Napalm às frentes americanas que, diante
do grito antibélico do mundo, e culpando
a si mesmo pelo
genocídio, suicidara. Assim, a Mulher, novamente, ganharia a dianteira:
- Península que abriga a Grécia e a
Croácia? - Nome de Deuses da Mitologia
Grega?... E então, decidida a trucidá-lo, sem perdão, tomou para si as armas decisivas. Com destreza e maestria, Dona Branca
apossara-se dos Estrepes e Culverins; segundo os peritos, “armas
medievais atiradas contra a cavalaria inimiga”. Desviando desse campo
minado, o Homem titubeava em seu
abecedário: - Substância encontrada em vegetais, de grande
importância para o funcionamento do
intestino?. Os passos seguintes
formariam a barreira implacável. O Homem sofria a cada pergunta que preferia não ouvir:
- O maior império do mundo (em duração)? - Rei
pagão denominado pelos judeus como o Messias?... As muralhas e
fortificações, postas ao chão naquela
guerra, levaram-no à rendição. O ar,
agora, lhe faltava – disseram os legistas. Portanto, febril, cansado e
ofegante, ele se acomodara sobre a mesa, com a cabeça inclinada no braço curvado,
e o olhar, certeiramente, dirigido às pupilas da Mulher. E então,
a Mulher, com sua respiração traumática naquela batalha sangrenta, em que vencera o homem encastelado, numa luta
silenciosamente inumana, reconhecera no antagonista, conforme a perícia, um guerreiro, alguém de valor e à
altura, o que a levara à rendição
definitiva. A ausência do ar, agora, sufocava
a ambos – disseram os exames. Portanto, também ela, Dona Branca, acomodara-se na mesa com a cabeça
inclinada e o olhar certeiramente dirigido
às retinas do professor Pio!... Fortalecendo a narrativa técnica, o perito
retomaria o “caótico rio de pedras”, criando,
aleatoriamente, um apoteótico
final: “nenhuma voz humana podia se fazer ouvir naquele instante fatal sobre o
duelo na mesa; embora ambos, ali, tivessem o desejo de falar, de se despedirem
de toda a carga de emoção que arrastavam consigo, não conseguiriam. O ‘rio de
pedras’ interior que os conduzia, enfurecia-se cada vez mais, levando tudo ao
redor para as invisíveis vísceras da
terra, pulverizando cascalhos, blocos e rochas para exprimir, talvez, a impotência maior do Homem e da Mulher frente ao embate do vírus vencedor.”
Nota: (*) Umberto Eco – Confissões de um jovem romancista.
Ed. Record/2018.
(**) Versos do poema “O Lutador” – Carlos Drummond de
Andrade.
sábado, 2 de maio de 2020
O SORRISO DA TARTARUGA Crônica de Celso Lopes
O
SORRISO DA TARTARUGA
Na fábula que todos conhecemos, A Lebre e a
Tartaruga, quem sobe ao pódio, depois do “descaso” e do “cochilo” da Lebre durante a corrida,
obviamente, é a própria Tartaruga; no entanto, desta vez, a Tartaruga terá que
enfrentar um Sapo... Bem, na verdade, um Sapo tecnológico, é claro!...
Assim, avessa às tecnologias de ponta, a antiga
vencedora, agora, vai perder o trem, quer dizer, a corrida... Mas, acalmem-se –
continuamos torcendo, torcemos para que
ela chegue a tempo, e ainda possa “nadar” de braçada e “sorrir tranquila” pelos
sete mares afora.
Isso porque, essa tranquilidade, nos últimos tempos
tem esbarrado num “vilão marinho”, ou seja, o material plástico em suas várias formas: quer sejam sacolas, garrafas
pet, canudos, redes de pesca, isopor e
outros milhões de resíduos
descartáveis made-in-polipropileno – matéria-prima inerente a essa indústria de transformação.
De um lado, os detratores desse uso desenfreado
do plástico e ávidos por
alternativas “Sustentáveis”; e de outro,
a indústria, entidades e profissionais que pregam o uso consciente do plástico,
ou seja, uma educação ambiental efetiva, circular e mais incisiva, e obviamente, comprometida em
salvar o planeta e todas as espécies
terrestres e marinhas, a tempo.
À parte isso, uma boa notícia
para ambos!...
Alguns cientistas dos USA, acabam de criar um “robô-vivo”, a partir de
células-tronco de sapos africanos, de nome Xenobots,
que medem, aproximadamente, um milímetro,
e tem a função programável para trazer ou levar substâncias.
Aonde, por exemplo?
Os cientistas adiantam: esses organismos vivos e programáveis poderão
transportar remédios pelo corpo, viajar
pelas artérias para remover placas gordurosas e, aplausos!... poderão, quem
sabe, formar um exército-tarefeiro de milhões de Xenobots para coletar microplásticos dos rios, mares e oceanos.
E para não dizer que os cientistas não falaram de flores...
Os Xenobots são totalmente
biodegradáveis, e parecem cumprir uma instrução Bíblica saudável sobre a função do trabalho, somente que,
diferente do descanso bíblico no sétimo
dia, esses fieis-escudeiros, após a
sua labuta do dia a dia, morrem, ou
seja, transformam-se em células mortas – afirmam os pesquisadores.
Na fábula conhecida da Lebre e a
Tartaruga, a moral da história pode
relatar, entre outras possibilidades, que “devagar se vai ao longe”. Porém,
nesta fábula contemporânea, com esses novos
“atores” e “historiadores” do futuro, queremos crer que haja uma outra leitura possível.
Assim, as Tartarugas, sejam elas,
de água-doce, como a Tartaruga-Tigre do pantanal, ou Tartarugas
marinhas, principalmente as brasileiras
ameaçadas, como a Cabeçuda, de Pente, Oliva, de Couro, e até mesmo a Tartaruga-Verde,
todas elas, acreditamos, ganharão status
de ‘sobrevivência sustentável’, e poderão abrir um doce e largo
sorriso; e, ainda, de “quebra”,
a cooperação mútua, a cargo dos Sapos-robôs Xenobots,
com certeza, contribuirá para diminuirmos ou eliminarmos, de vez, o excesso de
ações predatórias e irresponsáveis
que atingem todo o meio ambiente.
DIÁLOGOS À BEIRA DO 'COMA' - crônica Celso Lopes
Diálogos à beira
do “coma”
No filme, Fale com ela, (Hable
con ella), do diretor Pedro Almodóvar, os personagens masculinos (enfermeiro e
jornalista) e os femininos (bailarina e toureira), estabelecem uma relação
intensa no hospital, onde ambas se encontram em coma. Marco, o jornalista, acredita que elas estão
mortas. Benigno, o enfermeiro, que cuida da bailarina (Lydia) aposta num “milagre” e aconselha Marco: “Fale
com ela”... “Fale com ela”... e é o que ele fará, de certa forma, dialogando
com o longo silêncio de Leonor ( a toureira).
Esse, digamos, monólogo, que no
filme ganha contornos de diálogos, pode, apropriadamente, tornar-se
uma “ferramenta essencial”, também nesses tempos de pandemia. Imagine-se como um paciente terminal. Você
está internado, próximo ao fim, mas você ainda escuta. De repente, ao seu lado
alguém diz: “ -
Farei o possível pela sua vida!...”
Até aí, alguns pontos a considerar:
primeiro, esse alguém, o médico ou
profissional especializado, poderia estar fisicamente ali, desde que
fosse possível, e com todos os cuidados
de um não-contágio, especialmente, frente a um vírus pandêmico, como é o caso
do recente coronavírus. Segundo ponto, o médico ou esse atendente
especializado, estaria acompanhando
você, via equipamentos de “Telemedicina” – com uso de som e imagem de vídeo; com a ressalva de que, até pouco tempo, esse procedimento sofria
certo viés contrário, uma vez que, culturalmente, exigíamos dos profissionais
de saúde um estreito contato com o paciente. Digamos que, quanto mais melhor, acredito que era assim que todos nós pensávamos.
Mas
há uma outra consideração que salta com relevância neste enfoque.
E vem de uma experiente profissional no trato com Cuidados Paliativos; um
enfrentamento habilidoso, entre médico-paciente
diante de doenças dolorosas e incuráveis. Tendo à frente, doentes que não podem receber visitas, a
médica Ana Cláudia Quintana, tema desse
texto, adianta que a importância do profissional de saúde nessa hora, alcança uma conexão fundamental e de extrema
confiança ao paciente. Para a doutora
- no
momento da nossa maior fragilidade, em que estamos morrendo, e todas as
medidas de sobrevivência já foram tomadas, não respondemos mais aos estímulos,
mas ouvimos de um profissional ao nosso
lado:
“ - Farei o melhor que
puder pela sua vida. Você é muito corajoso!...”
Para Ana Cláudia, esse gesto cuidadoso ganha proporções de reflexão sobre
a nossa finitude, tornando, não-necessariamente, a morte digna, mas sim, a vida digna. Por isso, acrescenta: “ Se a última coisa que você ouvir na sua vida for
isso, vai ter valido a pena. Não é nem
para salvar a sua vida, mas (fazer) o possível pela sua vida.”. A abordagem da médica, entre outros
pontos importantes, avança, com propriedade, para esse momento restritivo
imposto pela “pandemia” causada pelo
Coronavírus, em particular sobre o impedimento presencial junto ao leito, de familiares, ou mesmo, de profissionais de Saúde, numa fase delicada da perda do ente querido. Em sua ótica,
quando se vê o corpo, sepulta, chora, faz missa, faz rezas, esse ritual cria e
garante uma estrutura de segurança a quem fica;
é como se fizéssemos uma trilha
sinalizada. “ Sem essa ritualização, a emoção da perda é arrebatadora” – conclui.
Médica com grande reconhecimento na sua área, e autora de livros como “A morte é um dia que vale a pena viver” e “ Histórias lindas de morrer”, Ana Cláudia Quintana parece construir,
e constrói, cuidadosamente, aquele
“milagre” da narrativa do filme, apostando todas as suas fichas, sabiamente e humanamente, nesse aparente e improvável “diálogo” entre os
médicos e pacientes.
Texto: Celso
Lopes
Fonte: Mariana Alvim - @marianaalvimDa BBC News Brasil em
São Paulo (12/abril/2020).
O PULO DO RATO Crônica
“O PULO DO RATO”
Não, você não leu errado. Ainda que quem
esteja à frente desse estrelato de habilidades seja o Gato, com as suas 7 vidas ou por vezes até 9, de
acordo com cultura local de países,
neste caso, o felino terá de ceder a vez
e a expertise para o Rato. É
certo que continuamos tratando aqui de
Vida, onde os gatos seriam praticamente imbatíveis, seja pela proeza inimitável
do seu pulo, seja pela imunidade a doenças ou mesmo pela narrativa convincente das “sete vidas”,
entretanto, pasmem, resta-lhes abrir
espaço, pois o que está em jogo não é somente a Vida, porém, a Vida Eterna. Isso mesmo.
A vida eterna, garante o engenheiro formado pelo MIT e futurólogo venezuelano, José Luiz Cordeiro, está com os dias
contados, quer dizer, em contagem regressiva
de uma data ou progressiva para alcançá-la – à escolha de todos nós mortais. Ou seria
melhor dizer – imortais? Apresentando dados que, por vezes, queremos crer que
sejam mesmo verdadeiros, confiáveis, uma vez que respalda suas teorias sobre a
vida eterna em expoentes como o matemático David Wood (autor de A morte da
morte), incluindo o biólogo e cientista David Sinclair, da Universidade de
Harvard, Cordeiro ‘prega e bota fé’ no que chama de interrupção da velhice,
afirmando: “já temos novas tecnologias de reprogramação celular e estamos entre a
última geração humana mortal e a primeira imortal”. Quando perguntado sobre os caminhos dessa viagem sem
volta, saltam à tona, entre outros micro-organismos, as bactérias. “ Sabemos que há células e organismos que
não envelhecem, como, por exemplo, as bactérias. Elas são as primeiras formas
de vida no planeta”.
“Outro
tipo de célula que se descobriu que não envelhece é a do câncer” – acrescenta
enfático: “(...) Esse é o problema do
câncer, ele não envelhece e por isso é preciso matar todas as células
cancerosas porque, se deixar uma sobrevivente, elas voltam a se reproduzir”. No
rol desse esquadrão de “eliminadores do Gato” entram nomes de peso, como por
exemplo, a Microsoft: “ Depois do sequenciamento do genoma humano
conseguimos entender, por exemplo, que o câncer é uma mutação para se manter
jovem”. Cordeiro garante que a cura
virá por aí: “Não foi uma companhia
médica ou farmacêutica que falou isso (cura do câncer), mas a Microsoft, porque
o câncer é um problema computacional, não um problema médico. Podemos encontrar
as mutações que geraram o câncer e compará-las com as células não cancerosas”.
Outro
“golpe mortal” sobre os felinos estaria a um passo de acontecer, e chega pela Universidade de Tóquio através
de um Samurai-cientista, o japonês
Shinya Yamanaka, prêmio Nobel em 2012. “
Ele descobriu (2006) que células podem ser reprogramadas e que é possível
modificar genes de uma célula velha e torná-la novamente jovem (...)”, acentua Cordeiro. Para
fortalecer, ainda mais, as previsões,
Cordeiro agrega as projeções do futurista Raymond Kurzweil: “ Ele
fala que no ano de 2045 o envelhecimento e a morte se tornarão opcionais,
quando a inteligência artificial ultrapassará a inteligência humana”.
Assim, outra data, 2029, agora bem mais próxima, entra em cena: “...
alcançaremos a velocidade de escape da longevidade (....) para cada ano que
vivermos, ganharemos um ano a mais (...) Não é o suficiente. Kurzweil estima
que a partir de 2029 passaremos a viver indefinidamente, mas ainda
envelhecendo. E em 2045 teremos as tecnologias de rejuvenescimento biológico
com a reprogramação celular”.
Bem,
“o tiro de misericórdia” ao reinado e à
sobrevida dos felinos tem hora marcada, garante Cordeiro: O sequenciamento do genoma envolve três
bilhões de bases nitrogenadas (...) A
mente humana não consegue ver a diferença (...)
Nosso cérebro é limitado e a inteligência artificial não tem esse
problema. Por isso, ela será decisiva para a cura de muitas doenças e
tratamentos (...)”. E é neste ponto
que os ratos saem do buraco e nos
olham cara a cara. Afinal, geneticamente, são 90% iguais
aos humanos, e sobressaem-se, até aqui,
como excelentes “cobaias”, embora vivam em média dois anos e meio. Entretanto, afirma Cordeiro, entregando-nos,
de bandeja, “O pulo do Rato”: “
Agora temos espécimes que vivem cinco anos. Conseguimos duplicar a expectativa
de vida dos ratos. E já temos conhecimento suficiente para usar isso
experimentalmente com os humanos”. Pelo
visto, não temos nada a temer. Quem
precisará daquelas 7 vidas dos felinos, se são os ratos, agora, que já nos acenam com a Vida eterna?...
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
ESTUPOR Mensagem Intergaláctica (livro Poesia Lbertadora) Absurtos Editora
ABSURTOS EDITORA Olá, Celso!
A Absurtos Editora tem a felicidade de informar que, entre tantos
candidatos talentosos, o seu poema foi um dos selecionados em nosso
concurso literário e você está sendo convidado a participar da antologia Poesia
Libertadora – Prêmio Absurtos de Poesia.
(leia a poesia de Celso Lopes).
ESTUPOR - (mensagem
intergaláctica).
Ando
à míngua...
trago
comigo todas as línguas-mortas
na
ponta da minha língua.
Uma
outra linguagem, o que sou: surda-muda!...
Ando
à míngua...
à
espera de um aceno no reino do universo,
e
então serei farto em prosa e verso:
hei
de me saciar a pleno pulmões
e
não há de estuporar essa íngua!...
Ando
à míngua...
mas recusarei o banquete de Pélope
e não viverei o suplício de Tântalo*...
Hei
de vencer todas as apoplexias!...
Nunca
mais a fome, nunca mais a sede...
Seguirei
ímpar, multilíngue, como sei,
como sou:
um incansável decifrador de hierógrafos...
Eu, a nave-mãe, levando um epitáfio para o futuro:
um incansável decifrador de hierógrafos...
Eu, a nave-mãe, levando um epitáfio para o futuro:
“Saudações - a quem quer que você seja!...
Trago boa vontade e paz
através do espaço”**
(*) Tântalo, filho de Zeus, casado com Dione,
teve três filhos. Ousando testar os deuses, serviu-lhes a carne do filho Pélope. Lançado ao Tártaro, num vale com
abundante vegetação e água, foi
castigado a não poder saciar sua fome
nem a sede.(Mitologia grega).
(**)
Paráfrase à mensagem da Missão Espacial Europeia em pesquisa sobre a origem do sistema
solar, a vida na Terra e a provável existência de vida em outros planetas.
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
NÃO HÁ MAIS TEMPO, GENERAL JUCE!... Conto policial de Celso Lopes
Resultado da Seletiva para o Livro "PROCURADOS - Melhores contos Policiais nacionais e internacionais" com participações
de autores renomados em Portugal e na Argentina.
Foram mais de 200 contos, um desafio escolher os 20 melhores, mas foi preciso escolher, então temos nossos nomes. Será um livro ESPECIAL - 26 contos (contos dos organizadores e dos autores internacionais renomados) - com composição gráfica diferenciada, brindes personalizados e um lançamento de sucesso. Contos selecionados
1. Torta Vegana – Julia Ramalho
2. O Segundo Nascimento – Jorge Pontes
3. Aderir ou Morrer – Pedro Franco
4. Enredo – Adnelson Campos
5. A Mosca Presa na Garrafa – Alexis Machine
6. Setenta Vezes Sete – Wellington Fioruci
7. Sobre Pipas e Pássaros – Bruce Torres
8. Máscara Negra – Aline Moreira
9. Desforra – Mario Feitosa
10. Não Há Mais Tempo, General
Juce – Celso Lopes
11. Alma
Penada – Vitor Gagliardo
12. O
Abominável Homem do Saco – Davi Gonzales
13. Tudo,
menos isso – André Leitão
14. O Riso
Escarninho – Joaquim Bispo
15. Uma Noite
Qualquer – Diego Escopelli
16. Filho de
Peixe – Calebe Lopes
17. A Janela
Indiscreta - Bárbara Lia
18. O Artista
– Day Celestino
19. Vampiro
Contemporâneo – Danilo Morales
20. 01100010
– Fabiano Soares
“NÃO HÁ MAIS TEMPO, GENERAL JUCE...”
O telefonema
do Juce me perturbou por dois motivos. Dona Nara, inocentemente, teria dado o
meu número particular aqui na Segurança. Nessa hora só pude pensar – Ah! Dona Nara...sempre boazinha, não é, Mãezinha!?
Por outro lado, sei como ele é um obstinado desde criança. Portanto, vinha
chumbo grosso. Com a habilidade que eu tinha para desenhar, vi que ainda conseguia
rascunhar na folha em branco, o semblante perfeito do Marcelo. Mas, me dou conta que esses traços
escondem um pouco das minhas preocupações. Ainda que sem o acabamento, a falta do degradê, dos contornos esmaecentes, aqui
está ele com o quepe, a farda, o coturno e o sorriso largo... Assim, em preto e
branco, o desenho me lembra a noite da formatura dele, quando, eu me senti atingido pelas farpas doces da felicidade, pois, sob
aplausos, Marcelo receberia uma destacada
homenagem na Academia de Polícia e o reconhecimento de todo o corpo docente. Mas nem tudo ficou sob
controle. Para o Marcelo a base móvel dava-lhe
o respeito e o compromisso de se fazer algo de bom para a comunidade. Mas essa atitude dele virou um incômodo para
mim. O mínimo que eu esperava era que
ficasse mais próximo ao poder, assumisse
uma Secretaria, uma Diretoria... e de mais a mais, convenhamos,
a base móvel estava muito aquém do
Marcelo. Cansei de dizer isso a
ele: Filho,
a base Joana D’arc é um
alvo a céu aberto. No entanto, Marcelo quer se fazer por si. Os amigos instigam: “ - você
é o herdeiro do homem mais forte da Polícia”... Ele insiste que vai subir pelos próprios méritos. Personalidade forte, a
dele, tenho que admitir. Mas a
encrenca já está pronta. Juce, o cérebro do tráfico, não me dá tréguas. Por
isso, o telefonema e o aviso: “- Benhur,
ou libera os meninos pro dia das Mães ou o seu moleque na Joana D’arc vai passar dessa pra outra...eu não brinco,
você sabe!...”
Somos
exatamente da mesma idade. Nossos pais eram amigos e, coincidentemente, nascemos no
mesmo onze de agosto. O bom foi que eu e o Júlio Cesar,
o Juce, comemoramos, juntos, por muito tempo os aniversários. E bota
coincidência nisso: tivemos historias de vida como uma epopeia familiar. Mamãe,
dona Nara, e dona Laura, a mãe do
Juce, quando grávidas, debruçaram-se em relatos de
heróis medievais à cata de nomes
apropriados ao primeiro filho. Isso, tão
logo o ultrassom acabara de confirmar o nosso sexo!... Dali à escolha, o tempo foi rápido. Empolgada com a vida de um rico mercador Judeu,
traído e escravizado , mas que se esforçara pela liberdade,
dona Nara não vacilou: - Benhur!... – disse à amiga, contornando a barriga,
delicadamente, com as mãos, e
reiterando, com amplo sorriso nos
lábios, o nome épico, para que eu,
ainda bebê, pudesse ouvi-la: “- Benhur!... “- Júlio César, mas sem o Caio - de
Caio não gosto!...disse Dona Laura, colocando um ponto final à procura. Júlio
César!... E segundo Dona Nara, ela
disse de forma empolgadíssima, porque o
achado era excelente: um general importante do Império Romano... “- E que melhor coisa o “Juce” iria querer, hein? -
acentuara, alegre, com a certeza
de que o apelido criado pela junção das
primeiras sílabas, dava prestígio ao seu
rebento: JU-CE!...
E
completaria:- Juce é tão bonito, você não
acha, Narinha?... Dona Laura, pouco
a pouco, apresentava-se com uma
habilidade acentuada para “Mãe”. Feito sob medida para a maternidade. E ode-se dizer que me adotara para sempre em seu lar, e falando, orgulhosamente: “amo Benhur, gosto do jeito compenetrado
desse menino, e vejo para ele – mais que meu próprio filho – um
brilhante futuro!...“. Dali pra frente o
mundo deu voltas e mais voltas. Surgiram invejas, brigas e desentendimentos. Mais
tarde o conflito ficou claro: Eu, o Major
Benhur, assumi o Comando Geral da
Segurança; e ele, Júlio César, o Juce, tornou-se o
chefe da maior organização criminosa implantada no interior dos
presídios. Hoje vejo que tivemos por
onde nessa rivalidade. Entrei na corporação e dei os primeiros passos no
Presídio Disciplinar – a menina dos olhos
da Segurança Pública - Ali, ganhei
um apelido que moldava minhas atitudes – Benhur... o Dá-Sem-Dó!... Por sua
vez, Juce, detido no presídio, apresentou-se à frente dos detentos com uma liderança
ímpar, articulando fugas memoráveis, o
que deu origem ao destemido Juce,, o general Juce, como o chamavam. Ali,
ficaríamos frente e frente pela primeira vez, por força do sequestro da Assistente Social
no interior do pavilhão. Sob meu comando,
a tropa fez tombar a porta onde Juce e seu grupo mantinham
a refém. Entretanto, o general Juce desenhou um cenário que exigia atenção, pois mantinha a Assistente junto
à mesa, deixando visível faca ao alcance da sua mão. Ali, pude
ler nos olhos dele, as artimanhas de um golpe anunciado. Mantive-me em silêncio, sinalizando à
tropa o posicionamento em círculo.
Estava claro que Juce levaria essa
infâmia até o fim do mundo,
pois tinha a refém e inibia qualquer iniciativa
precipitada. A mim, restava-me decifrar
aquele cenário estratégico: o episódio
levado às últimas consequências,
transformaria o general Juce de
bandido a herói, pois os tiros
sobrariam para a Assistente Social. Refém
do silêncio instalado, aos poucos, deixei que vissem os contornos de um sorriso
cínico, que me transformava, paulatinamente, no antigo Dá-Sem-Dó. Eu precisava
agir tal qual aprendera no comando da Polícia. A tropa interpretava o código em ordens
de Atenção, Preparar, Fogo!....
Nesse instante, porém, o que ouvimos, a partir dali, foi um
grito. Um grito de mulher que, instintivamente, decifrara aquele sorriso enigmático e doava-se
de corpo e alma aos detentos. De braços
abertos, como um sinal da cruz a
intimidar os fariseus, a Assistente
compreendeu que nenhum dos dois
cederia. Cristãos todos, Juce e eu recuamos, ambos, ligeiramente intimidados. A tropa baixou as armas. Juce afastou-se da faca. E com a delicadeza de uma Mãe, coube à refém indicar um caminho seguro para todos. Assumi o comando da tropa. Juce orientou a
rendição dos seus. Superado o incidente, seguimos cada qual o seu rumo. Agora, aqui na sala, sobre
a mesa, também fiz surgir no papel, o rosto
duro e grotesco do general Júlio César!... Na verdade, era sabido de todos, que Juce,
desde há muito, incomodava a Segurança Pública.
E o telefonema daquela manhã não desmentia. “- ...Você
me conhece, Benhur.... - Ah! Benhur... Dona Laura manda lembranças, e parabéns
pelo nosso aniversário!...” Olhando o desenho, não pude deixar de ver na
infância, o corajoso Juce, o estrategista Juce enganando a todos na brincadeira de “Salva-Cadeia”...Já não havia mais a quem
pegar, todos estavam presos na corrente indiana, faltava apenas ele...e nada do Juce aparecer
pra libertar os amigos. Na rua, próxima à praça, apenas alguns boias-frias chegando do
trabalho com apetrechos e enxadas às costas... Pois, exatamente quando passavam
pela “cadeia”, surgiria o aguerrido Juce, disfarçado num desses
trabalhadores e, tranquilamente, daria o salvo-conduto a todos naquela prisão
inventada pelo imaginário infantil!... E
mais, sabe-se lá como, certo dia, Juce
alçara o alto vitral da Igreja, já
iluminado, e ali, diante dos nosso
olhos desatentos, postara-se como São Sebastião – como se ele,
também, flechado, de cabeça inclinada, fosse um desenho do próprio vitral. Em
instantes, Juce desceu do alto do
batente e, novamente, com seu gesto, salvaria todos os amigos daquela infame
prisão infantil: - liberdade para todos!.. - dizia
eufórico.
Na
reunião de cúpula dessa manhã, tentei
esfriar os ânimos da linha mais dura, que pedia a transferência de detentos para presídios de
segurança máxima. Minha insistência na
liberação dos presos no Dia
das Mães ficou evidente. Mesmo amaldiçoando Juce, tentei ganhar tempo. Entretanto, a referência às genitoras, foi tratada
com ironia pela turma da mesa oval, e ganhou desdobramentos. Os gráficos
indicavam um número excessivo de
presidiários com direito ao benefício; isso traria pânico e insegurança à população, além de descrédito à Polícia.
Depois de entreveros, a maioria venceu,
optando por nenhuma
liberação. Degluti o resultado, porém,
o meu desconforto saltava aos olhos da Corporação. O Capitão Jardim, por exemplo,
chegou a me perguntar: “ - Está tudo bem, Major?...”. Entendi que me restava, agora, correr contra o tempo e acionar
o celular do Marcelo com a autoridade de Comandante e Pai. Antes, porém, segui até o Controle Geral para informar sobre minha proposta de desativamento da base Joana D’Arc. Eu corria riscos, porém,
estava claro que temia
pela presença do Marcelo no local. Justifiquei a iniciativa como um
estudo experimental, mas o tempo correu
contra mim. Antes que eu dissesse ao
telefone, “espera, Juce” , a voz do
maldito general romano cresceu
poderosa, soando como um rojão. Senti no próprio corpo, a pressão
incômoda e dolorida de um soco na boca do estômago: “ - Não brinco, Benhur!...” - finalizou Juce.
Atropelando os meus movimentos,
avancei corredor adentro,
enquanto tentava, já, pela quinta
vez, acionar o celular do Marcelo, a essa hora, sem qualquer resposta. Na sala
do Comando, pude confirmar o que Juce já havia me soprado ao telefone: “ - A
base da Joana D’Arc foi atacada, Comandante .. e temos vítimas!.. Lamento,
Major, lamento...
Por
certo, quem me visse de volta à sala, perceberia a arma e o silenciador, entretanto,
não conseguiria descrever a minha fisionomia. Sentia-me com
marcas fundas do rosto, acentuando em mim, o que se pode chamar de raiva, ódio e um clamor impiedoso de vingança; e ouviria um nome
ser repetido de forma insistente: - Dona
Laurinha!.. – Dona Laurinha!..
Manobrei
o carro pelas ruas estreitas do bairro e
vi de perto o pé-de-amora na casa
de dona Rosa. Aspirei o quanto pude, aquele aroma eterno da infância!... Em instantes, direcionei-me para a antiga casa azul de portão amarelo. Acionei a campainha, e sem demora, o gesto colocava à minha frente, a já idosa Dona
Laura, Dona Laurinha – a doce mãe do general romano Júlio César
- o Juce. A dois passos de distância, Dona Laura irradiava uma
esfuziante recepção, capaz de inundar a própria rua:
- Benhur...meu menino!... e Narinha, como vai?
– Quanto tempo!... Que bom te ver por
aqui!... Parabéns pra você e pro Juce!...
Aquela
voz
melodiosa atingia-me como uma punhalada na alma.
Entretanto, militarmente circunspecto,
repeti a mim mesmo, que não haveria volta. Dona Laurinha que me
perdoasse, mas não poderia transigir ao meu intento. Recuar, agora,
seria tão improvável quanto a ordem de Juce
contra a base móvel do meu filho
Marcelo. Minha mão seguiu ao encontro da arma colidindo com minha
respiração ofegante; no entanto, isso não
me impedia de assentir a mim mesmo, que Dona Laurinha carregaria com ela, o vale-tudo
dessa rivalidade entre mim e Juce. Entretanto,
antes que eu levantasse o revólver à altura exata, ouvi o ruído no alpendre, a voz
enfática do general romano Juce: “
Mãe!...Mãe... está por aí?”
Aquela
presença inesperada colocava-nos, mais
uma vez, frente a frente, e entre
nós, agora, Dona Laurinha, a mãe de
ambos, que, eufórica, quebraria o incômodo silêncio diante dos seus filhos queridos, no dia do aniversário. À curta distância, os olhos do general Juce me fulminavam: - Dona Laurinha, Benhur?... você ia atirar em Dona Laurinha... a Mãe que te
acolheu!?...Meus olhos transformaram-se, ali, em potentes explosivos: - E o Marcelo,
Juce, e o Marcelo? ...Você me tirou o único filho!.... Nossos
olhares cruzados, faiscantes e
estratégicos, buscavam a certeza do
primeiro gesto, e no entanto, recebia a indulgência de Dona Laurinha: - O que
houve, vocês brigaram?...brigaram? - dissera ela, desorientada e incapaz de
perceber que um dos seus filhos arriscaria a romper
aquele insuportável silêncio... E então, ali, em fração de segundos,
disparei duas vezes, antes mesmo que uma
voz dentro de mim, dissesse: -
“ Não há mais tempo, general
Juce!... Não há mais tempo!...”
Texto: Celso Lopes
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